Jéssica Antunes e João Paulo Mariano
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A Esplanada dos Ministérios amanheceu como cenário de guerra. Com estilhaços pelo chão, lixo nas ruas, pichações nas paredes e prédios depredados, o Distrito Federal ainda contabiliza os estragos causados por parte dos 45 mil manifestantes de todo o País que marcharam e ocuparam a capital na quarta-feira. O patrimônio público de pelo menos oito órgãos da Esplanada foi depredado em atos de vandalismo após confronto com policiais, além de diversos materiais do poder público . Somado, o prejuízo chega a mais de R$ 2 milhões, em avaliações preliminares.
Os reparos em três blocos afetados do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão após os danos causados no prédio são estimados em R$ 330.979,31 – sem considerar os possíveis danos de bens de servidores. Os maiores gastos devem ser com mobiliários, computadores, vidros com película e espelhos que, juntos, somam R$ 252.628,93.
Ainda devem ser reparadas divisórias, ar condicionado, forro e pinturas. Alguns danos podem ser descobertos só mais tarde, com uso de equipamentos. O Planejamento prevê contratação de contêineres para a retirada do entulho no valor de R$ 300. Com expediente normal ontem, os funcionários tiveram acesso ao prédio pela entrada dos fundos, já que a portaria principal, de vidro, foi quebrada.
No Ministério de Minas e Energia, onde o prédio é dividido com o Ministério do Turismo, os reparos já foram iniciados. Ao todo, R$ 19 mil estão estimados para o conserto. O Ministério da Cultura passa por perícia técnica e só depois poderá divulgar um balanço do prejuízo causado pelos manifestantes. Segundo contagem inicial do órgão, além de vidros quebrados, houve princípio de incêndio na Biblioteca que, de acordo com a pasta, acabou de ser restaurada e seria inaugurada em poucos dias. O expediente no prédio será retomado na segunda-feira.
Já nos ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e Integração Nacional, os danos foram de R$ 522.599,04, apesar de não estarem computados os valores a serem gastos com limpeza e remoção dos detritos.
O prédio mais afetado foi o da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) que calculou um prejuízo de R$ 1.105.057,90. A sala de reuniões do CNPA (Conselho Nacional de Política Agrícola) teve mesa, projetores e todo o sistema de som queimados. Na sobreloja, os manifestantes destruíram a sala de apoio ao auditório, atingido por pedras. De acordo com a Coordenação de Logística do Mapa, a previsão é que todo processo de recuperação seja concluído em três meses. Até o fechamento desta edição, os outros edifícios ainda não tinham fechado o balanço sobre os futuros gastos.
Temer revoga decreto da GLO
Autorização valia inicialmente até dia 31
- O presidente Michel Temer revogou ontem, menos de 24 horas após a publicação, decreto que autorizou o uso das Forças Armadas na segurança de prédios na Esplanada. O recuo ocorreu após pressão de aliados.
- A decisão de revogar a medida foi tomada em reunião logo pela manhã entre Temer e ministros, no Palácio do Planalto. Segundo o decreto, a autorização para as Forças Armadas atuarem na capital seria até o dia 31.
No GDF, conta passa de R$ 100 mil
O ministro da Defesa Raul Jungmann afirmou que o governo acionará a Advocacia Geral da União (AGU) para cobrar o prejuízo dos responsáveis pelo Poder Judiciário. Cada ministério é responsável pela perícia. Depois de concluídas, fotos, documentos e laudos que comprovem os danos devem ser anexados em processo tocado pela AGU. A promessa de Jungmann é que os causadores do vandalismo sejam punidos nas esferas criminal e penal. “A desordem não será tolerada. Será combatida dentro da lei, de acordo com a Constituição Federal”, disparou.
O Governo do Distrito Federal (GDF) passou a quinta-feira contabilizando os prejuízos obtidos na esfera local. Os R$ 102,7 mil ainda são preliminares e levam em conta somente materiais do Departamento de Transito (Detran). Os danos sofridos pela Companhia Energética de Brasília (CEB) e pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) ainda não entraram na conta, além de equipamentos de segurança.
O levantamento aponta R$ 40 mil com danos a semáforos e outros equipamentos, como lâmpadas, suporte e controles. A recuperação de sinalização vertical, cones e cercas sairá por R$ 61.800. Na Rodoviária do Plano Piloto, algumas torneiras dos banheiros e lâmpadas forma estragadas.
Apesar de não ser o GDF que irá pagar a conta, a Secretaria de Mobilidade divulgou que 28 bibicletas públicas foram danificadas, oito sucateadas e quatro queimadas. A estimativa é de R$ 41.960,00 sejam utilizados para consertar tudo. O projeto, custeado pela empresa Samba Transportes Sustentáveis, é parceria entre governo e setor privado. Ainda não há previsão de reposição das bicicletas. O executivo também não pagará o conserto das 11 paradas de ônibus danificadas.
Integrante do Ocupa Brasília, responsável pela organização ao ato de quarta, Thiago Ávila diz que o ato foi uma grande vitória pela quantidade de pessoas e pelo engajamento de pessoas do Brasil inteiro que lutam contra reformas anti-populares. Thiago, que também é militante do PSOL, acredita que a ação desproporcional da polícia gerou a resistência vista.
Saiba mais
- O Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal recolheu mais de 11 toneladas de lixo da Esplanada dos Ministérios. O órgão disponibilizou 100 garis para fazer o trabalho de limpeza em todo o percurso realizado pelos manifestantes na quarta-feira.
- Peritos da Polícia Federal estiveram, ontem, em prédios que sofreram danos nas mãos dos manifestantes. A corporação, no entanto, não repassou um balanço da operação.
Cinco feridos ainda estão no hospital
Dos 49 feridos atendidos pelos Bombeiros, apenas 46 deram entrada na rede pública de Saúde. Dessas, 36 foram levadas ao Hospital de Base do Brasília (HBB) e 10 para o Hospital da Asa Norte (Hran) e já foram liberadas. Somente cinco pessoas permanecem internadas no HBB.
O caso mais grave ainda é o do homem que levou um tiro no maxilar. O último boletim divulgado pela Secretaria de Saúde diz que o paciente Carlos Giovani Cirilo, de 60 anos, está internado em leito de UTI, sedado e permanece em estado grave. Ontem, foi descoberto mais um manifestante baleado durante os atos. Isaías Júnior Freitas, 22, teria sido atingido na parte superior do corpo.
Ainda não houve confirmação do autor dos disparos que podem ter sido feitos por policiais ou manifestantes. De todo modo, os PMs que foram vistos atirando estão sendo investigados, mas não foram afastados. De acordo com a corporação, o inquérito está no início e possíveis punições só serão efetuadas ao final do processo.
O rapaz que teve a mão dilacerada, Vitor Rodrigues Fregulia, 21, passou por cirurgia e permanece estável, porém sem previsão de alta. Ele viajou de Araranguá (SC) até Brasília junto a uma caravana de 30 ônibus. Para a PM, ele tentou jogar um rojão em um policial mas o utensílio estourou em sua mão. De acordo com o militante do PSOL Thiago Ávila, PMs teriam jogada uma bomba de efeito moral que estourou na mão do rapaz, que perdeu três dedos.
O homem que sofreu uma lesão no olho devido a uma bala de borracha está em observação. Ainda há outro paciente com trauma na coluna, mas seu quadro é estável.
Oito PMs se machucaram no confronto e foram encaminhados a hospitais. Todos foram liberados, mas estão sob observação. As situações mais graves foram a de um PM que quebrou a perna e de outro que ficou ferido na cabeça e no pescoço após a explosão de um rojão.