Conhecida pela elevada geração de empregos e pelo crescimento acelerado, a construção civil é uma das áreas mais aquecidas do Brasil. Entretanto, no Distrito Federal a realidade é bem diferente. Representantes do setor reclamam da demora para liberação de alvarás.
Com a morosidade do processo também cresce o índice de desemprego do setor. As obras paradas seriam capazes de gerar cerca de 50 mil postos de trabalho diretos.
“Toda a cadeia acaba sendo prejudicada por esses atrasos. Até o próprio Estado, que poderia estar lucrando com os impostos, perde também”, disse o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), Adalberto Valadão.
Demora e prejuízos
O resultado do alto contingente de obras paradas também pode ser dimensionado pela somatória do espaço físico acumulado. É o que explica o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi), Paulo Muniz. “Segundo o último levantamento, ao todo, são aproximadamente dois milhões de metros quadrados parados”, informou.
Segundo Muniz, a lentidão na aprovação de projetos e na liberação dos alvarás é um problema recorrente, porém, vem se tornando cada vez pior. De acordo com ele, o entrave é causado pela falta de profissionais qualificados para aprovar os projetos.
O empresário Eduardo Fernandes adquiriu, em 2009, um terreno para a construção de um prédio comercial. Ele pretendia concluir as obras até a Copa das Confederações, mas elas sequer foram iniciadas. “Adquiri o terreno e desde então venho pagando os devidos impostos, mas tenho passado por sérias dificuldades para conseguir o alvará para construção”, contou.
Está prevista para essa semana uma reunião entre o secretário-chefe da Casa Civil, Swedenberger Barbosa, e os empresários do setor. O objetivo é apresentar os dados da Casa Civil sobre os processos de análise. O Jornal de Brasília entrou em contato com a assessoria de imprensa do órgão, mas até o fechamento dessa edição não obteve resposta.
Funcionários foram demitidos
O empresário Eduardo Fernandes (foto) adquiriu um terreno há quatro anos, mas devido a demora na liberação do alvará, não conseguiu iniciar as obras. Com isso, se viu obrigado a dispensar um grande número de funcionários. “Tive que dispensar uma equipe. Foi muito difícil mandar as pessoas embora, mas como a obra não seguiu, fui obrigado a fazer isso”, relatou. Segundo ele, a sensação é de desânimo. “O que a gente vê são promessas que nunca são cumpridas. Você perde dinheiro e tempo. O que resta é o desespero. Em Brasília, a burocracia é muito grande”, afirmou.
Situação causa desânimo
Para o diretor de incorporação da Associação Brasiliense de Construtores (Asbraco), Fernando Gontijo, o processo que envolve o setor é emblemático “e se perdura há muito tempo. Todo governo que entra promete priorizar essa área, mas o que vemos é uma resolução momentânea, que rapidamente volta ao normal”, declarou.
Segundo Gontijo, o cenário marcado pelo excesso de dificuldades tem desanimado construtores. “Isso gera uma dificuldade e um desestímulo para quem deseja produzir. O que se nota é que, muitas vezes, se gasta mais tempo para liberar o projeto do que para executá-lo”, ressaltou.
O desemprego, segundo Fernando, é um reflexo dessa realidade. “A partir do momento em que você não consegue aprovar o projeto, é impossível manter a equipe”, pontuou. De acordo com ele, atualmente, mais de 30 empresas da área de construção se encontram nessa situação.
Três projetos parados
Segundo José Wilson, da Silco Engenharia, a demora para aprovação de projetos já prejudicou seu trabalho. “Tenho três projetos que deram muito trabalho para serem aprovados”, afirmou. Ele conta que caso os atrasos não tivessem ocorrido teria evitado muitas demissões.
pontodevista
Para o economista Pedro Lacerda, mesmo com o cenário preocupante, a área de construção civil ainda é promissora: “Apesar da desaceleração provocada pela lentidão da liberação dos alvarás e aprovação dos projetos, os setores da construção civil ainda estão em ascensão”.
Segundo o economista, a unificação das decisões pode contribuir para a aceleração do segmento. “O que acontece é que as decisões não são centralizadas e vários órgãos participam. Isso contribui para a morosidade. Se a responsabilidade for direcionada, o tempo para a tomada de decisões será otimizado”, disse.