Eric Zambon
Especial para o Jornal de Brasília
A pichação continua nas ruas e agora conta com mais uma aliada na promoção dos vândalos: a internet. Uma busca rápida no Facebook apresenta diversas páginas onde pichadores se promovem, mostrando fotos e vídeos de suas “obras”. No Distrito Federal, pelo menos uma página reúne quase dois mil membros e, pelas fotos dos integrantes, muitos aparentam ser menores de idade.
A prática da pichação é considerada crime desde 12 fevereiro de 1998, quando ficou estabelecido pelo parágrafo 65º da Lei 9.605 que “pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano” dá punição de até três anos e um mês de cadeia.
Um ano depois de criada a lei, foi concebido o projeto Picasso Não Pichava, que, a princípio, tentava levar jovens pichadores a se tornarem grafiteiros que vendessem sua arte legalmente, mas que hoje engloba uma série de atividades. De acordo com a Subsecretaria de Integração e Operações de Segurança Pública (Siosp), só este ano já foram quase quatro mil pessoas atendidas em uma das três sedes do projeto (Itapoã, Paranoá e Cruzeiro) ou por meio de ações externas.
“Geralmente o pessoal que é preso pichando tem uma pena a cumprir, mas não fica preso. Pelo menos até uns três meses atrás cumpriam aqui. Recentemente, porém, não vieram muitos”, observa o coordenador do projeto, Eliezér Santos. Ele diz que a faixa etária predominante dos pichadores varia de 14 a 18 anos, mas que já trabalhou com alguns deles de até 40 anos de idade.
Nas redes sociais
Nas redes sociais, menores manifestam-se favoráveis a pichações e utilizam dialeto próprio repleto de gírias. “A maioria deles é identificada com gangues, que usam o grafite ilegal para demarcar território, mostrar quem manda e conseguir respeito entre eles”, explica o major da Polícia Militar, Elisson Fernandes de Castro, coordenados de programas comunitários da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF).
Saiba Mais
O grafite é uma arte que, se praticada de maneira legal, encontra ressonância em diversas partes do mundo.
No Brasil, dois expoentes da arte são Os Gêmeos, pseudônimo adotado por Gustavo e Otávio Pandolfo para divulgar sua arte, que já foi feita em diversas partes do planeta. O trabalho deles pode ser encontrado em www.osgemeos.com.br.
A Rodoviária do Plano Piloto já foi coberta de pichações, mas atualmente está praticamente livre do problema. A equipe do Jornal de Brasília só encontrou uma amostra de vandalismo no local, que recentemente passou por limpeza por parte de funcionários da Novacap. Segundo a companhia, a aplicação de verniz especial nas paredes do local ajudou a reduzir a incidência da infração.
Os dois lados da mesma moeda
Trabalhando em um quiosque de venda de bebidas e salgados em frente à Catedral Dom Bosco, na 702 Sul, Francisco Benigno, 53 anos, e o filho Jéfte Cruz de Macedo, 20, já viveram os dois lados do problema. Atualmente, no estabelecimento comprado pelo irmão há quatro meses, mas administrado por Francisco, há pichações que cobrem o pequeno quiosque com garranchos incompreensíveis e visualmente agressivos. “Pintamos essa banquinha há uns três meses, mas mês passado vandalizaram aqui. Durou dois meses sem nada. Deve ser um recorde aqui na W3”, reclama, com ironia, o vendedor.
Francisco, que hoje reclama das pichações em seu comércio, porém, já viveu o outro lado da moeda, com o filho Jéfte. “Quando ele tinha uns 14 anos, começou a se envolver com um pessoal esquisito e de vez em quando ele pichava uns lugares”, relata Francisco, que garante não ter tido problema maior, pois seu filho era bastante honesto e conversou com os pais quando a situação piorou.
“Na escola, geralmente tem um grupo, aí a pessoa se junta e se empolga com a latinha de spray. É viciante a pichação. E o que mais motiva é conseguir fama no meio”, revela Jéfte. Ele se envolveu com uma gangue do Gama e diz que raramente algum membro saia sozinho. “Saíamos de madrugada, sempre com mais umas pessoas para fazer nossas coisas. Tem muito bandido nesse meio. Gente que é traficante de drogas e tem até muita gangue que o pessoal tem armas. Nunca é um grupo só de pichação”, completa.
Mudança
Jéfte Cruz ficou nessa vida até os 18 anos de idade, quando a família resolveu se mudar para Bahia. Eles deixaram a casa em que moravam em Novo Gama (GO), na Região Metropolitana do DF, e foram em busca de novas amizades para o filho em Luis Eduardo Magalhães (BA).
Ponto de Vista
Para o Major Elisson, um jovem que se junta a gangues ou se inicia nas práticas de pichação sofre problemas graves em casa. “A gente observa que os pichadores têm todo tipo de problemas familiares, pelo menos a maioria com a qual trabalhamos. Eles extravasam os problemas por meio das pinturas e frases que espalham por aí.”
Ele ainda explica que, na busca por fama, a dificuldade dos desafios determina a qualidade do criminoso. “Quanto mais alto ou mais complicado for fazer a pichação, maior será a popularidade daquele autor dentro da comunidade dele. Tem bastante a ver com a quantidade também”, conclui.
À solta
Comunidades na internet voltadas a jovens que praticam crimes e, consequentemente, pichações não são difíceis de serem encontradas. Uma deles, no Facebook, tem o nome Sou Pixador, sou confesso. De acordo com a Polícia Civil, a Polícia Federal monitora esse tipo de manifestação nas redes sociais. O órgão foi procurado pela reportagem para esclarecer, mas não respondeu aos questionamentos até o fechamento dessa edição.
Prevenção
Jéfte Cruz defende que, para tentar acabar com a atividade criminosa, quem fosse pego cometendo o crime deveria passar por um tempo de serviços comunitários. “Devia colocá-los para pintar escolas, sendo que eles mesmos teriam que comprar a tinta”, sugere. O pai de Jéfte, Francisco Benigno, faz outra sugestão: “Se tiver muitas câmeras, que façam com que eles sintam que podem ser pegos, com certeza vai diminuir ainda mais”, afirma.
De acordo com a Subsecretaria de Integração e Operações de Segurança Pública (Siosp), de janeiro a julho deste ano, em comparação ao mesmo período de 2012, houve redução dos flagrantes de pichação. Foram 108 registros contra 123 do ano anterior. A cidade com maior número de ocorrências foi Brasília, com quase o dobro de casos constatados de um ano para o outro.
“Na época das manifestações, cresceu demais esse número de flagrantes. Muitos aproveitaram a quantidade de gente nas ruas para pichar durante os atos”, explica o major Elisson, que creditou a redução do número de ocorrências totais a ações preventivas da polícia, especialmente à noite, e à efetividade de programas sociais como o Picasso Não Pichava.
Grafite
A Fundação Escola Superior (FES), que oferece cursos de pós-graduação para pessoas formadas em direito, se mudou para uma das esquinas da 502 Sul em março deste ano. Na entrada do prédio há pichações, mas na lateral, a solução encontrada foi contratar os serviços de um artista plástico. “Pintaram aquela parede em agosto e desde então ela está intacta”, diz a secretária-geral da fundação, Linda Figueiredo. “A ideia foi revitalizar a própria W3 Sul e também divulgar o trabalho do Ministério Público, que é vinculado a nós”, completa.
“Eles julgam que o grafite é como se fosse uma pichação e, portanto, respeitam”, diz Eliezér, que diferencia as duas formas de expressão. “O grafiteiro tem autorização do proprietário para fazer um desenho na parede. O pichador é o vândalo, que faz sem autorização e prejudica patrimônios”, explica.