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Brasília

Raimundo, 81 anos, é um pai herói

Arquivo Geral

03/06/2013 8h41

 

Os calos na mão denunciam: Raimundo Nonato Pinheiro, aos 81 anos, é um trabalhador ativo e fiel. Com o suor do dia a dia, numa humilde borracharia no Núcleo Bandeirante, ele cria seis filhos de sangue e outros oito adotivos. 

 

Apelidado de Pai Véi, o batalhador saiu de casa, no Maranhão, com sete anos de idade e a vontade de ser independente e criar a própria vida. Desde então, tem orgulho de dizer que nunca precisou pedir uma colher de arroz aos pais. “E, também, que Deus deu-me forças para criar todos os meus filhos com meu próprio suor”, garante. 

 

Para Raimundo, o trabalho dignifica o homem e é a única forma de sonhar por uma vida melhor. Desde quando saiu de casa, garoto, ele aprendeu a valorizar o trabalho árduo e não consegue imaginar a vida sem lutar pelo pão de cada dia. 

 

Coragem


“Até precisaria aposentar porque já estou ficando velho, mas eu não posso, não consigo. Lá em casa, tem arroz e feijão porque eu estou ralando. Quero saúde para os meus filhos e ensino o mesmo a eles. Tenho que tirar um filho inocente da prisão e levar dois a uma clínica de reabilitação”, confessa. 

 

Quando indagado se ficaria em casa se pudesse, a resposta está na ponta da língua: “Não”. Enquanto tiver saúde e força, Pai Véi diz, o ser humano deve trabalhar: “Trabalhe enquanto você está novo para poder deitar numa rede na minha idade sem pedir licença ao vizinho. Se eu parar de trabalhar adoeço, preciso desenvolver meu corpo, não posso parar de me mexer. Não trabalho só pelo dinheiro, o trabalho faz parte da minha vida, de quem eu sou”. 

 

Das fossas aos pneus, com luta

 

Um dos diferenciais de Raimundo é o relacionamento que ele cativa com os clientes e a vizinhança. As amizades contribuíram na criação dos apelidos pelo quais ele é conhecido, Pai Véi e, também, Cabo Velho. “Quando era menino achei uma criança no lixo e fui devolvê-la para a mãe. Ela ficou muito feliz e me apelidou de Pai Véi. Mais velho, há 40 anos, eu comecei a prestar serviço de borracheiro gratuito para os policiais em troca de alguns favores e doações. Foi então que eu virei o Cabo Velho”, lembra. 

 

O maranhense chegou a Brasília “por obra do destino”, como ele diz, em 1976, com toda a família nas costas. Na época, ele limpou fossas para conseguir cuidar da família e foi crescendo até construir a primeira borracharia em Candangolândia. Perdeu a mulher em 2011 e desde então para pouco tempo em casa. “Moro em Santo Antônio do Descoberto, porque não tenho condições de pagar uma casa no Distrito Federal, mas não vou para lá há mais de 30 dias”, diz Raimundo, que dorme dentro da borracharia. 

 

Simples, mas limpinha

 

A borracharia do Pai Véi teve que mudar de endereço algumas vezes a pedido do governo. Somente na área do Núcleo Bandeirante, onde ele está há 21 anos, ele teve que trocar de espaço por três vezes. “Carreguei pedaço de madeira na cabeça para construir esse lugar e não deixar faltar o pão de cada dia dos meus filhos. O pessoal da administração até me ajuda muito. Eles gostam de mim, já chegam me abraçando e me beijando. Mas está difícil, eu quero uma oportunidade para fazer uma barraquinha bem feita aqui e ficar de vez”, conclui. 

 

Mudanças

 

Em uma das mudanças, Raimundo teve prejuízo de R$ 300 mil. As máquinas grandes foram roubadas. “Meus amigos fizeram vaquinha para me ajudar, o administrador me trocou de lugar e alguns clientes traziam até potinho de arroz para eu sobreviver”, diz.   

 

Raimundo também gosta da vizinhança.  “Eu trabalho até 23h e já acordei de madrugada para ajudar clientes”, explica.

 

A borracharia é elogiável. Humilde e bem cuidada, atende caminhões, viaturas policiais e carros. Raimundo se preocupa em manter o lugar limpo e tirar a água do pneu: “A vigilância sanitária já disse que se existisse prêmio para a borracharia mais limpa seria a minha”.

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