Laços fraternos, desatados por crimes bárbaros, chocam a população. Recentemente, houve pelo menos cinco ocorrências de famílias destruídas após homicídios – e, em alguns casos, suicídios também. As prováveis razões para os crimes vão desde questões amorosas e financeiras até descontrole emocional, influenciado por jogos de violência. Diante disso, a população se questiona: o que leva alguém a ceifar a vida de um ente querido?
Para o psicólogo Luiz Flávio Evangelista, os motivos nunca serão compreendidos pela sociedade, por ser algo inaceitável pela população. “Casos como estes ganham grande repercussão principalmente por não conseguirmos imaginar que pais ou filhos possam cometer um crime tão cruel. Independentemente do motivo, será sempre um crime incompreendido”, avalia.
Um dos casos mais polêmicos é o da família Pesseghini, em São Paulo. O menino Marcelo, 13 anos, é suspeito de ter executado os pais, a avó e a tia-avó e depois se suicidado. Na avaliação deste caso, especialistas repercutem se um jogo poderia influenciar o comportamento de um adolescente. “Provavelmente, ele tenha incorporado o jogo à sua realidade, e viu seus pais como empecilho ou rivais, por tê-lo controlado, por ter estabelecido regras, e até mesmo por proibi-lo de jogá-lo”, conclui Luiz Evangelista.
Ele recomenda que os pais acompanhem a rotina dos filhos. “Torna-se importante conversar sobre o que é ou não a realidade, e, se ver mudança de comportamento, buscar a ajuda de especialistas. Mas muitos pais, por diferentes motivos, não acompanham os filhos como deveriam e acabam perdendo o controle da situação por não saber o que se passa”, alerta.
Sem lógica
Já para o psiquiatra forense da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) Talvane de Moraes, não é lógico atribuir um comportamento criminoso à influência de um jogo, assim como a cenas de violência exibidas pela TV ou jornais. “Pensar que as ações violentas possam ser causadas por essas experiências é completamente fora de qualquer lógica científica. Se assim fosse, todas as pessoas que tivessem contato com tais fontes de informação fatalmente apresentariam comportamento criminoso e cruel”, diz.
Para ele, outros vetores influenciam no surgimento do comportamento criminoso. “Principalmente aqueles adquiridos pela educação que receberam, repertório ético-moral adquirido pela convivência familiar e outros mais que possam plasmar a personalidade dos indivíduos”, cita.
Casos chocam e dividem opiniões
Nas ruas, esses crimes dão o que falar, e costumam dividir opiniões. Por conta das diferentes versões, a designer Edilma Modesto, 44 anos, mãe de seis filhos, afirma ser complicado fazer uma avaliação sobre os casos. “Para mim, a sociedade tem culpa nisso. Não somos isentos porque somos omissos aos problemas alheios. Hoje, vive-se cada um por si”, acredita.
Para a dona de casa Tereza Pereira, 54 anos, a sociedade está deixando o amor de lado. “É muito triste ver casos de tanta violência dentro de casa. Chego a chorar quando me deparo com casos chocantes e que a gente não consegue entender o motivo”, lamenta. “As pessoas devem se apegar a Deus e ter mais compreensão”, completa. Ela tem duas netas, Melissa e Júlia, e as ensina a ter uma boa relação com os familiares.
A vendedora Caroline Fernandes, 19 anos, acredita que a falta de tempo dos pais faz com que os filhos cresçam sem acompanhamento. Ela e as irmãs foram criadas sempre com acompanhamento dos pais. “Isso fez muita diferença em minha vida. Eu percebia que eles se preocupavam comigo”, conta.
O técnico de edificações Valdeci Silva, 46 anos, tem três filhos e valoriza o diálogo em casa. “Atualmente, quase todos andam presos a suas rotinas e se esquecem de passar momentos de união. Outro fator importante é ter uma religião, algo em que se basear para a formação de caráter”, considera.
Ele conta que, certa vez, até ofereceu dinheiro ao filho em troca de um tempo com ele. “Calculei o valor da hora de estágio dele e ofereci para que passássemos um tempo juntos. Gosto de fazer com que meus filhos percebam a importância de certas coisas”, diz.
Motivações
São muitas as motivações levantadas para tentar justificar um crime cometido entre familiares, entre elas, dinheiro. Para o psicólogo Luiz Flávio Evangelista, homicídios envolvendo motivos financeiros geralmente ocorrem quando o criminoso enxerga aquelas pessoas como empecilho em sua vida, ou quando almejam a posse dos bens.
“Um caso bem conhecido é o da família Richthofen, no qual a filha, Suzane, matou os pais visando a posse da herança. A obsessão pelo dinheiro e bens leva ao crime. Essas pessoas acreditam que matando o outro não terão perdas financeiras”, afirma Evangelista.
Já os crimes motivados por ciúmes, ele diz, são provocados pelo sentimento de posse. “A pessoa vê o outro como propriedade, e perde o controle ao ver ou imaginar o outro se relacionando com outras pessoas, algo contraditório no entendimento de a sociedade matar quem ama”, menciona o psicólogo. Um caso que remete ao exemplo de ciúme é o de Isabela Nardoni, morta pelo pai e pela madrasta.
Acúmulo de fatores causa o desespero
No Centro de Valorização da Vida (CVV), inúmeras chamadas revelam o desespero de famílias. Voluntária há 12 anos, Zenaide Rocha afirma que existe uma soma de motivos que pode levar uma pessoa ao ato extremo de buscar a morte para si ou para os familiares.
“Normalmente, isso ocorre por uma combinação de fatores. Por exemplo, a sensação de solidão ou de impotência diante de dificuldades podem ocasionar uma pressão interna que, como em uma panela com a válvula entupida, explode. Não foi o último minuto de aquecimento o único responsável pela explosão da panela, assim como não é um fato isolado que leva uma pessoa ao suicídio”, exemplifica.
Para ela, os casos de desespero que geralmente terminam em crimes estão aliados a outros trantornos. “Segundo estudos, pelo menos 90% dos suicidas apresentam algum transtorno, como depressão e dependência química, mas qualquer pessoa pode chegar a pensar em tirar a própria vida”, explica. Segundo estudos da Unicamp, 17 de cada cem brasileiros já pensaram seriamente em se matar.
De acordo com Zenaide, que atende por dia a diversos telefonemas de casos de pessoas em sofrimento, a melhor forma de prevenção é falar a respeito do problema. “Buscar ajuda é essencial para a superação desse sofrimento”, diz.
Conversa
Augusto Cesar de Farias Costa, psiquiatra, psicoterapeuta e diretor de Saúde Mental da Secretaria de Saúde admite que, embora comportamentos como agressividade, violência e crueldade sempre acompanharam a natureza humana, é fato que a violência se tornou um artigo de consumo mundial como qualquer outro. Para ele, o mundo está imerso em uma cultura de violência que vem se reproduzindo em cascata. Para ele, a solução está em um grande acordo social sobre como lidar com essa tal cultura. “Ou teremos que continuar a vivenciar com horror”, constata.