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Brasília

Não há idade para fazer o bem

Arquivo Geral

22/10/2013 9h03

Há cerca de oito meses, Ana Lívia Fragoso Lopes, 10 anos, assistiu a um programa de TV em que viu como pacientes que perderam os cabelos sofriam, entre outros problemas, de baixa autoestima. Depois disso, decidiu deixar as madeixas castanhas crescerem para doá-las a alguém com perda capilar.

 

A princípio, ficou tímida e não revelou a intenção para a mãe, Jucilene, com quem mora na Vila Planalto. Mas sentiu confiança para contar à tia Maria Edivanda, que tornou público o desejo da menina.

 

Ana tem deixado os cabelos crescerem desde fevereiro e se diz ansiosa para cortar e fazer a doação. “Por mim, cortaria bem curtinho”, diz, indicando um local pouco acima da orelha. “Mas decidi com a minha mãe que vai ser na altura do pescoço”, conta.

 

Rede feminina

 

A doação deve ser entregue à Organização Não Governamental (ONG) Abrace, que atende jovens  com câncer. O provável destino final dos cabelos de Ana, porém, é a Rede Feminina de Combate ao Câncer, que atua no Hospital de Base. Isso porque a demanda para esse tipo de ajuda a crianças e adolescentes é bem menor do que para adultos, segundo a própria ONG. Assim, as doações geralmente são repassadas à rede, que atende, em grande parte, mulheres com mais de 18 anos.

 

Autoestima

 

Um exemplo de pessoas favorecidas por ações como a de Ana Lívia é o de Letícia Moreira, 20 anos. Ela foi diagnosticada com câncer nos ovários há quatro meses e recebeu sua primeira peruca, por meio da Rede Feminina. “Na primeira vez que eu fiz quimioterapia, lavei meu cabelo e caiu muito. Chorei demais. As pessoas diziam que ‘é só cabelo’ e que ‘cresce de novo’, mas mesmo assim foi um choque”, revela. 

 

Letícia ainda combate o tumor maligno, sofrendo todos os efeitos colaterais inerentes ao tratamento, mas o cabelo doado a fez sorrir. “Eu sentia vergonha do jeito que eu ficava, com cachos muito ralinhos. Agora, com a peruca, vai ser melhor, porque pelo menos eu vou achar que tenho cabelo”.

 

Segundo o psicólogo Luiz Flávio Mendes, as pessoas que perdem os cabelos devido ao tratamento têm autoestima abalada, principalmente por ser a comprovação para a sociedade de que algo não vai bem.

 

Crianças se comovem mais que os adultos

 

Vera Lúcia da Silva, coordenadora da Rede Feminina, contribui para que os pacientes recebam as perucas confeccionadas com auxílio de parceiros.  Um desses voluntários, inclusive, é a cabeleireira Roberta Andrade, entrevistada pelo Jornal de Brasília no último dia 9. “A melhora que vemos nas nossas pacientes que ganham novos cabelos, especialmente no jeito da pessoa, é de 100%”, afirma Vera Lúcia. O cabelo de Ana Lívia, que já alcançou 50cm, é um dos que em breve chegarão a essas mulheres. 

 

Ana Lívia diz não ter medo de represálias na escola. “Nem me importo com o que os outros vão pensar na aula”. Ainda não há data marcada para o corte de cabelo e a doação de Ana, mas é provável que isso aconteça até o mês que vem.

 

Autossatisfação

 

Segundo o psicólogo Luiz Flávio Mendes, a solidariedade está associada à autossatisfação do benfeitor, na medida que “o poder de ajudar o outro lhe faz bem e lhe fortalece, sem interesse em reconhecimento ou gratidão”. E no caso da menina Ana Lívia, o especilista diz que crianças geralmente se comovem mais do que adultos com o infortúnio alheio. 

 

Sem medo de se arrepender

 

Ao receber a equipe do JBr., Ana vestia uma camisa do grupo Guns N’ Roses, de quem ela declarou ser fã. A menina estuda na Escola Parque 306 Norte e gosta de ler obras como Diário de um Banana, e se assume noveleira. “Gosto bastante de Amor à Vida”. A novela em questão teve uma polêmica envolvendo a atriz Marina Ruy Barbosa, que interpreta uma personagem que morreu de câncer. Ela  rasparia a cabeça porque a personagem passava por sessões de quimioterapia. A moça, no entanto, se recusou. “No começo eu também pensei: ‘que absurdo ela cortar esse cabelo tão bonito!’. Mas depois eu vi que era besteira”, diz Ana Lívia.

 

Serviço

 

O esforço de Ana e de vários outros doadores é extremamente válido, mas Vera Lúcia calcula que, em média, são necessárias três doações para confeccionar uma peruca simples. Assim, ajuda é sempre bem-vinda. Para entrar em contato com a Rede Feminina de Combate ao Câncer, o telefone é 3315-1221. O  contato da Abrace é 3212-6000.

 

 

 

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