A Operação Casa Nova, da Delegacia de Polícia Especializada (DPE), prendeu em flagrante, 17 pessoas acusadas de participar de um suposto esquema de fraudes a contratos de financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal e da Associação de Poupança e Empréstimo (Poupex). Ao todo, 23 pessoas são investigadas.
O esquema consistia em possibilitar que pessoas que não preenchiam os pré-requisitos das instituições financeiras parecessem aptas a contratar financiamentos. Entre os principais alvos da quadrilha estariam os programas Construcard, da Caixa Econômica, que é uma linha de crédito destinada a compra de material para construção, e o Moveiscard, também da Caixa, utilizado para financiar móveis e eletrodomésticos.
Os criminosos montavam postos de atendimento próximos a agências da Caixa Econômica Federal e da Poupex e divulgavam seus serviços por meio de panfletos e cartões de visita. A quadrilha agia há cerca de um ano no Distrito Federal e passou a ser investigada pela Polícia Civil há dez meses, após denúncias anônimas de pessoas que estariam sendo beneficiadas pelo esquema.
Em uma ação durante a madrugada, a polícia apreendeu documentos fraudados, como contas da Companhia Energética de Brasília (CEB) e da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), carimbos, cartões e computadores em uma gráfica associada à quadrilha no Setor de Indústrias Gráficas de Taguatinga. No local, ainda foram encontradas notas fiscais que poderão ajudar a polícia a esclarecer outros crimes. O proprietário da empresa é Wester Silva, que também foi preso.
Função
Cada membro da suposta quadrilha possuía uma função na organização. Noeli Ferreira, apontada pela polícia como uma das cabeças do grupo, é funcionária da Secretaria de Fazenda (Sefaz-DF). Ela era responsável por conseguir dados reais, exclusivos da Sefaz-DF, para alimentar documentos falsos que seriam utilizados como comprovantes da existência dos imóveis a serem financiados. O marido de Noeli, Wemerson Ferreira, segundo a polícia, auxiliava a esposa no processo de falsificação. Mais dois funcionários públicos, um policial militar e um bombeiro reformado, integrariam o bando.
Versão Oficial
A Secretaria da Fazenda informou que aguardará a conclusão do inquérito policial e, dependendo dos resultados da investigação, tomará as medidas administrativas cabíveis em relação aos funcionários possivelmente envolvidos.
Suspeitos possuíam um “cartório”
O delegado de Roubos e Furtos da DPE, Jefferson Lisboa, enfatiza que os imóveis existiam, mas não eram, de fato, propriedade das pessoas que contratavam o financiamento. Segundo ele, os contratantes utilizavam os documentos falsos para financiar outros imóveis ou arrecadar dinheiro do empréstimo. “Eles tinham uma espécie de cartório, com tudo o que era solicitado pelos bancos para os financiamentos.”
Já Edmilson Costa era, de acordo com Lisboa, um “gerente”. Ele contratava os corretores. Cada um fechava cerca de 300 contratos por mês e recebia um percentual do valor. Só Edmilson tinha lucro de R$ 50 mil a R$ 55 mil por mês. Maikon, Magno e Márcio, filhos de Edmilson, participavam como corretores.
Atrás dos contratantes
A partir da prisão desse grupo a polícia pretende chegar às pessoas que contrataram os serviços da quadrilha. “Vamos verificar cada caso individualmente. Se for comprovado, no entanto, que essas pessoas sabiam do esquema, elas poderão responder por uso de documentos falsos, entre outros crimes”, afirma o delegado Jefferson Lisboa.
Apesar de integrantes do grupo terem sido presos em vários pontos do DF e de Goiás, a polícia garante que a ação da quadrilha se restringia apenas ao DF.
A prisão na DPE é preventiva. De lá, os acusados devem ser encaminhados para julgamento e posteriormente para a Papuda. Eles responderão pelos crimes de estelionato (obter para si ou terceiros vantagem ilícita), uso de documentos falsos, receptação (receber ou transportar material criminoso) e constituição de organização criminosa. As penas para esses crimes podem totalizar mais de 15 anos de prisão. O delegado confirma, ainda, que os outros seis suspeitos continuam sendo investigados e que se sua participação nos crimes for comprovada eles serão procurados.
Informações
A assessoria de imprensa da Caixa Econômica Federal informou que está buscando mais informações sobre a operação policial para avaliar eventuais providências cabíveis. A empresa pública garante contribuir com as autoridades no que for necessário.
A Poupex, por sua vez, afirmou repudiar toda e qualquer prática ilícita e garante que toma todos os cuidados no que diz respeito à verificação da documentação entregue por seus associados.
Além disso, a empresa diz estar acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos das autoridades competentes para avaliar as providências a ser tomadas.
