“Verde é o melhor ambiente. Ler é o melhor prazer. Livro é o melhor presente e este foi feito para você”. O poema de Lourivaldo Marques resume a vida dele em poucas linhas. O baiano veio de São Paulo para pintar os prédios do Plano Piloto, no ano em que Brasília foi inaugurada. “Coloquei os pincéis na mala e vim para cá”, relembra.
Com uma visão empreendedora, Lourivaldo montou a primeira banca de revista da cidade, na 108 Sul, quando chegou à capital federal, em fevereiro de 1960. Na época, só existiam dois coqueiros no bloco, do outro lado da banca. O resto era tomado pela poeira vermelha dos canteiros de obra da cidade.
Portal
Diante deste cenário, o jovem senhor decidiu, então, plantar duas árvores, que cresceram e juntas formaram um portal logo em frente à banca. Na próxima sexta-feira, o local completará 50 anos de vida.
Para comemorar as bodas de ouro das árvores, Lourivaldo vai oferecer vinho para os clientes no próximo fim de semana, de sexta-feira a domingo. Ele pede que os visitantes também colaborarem com bebidas e algum lanche para todos celebrarem juntos com um piquenique, aproveitando a sombra da árvore. “Não é uma passagem na vida de um casal e, sim, a comemoração dessas duas árvores que estarão aqui, sempre, a receber as visitas e elogios. É uma forma que eu tenho de agradecer a minha relação com elas”, explica.
Para o pioneiro, o arco que foi formado entre as duas árvores ao longo dos anos tem um significado muito forte para a sua vida. “A árvore menor representa a minha família. Venho e dou um beijo para a esposa e um para a caçula”. O outro lado, bem maior, é para a clientela do jornaleiro, que cresceu ao longo dos anos junto com as raízes da árvore que um dia plantou. “Dou um carinho bem especial. É muito gratificante ver uma pessoa para quem eu vendi figurinhas na infância trazer os filhos para me conhecer”, valoriza.
Dedicação
Esse carinho é visível na forma que o homem cuida da árvore, como a abraça e, principalmente, como fala dela. “Quando ela precisa de mim eu sonho com ela. Recebo uma energia e procuro vir ajudar. É assim que decido se tem que podar ou cortar alguma coisa”, conta o senhor que agradece a gratidão e a paciência da amiga verde. “Ela sempre cresceu, pertinho da banca, e nunca jogou galho para cima da gente. É uma relação de amor muito forte”.
Saiba Mais
A árvore já se tornou um ponto turístico na cidade, conta Lourivaldo. Além de admirarem a beleza natural, as pessoas a visitam também para receber boas energias, diz ele.
“O portal é energia. Passe aqui todos os dias. Faça três pedidos com alegria e realize a sua magia. Os meus já foram todos realizados”, brinca.
Em 21 de setembro comemora- se o Dia da Árvore – é também a chegada da primavera.
Memórias guardadas com carinho
As memórias dos galhos, quando ainda eram curtos e finos, são lembradas da mesma forma que um pai fala dos filhos. “Você quer ver uma foto dela quando era pequeninha? Aqui ela tinha só três anos, olha como a banca era diferente”, compara, ao mostrar as imagens.
A banca mudou muito de lá para cá. Hoje, na fachada tem escrito “vendemos até jornal”, ironizando o fato de a banca vender quase tudo. Ela funciona como um minimercado, com biscoitos e picolé. Vende revistas de todos os temas imagináveis e virou até videolocadora.
A busca pelos melhores produtos ocorreu naturalmente, junto com os interesses do leitor. A banca é visitada por moradores locais que são, além de fregueses, grandes amigos do empresário. “Eu vendia literatura também. Acompanhava os livros que viravam roteiros de filme e comecei a alugar fitas VHS, em 1991. Daí, hoje, juntei mais de quatro mil títulos de filmes em DVD, e acho que é por isso que tenho uma boa freguesia”, conclui.
Lourivaldo Marques