A via-crúcis de quem necessita da rede pública de saúde do DF é árdua. A reportagem do Jornal de Brasília teve acesso ao drama vivido por duas pacientes do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), que após terem sido submetidas a uma cirurgia para retirada de pedras na vesícula, tiveram de voltar às pressas para o hospital, com fortes dores no abdômen e quadro infeccioso preocupante. Para que os médicos consigam fazer o diagnóstico, é preciso que elas sejam submetidas ao exame de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE). Porém, até o momento, não há previsão para que isso ocorra.
Segundo o relato das pacientes, os aparelhos do Hospital de Base de Brasília e do Hran estão quebrados. Já o Hospital Universitário de Brasília (HUB) conta com o aparelho, mas não dispõe dos materiais necessários. Enquanto isso, ambas sofrem com dores agudas e veem a esperança de melhorar cada vez mais distante.
Diante do tortuoso processo de espera, a única alternativa seria recorrer à rede privada. Porém, não há condições de pagar pelo procedimento, que custa entre R$ 5 e R$ 8 mil. Com isso, resta somente a angústia de esperar por tempo indeterminado para a realização do exame e pelo diagnóstico definitivo.
Dores
Uma das pacientes é Eugênia da Cunha Lima, 37 anos, internada há 13 dias. De acordo com a sua cunhada Sônia Alves, a paciente sente fortes dores. “Ela fez a cirurgia para a retirada das pedras e recebeu alta. Porém, três dias depois, teve que voltar com muita dor. Já se passaram 13 dias e até agora ela não sabe o que realmente tem”, conta. De acordo com Sônia, os médicos afirmam que o diagnóstico só poderá ser feito após a realização do procedimento.
Além disso, Sônia sugere que possa ter existido erro médico na cirurgia. “Já falaram que pode ter restado líquido da primeira cirurgia ou até outros cálculos. Estamos preocupados, pois a cada dia ela está mais amarela”, alerta.
A família até pensou em se reunir para conseguir a quantia necessária para o exame, mas considerou praticamente impossível juntar o montante. “Se fosse mais barato, até teria como. Mas somos de origem humilde e não temos condições”, lamentou Sônia.
Quase um mês de espera
O estado de Jaqueline Vieira da Silva, 28 anos, é ainda mais delicado. Obesa, ela foi submetida à cirurgia para a retirada da vesícula no dia 9 de agosto. Após o procedimento, que transcorreu sem grandes problemas, a paciente teve alta hospitalar no dia 21 de agosto e passou por uma drenagem externa para diminuir o risco de fístulas.
Conforme cronograma estabelecido, a paciente retornou ao hospital no dia 30 de agosto para a retirada do dreno. Contudo, o que seria o fim do pós-operatório transformou-se no início de uma narrativa dramática. Segundo ela, os médicos observaram que restaram duas pedras na vesícula.
“Quando foram fazer o exame viram que ainda tinha duas pedras e perceberam que não podiam retirar o dreno. Aí, me informaram que eu tinha que fazer o CPRE, mas que os aparelhos estavam quebrados”, conta. Desde então, Jaqueline está internada e sem previsão de alta.
Paciente em estado de alto risco
O JBr teve acesso ao relatório médico da paciente Jaqueline Vieira, expedido na última terça-feira. No documento, assinado pelos médicos Josiberto C. de Souza Filho e Olímpia Alves, é evidenciada a importância da realização do exame. “Paciente necessita de CPRE para a elucidação diagnóstica, além do intuito terapêutico com a retirada dos cálculos, visto que uma nova cirurgia nesta paciente obesa será de alto risco, tanto pela morbidade implicada quanto pela dificuldade técnica, por se tratar de um campo cirúrgico, já manipulado e inflamado”, esclareceu o relatório, que também evidencia a tentativa de marcar o exame.
De acordo com o cirurgião geral Valcir Fernandes Alencar, as pedras na vesícula surgem quando ocorre um desequilíbrio entre a quantidade de água e as substâncias presentes na bile. “A pedra pode surgir quando a quantidade de água retirada da vesícula biliar for excessiva ou quando quantidade de substâncias na bile, como colesterol e pigmentos, estiver em quantidades exageradas, tornando-a saturada”, explica o médico.
Vida normal
Ele diz, ainda, que a cirurgia é indicada quando o paciente apresenta sintomas. “Mesmo que sejam somente cólicas biliares. O tratamento mais comum nestes casos é a retirada cirúrgica da vesícula”, apontou. Segundo Valcir, a vesícula é um órgão importante, mas não é vital. “Grande parte dos pacientes que retiram a vesícula consegue ter rotina normal. As principais reclamações que surgem após a retirada da vesícula são aumento dos gases e fezes mais amolecidas”, declarou.
Segundo a paciente Jaqueline Vieira da Silva (foto), o medo da morte a assola. “Eu choro todos os dias. Estou com muito medo de morrer. Tenho quatro filhos para criar e não posso deixá-los desamparados. Já pensei até em fugir daqui. Não aguento mais essa situação”, desabafa a paciente internada no Hran . A reportagem do Jornal de Brasília entrou em contato com a Secretaria de Saúde, mas até o fechamento da edição não teve resposta sobre a situação das pacientes, bem como sobre a situação dos aparelhos para a realização do exame.
Promessa de pagar residentes hoje
As deficiências na rede pública de saúde não se limitam à falta de equipamentos. Não raramente existem ameaças de greves de profissionais, seja por falta de condições de trabalho ou por questões trabalhistas. Nesta semana, como o Jornal de Brasília mostrou, os médicos residentes previram uma paralisação, por conta do atraso no reajuste salarial, previsto em lei para começar em julho último. Mas somente ontem, no dia seguinte à reportagem, o governo anunciou que os 1.009 residentes receberão hoje o primeiro pagamento com o reajuste de aproximadamente 25% no valor da bolsa.
“O repasse da verba foi autorizado, e o pagamento será lançado nesta quinta-feira. Os residentes receberão os valores retroativos a julho, juntamente com a regularização do pagamento”, assegurou a diretora da Escola Superior de Ciências da Saúde, Maria Dilma Teodoro, à Agência Brasília, do GDF. Ao JBr, entrevistas com responsáveis pela pasta não foram concedidas.
Portaria
O valor da bolsa passará de R$ 2.338 para R$ 2.976. O aumento foi garantido pela portaria dos ministérios da Saúde e Educação, publicada em 1º de julho, e atende a demanda apresentada pelos residentes em 2010, quando foi assegurado o reajuste para este ano. Os residentes pagos pela União, como é o caso daqueles que trabalham no Hospital Universitário de Brasília, receberam em dia.