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Brasília

Secretário da Copa não convenceu na explicação sobre renda do jogo

Arquivo Geral

30/05/2013 11h00

Um evento milionário que deixou uma mixaria de R$ 4 mil nos cofres públicos do GDF. Assim foi o jogo Santos x Flamengo, no último domingo, no novo estádio Mané Garrincha, uma obra que vai chegar a R$ 1,6 bilhão, conforme dados do Tribunal de Contas do DF (TCDF). Para explicar essa equação que não fecha, a Comissão Especial da Copa do Mundo da Câmara Legislativa convocou para uma sabatina o secretário especial Cláudio Monteiro. Depois de quase três horas, ele tentou, falou, desconversou, mas não esclareceu muita coisa. Quase todos os questionamentos ficaram por conta de longas respostas sem detalhes financeiros. 

 

A renda da partida foi recorde nacional: R$ 6,9 milhões. E ficou para uma empresa – a Aoxy – que teria “comprado” os direitos da arrecadação por R$ 800 mil. Secretário Extraordinário da Copa no Distrito Federal, Cláudio Monteiro revelou que “receber um jogo daqueles já é privilégio”. 

 

“O GDF recebeu de presente dois jogos-testes para a Copa”, reiterou o chefe da pasta. “A cidade ficará marcada pela despedida de Neymar”, disse, mais uma vez, tentando justificar o valor do aluguel da arena. Sobre o aluguel, aliás, Cláudio Monteiro até brincou. Disse que já sugeriu ao governador que se sorteasse uma família para realizar um casamento no Estádio Nacional. Que tal? 

 

Decreto

 

Ao ser questionado sobre a bagatela do aluguel por diversas vezes, Monteiro apenas informou estar amparado em um decreto que estabelece o valor. 

 

Na verdade, o decreto foi assinado em 2008, pelo então governador José Roberto Arruda, antes de finalizada a obra do novo estádio. E estabelece que o valor do aluguel do local para eventos esportivos é de R$ 4 mil, chegando, chegando a R$ 10 mil para eventos diversos. Ou seja, derrubaram o estádio velho, construíram o mais caro do País e não alteraram o preço cobrado pelo aluguel do espaço. 

 

Insatisfação

 

No fim da audiência na Câmara Legislativa, a deputada distrital Eliana Pedrosa se disse insatisfeita com as respostas pouco objetivas e consistentes. “Não disse nada. Nada que justifique tudo o que vimos pós-jogo”, afirmou. 

 

Tanto ela quanto a deputada Celina Leão salientaram que exigirão ao governo maiores detalhes sobre a organização financeira do evento milionário. Pedrosa destacou ainda que enviaria pedido à Secopa da cópia do decreto que estabelece o irrisório valor de aluguel do Estádio Nacional. 

 

Excelência  é só o que importa?

 

Durante a sabatina, Monteiro disse  que não há, por parte do governo, preocupação com os valores da obra e, sim, em garantir a excelência do projeto.  O valor da arena, ressaltou, é menor do que a reforma do Maracanã. Porém, segundo dados oficiais, no Rio os gastos devem chegar a R$ 1,2 bilhão. 

 

Ainda sobre como funciona o esquema de aluguel, o secretário foi pouco esclarecedor. Com respostas longas e sem objetividade, ele   disse que a responsável pela administração do antigo Mané Garrincha é a Terracap. Afirmou que os R$ 4 mil arrecadados  ficaram com o órgão. 

 

A administração das lanchonetes   foi outro ponto sem grandes explicações, já que não houve licitação. Monteiro revelou que, no domingo, os bares ficaram por conta do Peixe: “A partida era do Santos, portanto esses detalhes pertenciam ao time, que deixou isso a cargo da Federação Brasiliense de Futebol”. 

 

Borderô

 

O problema é que a federação tem preferido o silêncio. Até o fechamento dessa edição, misteriosamente, o borderô da partida – prestação de contas – que a FBF deveria ter entregue à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para publicação no site ainda não havia sido liberado, embora o prazo seja de   48 horas após o jogo.

 

A deputada Eliana Pedrosa questionou o não recolhimento de impostos. Monteiro se atrapalhou e disse que a Secretaria de Fazenda teria recolhido o Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf). Mas, como o próprio nome diz, é uma receita federal e não local. “E o Imposto Sobre Serviço (ISS)? Como pode uma empresa   realizar um evento deste porte e não recolher um centavo aos cofres públicos?”, questionou Eliana. De acordo com torcedores,  nos ingressos não constava   inscrição em relação a essa autorização. 

 

 

Durante a audiência, o deputado Chico Vigilante (PT), ferrenho defensor do   Buriti na Câmara, tentou impedir o debate, declarando que “isto não é uma CPI”. 

 

 
 
Todos querem festa ali
 
 
 
 
“Vou fazer a minha festa no novo Mané Garrincha”. Essa é frase que mais sai da boca dos brasilienses nos últimos dias. Essa animação toda não é somente pelo gramado impecável, pela estrutura confortável e pela beleza indiscutível do local, mas sim pelo valor cobrado pelo “aluguel” do espaço.  O estádio, que vai custar R$ 1,6 bilhão, só trouxe R$ 4 mil para o GDF. Esse valor é referente a uma taxa administrativa. Ou seja,  seria uma espécie de pagamento pelo uso do local.
 
 
O alvoroço é motivado pelo valor muito abaixo dos padrões das festas na capital. Quem já participou   da organização de uma festa sabe que esse montante não é suficiente. De acordo com Caroline Lucena,  do salão de festas Espaço da Corte, o valor está fora da realidade. “Impossível fazer uma festa com essa quantia”, declarou.
Segundo ela, em um espaço com a estrutura do estádio, o valor compatível com a realidade seria muito maior. “Jogando por baixo, o aluguel seria de no mínimo R$ 50 mil. Isso é só a locação”.
 
 
Ela explica que a média de preços de aluguel do espaço, que comporta até 1,2 mil pessoas, é de cerca R$ 138   por convidado. “O preço varia de acordo com os serviços oferecidos”, conta. Segundo Caroline, a locação do espaço custa R$ 8.880.
 
 
Segundo Helena Costa, do espaço La Fiesta, Helena Costa, um festa para 200 pessoas, por exemplo, sai bem mais cara. “O gasto mínimo por pessoa  é de, aproximadamente, R$ 300. Com tudo incluído, o evento sai por R$  35 a R$ 70 mil”, diz.
 
 
De acordo com a cerimonialista Aline Pires, ao alugar um espaço muitos outros custos são levados em consideração. “Não é só uma questão de ceder o espaço. São oferecidos serviços como manobrista, som, entre outros”, declarou.
 
 
 
 
 
Ingresso mais barato
 
 
 
 
 
O jogo entre Santos e Flamengo  parece ter aberto um novo panorama na capital. A arrecadação de quase R$ 6,9 milhões com   ingressos até R$ 400, bem acima da média nacional, levou as  deputadas Celina Leão e Eliana Pedrosa (PSD) apresentarem o projeto de lei Ingresso Legal, que restringe lucros abusivos na venda de ingressos nas competições esportivas e eventos culturais no DF. 
 
 
De acordo com a proposta, o valor cobrado não poderá ultrapassar 15%  da média nacional. Caso não seja possível apurar essa média, o valor   deverá ser justificado por meio de planilhas técnica e de cursos.
 
 
Segundo a deputada Celina Leão, o projeto permitirá a inserção de todas as classes sociais nas atrações. “O objetivo é fazer com que todas as pessoas tenham a oportunidade de pagar e comparecer a esses eventos. No jogo do Flamengo, por exemplo, quantas pessoas gostariam de ter ido e não puderam pagar?”, questionou. 
O projeto foi protocolado e está tramitando nas comissões. 
 
 
Repercussão

 
Muitos  brasilienses consideram que os preços de eventos em Brasília são superiores a demais cidades.  “Como a oferta é pequena, eles ‘metem a faca’. Se tivessem mais eventos, talvez o preço fosse menor”, declarou a   analista de relações institucionais Juliana Dib.
 
 
O policial militar Heitor Romero, 28 anos, destaca que os valores cobrados na capital federal são “exorbitantes”. “Acho que eles deveriam pensar menos nos lucros e priorizar a sociedade”, destacou. Ele acredita que o acesso aos eventos culturais deve ser democrático.  “Um esporte como o futebol, que é do povo, não pode ser elitizado”, disse.
 
 
 
 

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