Um evento milionário que deixou uma mixaria de R$ 4 mil nos cofres públicos do GDF. Assim foi o jogo Santos x Flamengo, no último domingo, no novo estádio Mané Garrincha, uma obra que vai chegar a R$ 1,6 bilhão, conforme dados do Tribunal de Contas do DF (TCDF). Para explicar essa equação que não fecha, a Comissão Especial da Copa do Mundo da Câmara Legislativa convocou para uma sabatina o secretário especial Cláudio Monteiro. Depois de quase três horas, ele tentou, falou, desconversou, mas não esclareceu muita coisa. Quase todos os questionamentos ficaram por conta de longas respostas sem detalhes financeiros.
A renda da partida foi recorde nacional: R$ 6,9 milhões. E ficou para uma empresa – a Aoxy – que teria “comprado” os direitos da arrecadação por R$ 800 mil. Secretário Extraordinário da Copa no Distrito Federal, Cláudio Monteiro revelou que “receber um jogo daqueles já é privilégio”.
“O GDF recebeu de presente dois jogos-testes para a Copa”, reiterou o chefe da pasta. “A cidade ficará marcada pela despedida de Neymar”, disse, mais uma vez, tentando justificar o valor do aluguel da arena. Sobre o aluguel, aliás, Cláudio Monteiro até brincou. Disse que já sugeriu ao governador que se sorteasse uma família para realizar um casamento no Estádio Nacional. Que tal?
Decreto
Ao ser questionado sobre a bagatela do aluguel por diversas vezes, Monteiro apenas informou estar amparado em um decreto que estabelece o valor.
Na verdade, o decreto foi assinado em 2008, pelo então governador José Roberto Arruda, antes de finalizada a obra do novo estádio. E estabelece que o valor do aluguel do local para eventos esportivos é de R$ 4 mil, chegando, chegando a R$ 10 mil para eventos diversos. Ou seja, derrubaram o estádio velho, construíram o mais caro do País e não alteraram o preço cobrado pelo aluguel do espaço.
Insatisfação
No fim da audiência na Câmara Legislativa, a deputada distrital Eliana Pedrosa se disse insatisfeita com as respostas pouco objetivas e consistentes. “Não disse nada. Nada que justifique tudo o que vimos pós-jogo”, afirmou.
Tanto ela quanto a deputada Celina Leão salientaram que exigirão ao governo maiores detalhes sobre a organização financeira do evento milionário. Pedrosa destacou ainda que enviaria pedido à Secopa da cópia do decreto que estabelece o irrisório valor de aluguel do Estádio Nacional.
Excelência é só o que importa?
Durante a sabatina, Monteiro disse que não há, por parte do governo, preocupação com os valores da obra e, sim, em garantir a excelência do projeto. O valor da arena, ressaltou, é menor do que a reforma do Maracanã. Porém, segundo dados oficiais, no Rio os gastos devem chegar a R$ 1,2 bilhão.
Ainda sobre como funciona o esquema de aluguel, o secretário foi pouco esclarecedor. Com respostas longas e sem objetividade, ele disse que a responsável pela administração do antigo Mané Garrincha é a Terracap. Afirmou que os R$ 4 mil arrecadados ficaram com o órgão.
A administração das lanchonetes foi outro ponto sem grandes explicações, já que não houve licitação. Monteiro revelou que, no domingo, os bares ficaram por conta do Peixe: “A partida era do Santos, portanto esses detalhes pertenciam ao time, que deixou isso a cargo da Federação Brasiliense de Futebol”.
Borderô
O problema é que a federação tem preferido o silêncio. Até o fechamento dessa edição, misteriosamente, o borderô da partida – prestação de contas – que a FBF deveria ter entregue à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para publicação no site ainda não havia sido liberado, embora o prazo seja de 48 horas após o jogo.
A deputada Eliana Pedrosa questionou o não recolhimento de impostos. Monteiro se atrapalhou e disse que a Secretaria de Fazenda teria recolhido o Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf). Mas, como o próprio nome diz, é uma receita federal e não local. “E o Imposto Sobre Serviço (ISS)? Como pode uma empresa realizar um evento deste porte e não recolher um centavo aos cofres públicos?”, questionou Eliana. De acordo com torcedores, nos ingressos não constava inscrição em relação a essa autorização.
Durante a audiência, o deputado Chico Vigilante (PT), ferrenho defensor do Buriti na Câmara, tentou impedir o debate, declarando que “isto não é uma CPI”.