Marina Marquez
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Dividir o tempo entre a escola e as brincadeiras, deixando de lado a vaidade e responsabilidade da vida adulta faz parte das lembranças de infância de muitos dos pais hoje em dia, mas está longe de ser a realidade dos filhos desses adultos. No Dia da Criança, muitos pequenos trocam as bonecas e carrinhos por roupas e produtos tecnológicos. Para outros, a realidade é ainda mais cruel: a brincadeira foi trocada logo no começo da vida pelo trabalho.
Ana Júlia Santana, de 5 anos, não teve dúvida na hora de escolher o presente deste ano, uma maleta de maquiagem. A mãe, Kátia Santana, tentou mostrar uma boneca, mas não conseguiu convencer a filha. “Eu quero uma maquiagem só para mim”, diz a pequena. Com esmalte na unha e penteado no cabelo, a garota conta que não deixa de pintar as unhas quando a mãe vai no salão e, sempre que vai passear, não esquece o batom. “Eu passo para ficar bonita, igual minha mãe”, revela. A mãe confirma: “Ela é muito vaidosa mesmo, como as coleguinhas da escola eu acho. Mas não vejo problema, quando tem limite. Não pode é deixar usar salto alto, fazer a unha todos os dias e com esmalte escuro. Mas se equilibrada, a vaidade não faz mal”.
A vaidade exagerada, segundo a psicóloga e professora de Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) Livia Borges, é um dos reflexos da precocidade das crianças de hoje em dia. “A infância está acabando cada dia mais cedo para as crianças. E ao mesmo tempo que elas são precoces, são imaturas, de forma que o desenvolvimento não é harmônico”, explica. No caso da vaidade, Livia revela que o maior problema para a criança é o estímulo à criação de uma autoestima voltada apenas para o exterior, para a beleza.
“A vaidade exagerada, principalmente das garotas, hoje é reflexo de várias coisas. Do que elas vêm na TV, na escola e também do estímulo em casa. É da infância querer imitar a mãe, mas precisa existir um limite. Se a menina vira uma mini-mulher ela acaba antecipando etapas da vida para as quais ela não tem preparo emocinal para viver. Isso tudo sem contar os riscos que existem em transformar a autoestima da criança algo entrelaçado à beleza. Autoestima tem que ser capacidade de aprender, curiosidade, se sentir amado e valorizado. E não só algo ligado ao que se tem, ao que se veste”.
Evelyn Maurilia, de 6 anos, não dispensa nenhum artigo de beleza para sair de casa. “Ela coloca tudo que pode. Não esquece a bolsa, as pulseiras, tudo combinando”, conta a mãe da menina, Joilena Maurilia. “Eu gosto de bolsa, batom. Para ficar bonita, né?”. A mãe explica que a maior influência é das colegas de escola. “Eu não me considero vaidosa, então acho que ela aprende muito com as amiguinhas, que cada dia chegam com uma novidade. Acho legal, mas faço o que posso para freiar também, não deixando usar roupas extravagantes demais, saltinho, tem que ter vaidade mas normal da infância”.
Contraste
“Hoje eu não vou trabalhar não. É Dia da Criança, então tenho folga e vou jogar bola na rua”, revela Sebastião, de 12 anos. O garoto ajuda o tio vendendo fruta na rua desde os nove anos e divide o tempo que sobra entre a escola e alguma brincadeira. “Eu acho bom poder ajudar meu tio, se a gente pode, tem que ajudar. Meus amigos também ajudam em casa. Não sobra muito tempo para brincar, mas não tem problema”.
Perder a infância para ajudar em casa, ganhando responsabilidade antes da hora, é a realidade de muitas crianças. De acordo com a psicóloga da UCB, muitas vezes o tempo perdido só é percebido muitos anos depois. “Diferente das crianças precoces, quem trabalha desde cedo acaba amadurecendo rápido. Precisam se adequar à realidade da família, ajudar, e crescem com isso. Mas no futuro, quando têm os próprios filhos, acabam sentindo a necessidade de resgatar a crianças interior, o lúdico que perderam”.