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Brasília

Saúde Pública: trinta horas de muita dificuldade no HBDF

Arquivo Geral

25/05/2013 9h30

Maior unidade de saúde do Distrito Federal, o Hospital de Base recebe todos os dias pessoas com diferentes histórias, necessidades e classes sociais. São cerca de 600 pessoas atendidas por dia na emergência e 1,9 mil internações por mês, segundo o Ministério da Saúde. Tantos pacientes têm em comum uma vontade: que a precariedade do sistema dê lugar a um atendimento de qualidade. Impressionado com o que viu na unidade,  Marcos Sorrentino, assessor do ministro da Educação, Aloízio Mercadante, relata que passou 30 horas de dificuldades no hospital, que compara à realidade do Haiti.

 

Após sofrer uma queda, durante viagem ao litoral paulista, o assessor procurou o Hospital da Universidade de São Paulo. Ao saber da complexidade da fratura, o servidor do MEC decidiu fazer o tratamento onde mora, em Brasília. Na capital, a primeira tentativa foi em um hospital particular, onde foi informado que deveria   ser operado e colocar um pino na tíbula e na tíbia, ossos afetados pelo acidente. O valor seria de R$ 30 mil. Por não ter plano de saúde, Marcos optou pela rede pública, na esperança de ser bem atendido.

 

No Hospital de Base, Sorrentino teve a primeira má impressão ao ver o banheiro da internação de emergência. “Esse banheiro foi o único que eu vi por perto e atendia a muitas outras pessoas. Estava molhado e as pessoas de muleta escorregavam. Quem não tinha acompanhante passava dificuldade”, relembrou.

 

Superlotação

 

Essa não foi a primeira vez que ele recorreu à rede pública. Da primeira vez que morou em Brasília, em 2003, precisou passar pelo Hospital de Base, já superlotado e com problemas de infraestrutura. O que mais o comoveu foi a quantidade de pessoas espalhadas pelos corredores. Para ele, o cenário era similar ao visto em guerras e tragédias, como o terremoto que devastou o Haiti. Daí veio a ideia do título do artigo assinado por ele e pelo jornalista Luiz Motta.

 

Cenas que ficarão na memória

 

Uma das cenas mais chocantes que Marcos viu dentro do Hospital de Base foi uma mulher com trombose no pé se sujar com as próprias fezes. Isso teria acontecido porque, naquele momento, não havia enfermeiras   para ajudar a paciente. 

 

Em meio a tantas dificuldades, algo chamou atenção do assessor: a dedicação dos servidores. “É admirável a dedicação das enfermeiras e das auxiliares de enfermagem do hospital. Elas davam banho e ajudavam os pacientes como podiam”, disse. Além disso, Sorrentino também sentiu segurança no parecer do médico que o atendeu e na recomendação de que o tratamento com gesso seria tão eficaz quanto a cirurgia, sem os transtornos trazidos pela intervenção cirúrgica.

 

 
Governantes na rede pública
 
 
 
 
As 30 horas dentro do maior hospital do DF   fizeram o assessor Marcos Sorrentino pensar sobre como seria possível melhorar a situação. A  possibilidade de aderir a um plano de saúde foi descartada. “Precisamos valorizar o Sistema Único de Saúde. São necessários melhores gestão e recursos. Não é possível que não existam recursos para melhorar. Deveria ser construído um novo pavilhão para melhorar a internação de emergência do hospital”, propôs. “Continuo tendo fé na saúde pública”, garantiu.
 
 
 
Para Marcos, o primeiro passo para a melhoria da saúde pública é fazer quem toma as decisões sentir na pele as dificuldades enfrentadas pelos usuários. “Espero que os gestores, políticos e governantes usem a saúde pública. Assim como quem uma pessoa que nunca andou de ônibus não sabe das dificuldades do transporte público, quem não precisa da saúde pública não vai saber como as coisas funcionam”, enfatizou.
 
 
 
GEAP
 
 
  Sorrentino, assim como centenas de servidores do Ministério da Educação, ficou sem plano de saúde após uma decisão judicial barrar o contrato com a Fundação de Seguridade Social (Geap). A entidade privada foi criada para atender os ministérios da Previdência e da Saúde. No entanto, atualmente a Geap é parceira de 88 órgãos espalhados por todo o Brasil. 
 
 
A Justiça determinou em março deste ano que deve ser feita licitação para a contratação dos serviços por todos os órgãos, que não foram responsáveis pela criação da empresa, a exemplo do Ministério da Educação. O imbróglio se arrasta desde 2004, quando o Tribunal de Contas da União considerou irregulares os convênios com mais de 250 mil servidores públicos federais. A diretoria da Geap não foi encontrada para comentar o assunto.
 
 
ARTIGO 
 
 
 
Internação de emergência do Hospital de Base de Brasília: o Haiti é aqui!
 
 
 
Marcos Sorrentino e Luiz Motta
 
 
 
Em algum momento já havíamos ouvido ou lido essa frase. Era ela que surgia em nossa conversa para expressar as cenas que ocorreram nas pouco mais de 30 horas que estivemos no Hospital de Base de Brasília.
 
 
Cenas que denunciavam a negligência no atendimento da base mais pobre e da chamada nova classe média brasileira que não paga planos de saúde e submete-se aos rituais de internação no mais importante hospital público de Brasília.
 
 
Oito e trinta da manhã, o guarda da porta de entrada informava não haver cadeiras de rodas disponíveis no momento. Restavam as muletas que trouxemos de casa, pois já enfrentamos essa dificuldade, da falta de cadeira de rodas, no Hospital da USP, em São Paulo.
 
 
De lá prá cá, daqui prá lá, uma informação mal dada, outra bem dada, a primeira conquista, uma cadeira de rodas para vencer os extensos corredores.
 
 
Entramos em algo que parece um labirinto num porão. Em todos os corredores pessoas em macas e acompanhantes mal acomodados atrapalhando a passagem do cadeirante. A ausência de janelas, o chão escuro e o pequeno espaço que sobra para a circulação vai tornando a chegada ao local da triagem para ingresso na Internação um ritual de iniciação. 
 
 
Chegamos à fila da primeira triagem. Compartilha-se os espaços com o Samu, trazendo de forma reconhecidamente eficiente pacientes acamados de todos os lugares, e também com pessoas visivelmente adoentadas, que chegam com ou sem apoio de acompanhantes, senhores de terno e gravata e outros personagens que demonstram a diversidade de nosso povo, não apenas étnico-racial e de gêneros, mas socioeconômica e cultural.
 
 
Vamos à segunda triagem e fila. O aprendiz de médico peleja com o computador que sai do ar a todo o momento – caiu o sistema, mas não desiste. Pergunta sobre os dados do pleiteante a paciente na Internação, que já deveriam estar no sistema e não estão. Novas idas e vindas e finalmente a ficha de internação está pronta. A partir daquele momento, pode-se aguardar a disponibilidade de leito. 
 
 
 
A espera, parece, será longa. Todos os leitos estão ocupados e não para de chegar gente em situação que parece pior do que a nossa.
 
 
 
Aproximadamente 16 horas, a boa notícia – foi liberada uma cama ou maca no corredor do setor dois. Companhia não vai faltar. Talvez 80 apenas no corredor. 
 
 
Montado o acampamento, recebe-se o lanche da tarde e depois a janta, mas sem antes conhecer as condições do banheiro, torna-se mais prudente não comer muito. Decisão sábia. Por volta de 18 horas, quando a bexiga dá sinais de estar no seu limite, a aventura de descoberta do banheiro. Um único vaso sanitário, um chuveiro, um local para fazer xixi de pé e duas pequenas pias. Chão molhado e escorregadio para muletas, só permite escovar os dentes com muito cuidado.
 
 
Começa o calvário da noite sob luzes de um corredor que não pode se apagar, acamados que não têm apoio de acompanhante e se sujam em suas necessidades fisiológicas sem atendimento de auxiliares de enfermagem, pessoas com crise nervosa necessitando de atenção, falantes compulsivos, transeuntes em busca do pouco alívio que o banheiro pode lhes propiciar e vizinhos com emocionantes histórias de vida.
 
 
A convivência quase familiar vai criando intimidade e solidariedade. Até um parabéns a você foi possível ouvir, numa ala mais distante. E as conversas vão levando a descobertas. A internação emergencial, para alguns já dura uma semana com previsão de ali permanecerem por pelo menos mais outra. Alguns dizem não ter subido para a cirurgia naquele dia, por não terem ficado em jejum, mas segundo eles, não haviam recebido orientação nesse sentido. 
 
 
 
Com essa informação na cabeça inicio o dia sem comer, na esperança de não ser um hóspede de longa duração na Internação de Emergência. 
 
 
 
Passam os primeiros médicos, acompanhados de estudantes que observam e comentam em voz baixa os casos mais didáticos. Continua entre nós e provavelmente em todos os círculos de proximidade de acamados o compartilhamento de histórias de vida.
 
 
 
Uma enfermeira maravilhosa em seu exercício de altruísmo e cuidados com o próximo leva de nosso círculo uma paciente para o banho. Na volta, passa carinhosamente um creme nos cabelos dela, uma senhora diabética, internada com um quadro agudo de trombose. 
 
 
 
Finalmente, 10 horas da manhã um médico solicita para ver os meus exames já realizados e constata, olhando o raio x, que não é caso de cirurgia. Solicita novo raio x, volta no início da tarde, examina a perna quebrada, olha as novas imagens e diz que medicina não é ciência exata, mas em sua opinião é menos arriscado fazer um tratamento conservador, com gesso, do que uma cirurgia e os resultados, no meu caso, serão semelhantes.
 
 
 
Outros pacientes que aguardavam a cirurgia ortopédica também receberam alta. Todos ficaram felizes por saírem daquela situação constrangedora e deprimente da espera. Vamos para casa com alguma dúvida sobre esse médico ser mais maduro e experiente ao não recomendar a cirurgia, ou apenas mais pragmático na análise da inviabilidade de uma situação de internação em ambiente tão pouco salubre, super lotado e precário.
 
 
 
A volta foi com dor de barriga e uma enorme necessidade de tomar um banho, para lavar o corpo e a alma, triste por termos constatado que as imagens de televisão de um Haiti pós-terremoto ou as de tantos outros conflitos e desastres socioambientais, são realidade cotidiana de tantas e tantas pessoas que todos os dias passam pela Internação de Emergência do Hospital de Base da capital do Brasil.
 
 
 
O custo de uma construção para as internações de emergência ou pelo menos para a ampliação e modernização das instalações sanitárias desse setor, não devem ser grandes. É necessário priorizar o atendimento básico de saúde para a população que utiliza o SUS. Nosso povo é generoso e certamente retribuirá em alegria e não violência cada centavo investido em sua própria saúde. 
 
 
 

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