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Brasília

Muita sujeira enquanto a solução não vem

Arquivo Geral

24/09/2013 7h20

O cenário que envolve as escolas públicas no DF pode ser comparado a um drama que nunca chega ao fim. Em alguns centros educacionais, a qualidade da estrutura física passa longe de ser considerada razoável. Faltam quadra de esporte cobertas, bibliotecas e salas de aula adequadas. Contudo, diante dos já conhecidos problemas, a educação pública conta com um novo problema: o quadro de profissionais de limpeza e conservação está defasado. Para solucionar a questão, o governo  garantiu que os serviços de limpeza seriam terceirizados. Contudo,   professores alegam que a promessa está longe de ser cumprida.

 

A reportagem do Jornal de Brasília  percorreu escolas e constatou a gravidade da situação. No Gama, na Escola Classe 14, para impedir que o mato tomasse conta do espaço, a unidade foi obrigada a contratar os serviços de limpeza com os próprios recursos. 

 

“Procuramos a Novacap  e recebemos a resposta de que eles fariam o trabalho, mas cansamos de esperar”, afirmou Maria Dolores Sousa, diretora da instituição.

 

Segundo ela, além do baixo efetivo, as poucas servidoras já estão em idade relativamente avançada. “São seis funcionárias para todos os turnos, e 558 alunos ao todo. A mais jovem já tem 20 anos de Fundação (Educacional).   Ou seja, são funcionárias com condições físicas limitadas e que estão sendo sobrecarregadas”, relata.

 

A auxiliar de conservação e limpeza Eva Vieira de Carvalho, 54 anos, tem sofrido na pele as consequências da falta de colaboradores. “Hoje, vou ter que lavar sozinha três salas, três banheiros e um pátio.  Estou com muitas dores nas costas e após um dia como esse, fico pior ainda”, lamenta.  

 

Para Eva, a terceirização pode ser a solução para os problemas enfrentados atualmente. “Se o governo cumprisse o que prometeu, seria melhor para todos. Mas confesso que já nem tenho muita esperança. Afinal, prometem e nada acontece”, desabafa.

 

Metade do previsto

 

Ainda no Gama, no Centro de Ensino Médio 3, a situação é ainda pior. São apenas seis funcionários para garantir a limpeza da escola que conta com 21 salas e abriga cerca de 1,5 mil alunos. Segundo o diretor da instituição, Pedro Xavier Cardoso, o efetivo de servidores está funcionando com apenas metade do previsto. “O mínimo seriam 12. Nós tínhamos oito. Porém, uma se aposentou e a outra saiu da escola”, relata. 

 

De acordo com o diretor, para otimizar o trabalho, alguns espaços ganham prioridade no momento da limpeza. “As áreas comuns, como o banheiro e os corredores, têm prioridade”, explica.

 

Pedro Xavier observa que  o ambiente com aspecto sujo influencia diretamente no processo de aprendizagem dos alunos. “O nível da educação piora. Sem dúvida, isso também é refletido no comportamento dos alunos.  Ninguém gosta de estar em um ambiente sujo. Por isso, a falta de limpeza atrapalha os professores e os alunos”, diz.

 

 Ele destaca que a informação que a escola recebeu do GDF a respeito da terceirização é a de que havia um impasse na contratação.

 

Versão Oficial 

 

De acordo com o GDF, após recentes contratos de terceirização, já estão nas escolas 1.450 novos profissionais atendendo aos serviços de limpeza e está em andamento   uma proposta de aditivo de 25% nesses contratos para contratação de mais 270 profissionais.

 

Professores e alunos limpam as salas de aula


Profissionais reclamam de trabalhar em meio à sujeira. “É muito desagradável chegar para dar aula e verificar que o lixo está tomando conta”, diz a professora do Centro de Ensino Médio 3 do Gama, Mariza Cine. Ela conta que já limpou a sala de aula por conta própria. “Os alunos, inclusive, me ajudaram. Ainda bem que eles levaram na esportiva”, relata.

 

De acordo com a professora de Artes da mesma instituição, Maria José Ribeiro, o aspecto sujo no qual a escola se encontra prejudica a assimilação do conteúdo. “Tem momentos que a situação chega a um ponto em que nos vemos obrigados a limpar as salas”, constatou.

 

Desafio

 

A professora de Matemática Núbia Alves Pereira conta que é comum ver os docentes varrendo as salas de aula. “Um professor trouxe uma vassoura de casa para limpar a sala de aula. Isso é um absurdo. Precisamos, com urgência, dessa terceirização. Todos estão sendo prejudicados. Essa situação não pode continuar assim”, aponta.

 

No Centro de Ensino Médio 2 do Gama apenas 12 funcionários são responsáveis pela limpeza da escola que tem 2,4 mil alunos distribuídos nos três turnos. Para a funcionária  Vera Lúcia Maria da Silva, 56 anos, realizar as atividades diárias tem sido um desafio. “São poucas pessoas para ajudar nos serviços de limpeza. É uma árdua batalha que travamos todo dia”, conta.

 

Ineficiência

 

Na avaliação de um dos diretores do Sindicato dos Professores, Washington Dourado, a atual fase das escolas públicas do DF reflete a forma como a educação é vista pelos governantes. “Reflete a falta de prioridade do governo com a educação pública. De acordo com as informações que temos, aproximadamente 200 escolas estão passando por esse problema”, disse.

 

Dourado explica que a origem está relacionada com a ineficiência da substituição dos funcionários. “Tínhamos servidores de carreira que faziam esse trabalho. Contudo, o governo não está substituindo. Nós temos muitos relatos de professores que afirmam estar limpando as salas. Isso é revoltante”, afirmou.

 

Segundo o professor, os danos aos alunos são sérios. “Eles são prejudicados. E ninguém gosta de trabalhar em um ambiente ruim e sujo. O mínimo que esperamos é um ambiente em condições adequadas”, ressalta.

 
Ponto de Vista
 
De acordo com o especialista em políticas públicas Remi Castioni, o grande entrave enfrentado pela educação é a falta de um programa que objetive a reestruturação completa das escolas. “Falta um programa de recuperação das escolas do DF. Acredito que o mesmo que está sendo feito com as rodovias poderia ser feito com os prédios públicos, especialmente com as escolas. Deveriam reestruturar esses centros educacionais”, disse. Segundo o professor, o que se tem feito até o momento está longe de ser suficiente. “O que foi feito até agora foram medidas paliativas.  Por isso, acredito que somente a reestruturação completa pode sanar os problemas”, explana.
 

Desabafo em um blog
 
Educadores e alunos  usaram o blog do sindicalista Washington Dourado (blogdowashingtondourado.wordpress.com) para reclamar da situação. Em um dos depoimentos, o professor de uma escola em Sobradinho reclama da pouca quantidade de funcionários para limpar o colégio.
 
 “A situação está caótica! Na escola em que trabalho os servidores foram ficando doentes e agora resta apenas uma servidora para dar conta das dez salas no matutino, dez no vespertino, além dos banheiros, pátio e ala administrativa. A diretora (além das obrigações administrativas, pedagógicas e substituição de professor de LTS) tem ajudado a servidora a limpar as salas, com o objetivo de garantir condições adequadas para as aulas”, salienta.
 
O professor diz mais: “Se o governo não vai mais fazer concurso para esta área, por que não contrata logo de uma vez a firma? Onde está o Sindicato dos Auxiliares que tem deixado os servidores expostos a tal exploração e escravização? É correto uma pessoa da firma fazer o serviço de toda a escola sozinha?”, indaga o professor.
 
Fiscalização 
 
Para o mestre em Educação Ailton Aguiar do Carmo, é importante que os órgãos reguladores fiscalizem para garantir o bom funcionamento das escolas. “Vejo que as cidades mais afastadas sofrem ainda mais com a precariedade e descaso do poder público”, afirmou.
 
De acordo com Ailton, a estrutura deficiente prejudica o desempenho escolar dos alunos. “É preciso ter um padrão mínimo de qualidade nas escolas. Se você pensar em escolas sem a quantidade de salas suficiente e ainda com estrutura física ruim, certamente essas instituições terão condições muito precárias de oferecer aquele mínimo necessário e indispensável para que o aluno assimile o conteúdo”, constata.
 

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