Kátia Gomes
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Utilizar a bicicleta como meio de transporte pode ser muito perigoso. A convivência entre ciclistas e motoristas nas vias do Distrito Federal nem sempre é pacífica. A falta de ciclovias e passarelas nas vias da cidade tem sido um problema para quem depende delas. Quando ocorrem acidentes, o lado mais fraco acaba sofrendo as consequências. Foi o que ocorreu na manhã desta sexta-feira (2), quando um ciclista morreu atropelado por um ônibus próximo ao balão de acesso ao Riacho Fundo.
O acidente reforça a ideia de que Brasília ainda não está bem adaptada para a utilização de veículos não motorizados. Para o presidente da ONG Rodas da Paz, Uirá Felipe, as condições para os ciclistas ainda não são ideais, mas ele acredita ser possível utilizar o meio de transporte em alguns locais da capital. “No Plano Piloto é mais tranquilo, já nas cidades satélites é bem mais complicado utilizar a bicicleta, pois existem as rodovias que precisam ser atravessadas”, explica.
Na colisão de hoje, a vítima tentava atravessar a pista quando foi atingida por um ônibus da viação Riacho Grande que não conseguiu frear. O ciclista então foi arremessado cerca de 12 metros e morreu no local. A bicicleta ficou distorcida sob o ônibus. O chão ficou manchado de sangue no local do atropelamento. O motorista foi encaminhado em estado de choque para o Hospital de Taguatinga. O veículo fazia a linha 814, que faz o trajeto Recanto das Emas – Samambaia.
Esse foi mais um ciclista que entrou para a estatísticas de mortos nas vias da cidade. Segundo o Detran, somente no ano passado 35 ciclistas morrem atropelados em todo o Distrito Federal. Em 2010 o número foi praticamente o mesmo, 34 mortos durante todo o ano.
Na DF-001, onde ocorreu o acidente, os moradores reclamam da que a via é tão perigosa para os ciclistas quanto para os pedestres. “Eu tenho muito medo de atravessar, mas não tenho outra opção. Minha filha quase já foi atropelada”, conta a empregada doméstica Joana Ferreira, 55 anos.
Já a vendedora Ediane Amorim, 35 anos, prefere ir até a passarela, que fica bem distante da parada, do que arriscar pela pista. “Sempre utilizo a passarela, mas quem precisa atravessar pela pista não tem segurança nenhuma e ainda arrisca a vida”, afirma.
Uirá Felipe reforça que diversas medidas deveriam ser tomadas para que o ciclista e também o pedestre consigam conviver bem com os veículos motorizados. “Aqui em Brasília a velocidade das vias é muito alta, deveria ter um controle maior, mais passarelas deveriam ser construídas próximas as paradas de ônibus e faixas de pedestres. Não são só as ciclovias que precisam ser ampliadas. Nós da ONG já enviamos essas recomendações para o governo para tentar uma solucionar esses problema”, conta.
O presidente da ONG acredita que se essas medidas fossem tomadas, melhoraria a convivência entre as duas partes. “Com a redução de velocidade, por exemplo, os ciclistas conseguiriam circular mais tranquilos pela vias da cidade. Brasília deveria dar o exemplo como a capital do país”, desabafa.
Novas ciclovias
O Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou em janeiro deste ano que irá construir 235 quilômetros de ciclovias em 12 cidades do Distrito Federal em 2012. A intenção é que cada vez mais brasilienses utilizem a bicicleta como meio de transporte para suas atividades diárias. O investimento na ação é de R$ 66 milhões.
As ciclovias serão construídas, em uma primeira fase, no Plano Piloto, nas Asas Sul e Norte, Eixo Monumental, campus da Universidade de Brasília (UnB) e Setor Militar Urbano (SMU), Lago Sul, Taguatinga, Ceilândia, Guará, Paranoá, Samambaia, Gama, Águas Claras e Arniqueiras.
A previsão é de que, após iniciadas, as obras sejam finalizadas em até 180 dias. Após essa primeira fase, serão construídas as ciclovias do Riacho Fundo II e do Park Way. As obras das outras cidades do DF serão realizadas após a conclusão dos trabalhos no Park Way.
O GDF também está estudando a construção de bicicletários em prédios públicos e áreas comerciais do Distrito Federal. Os detalhes sobre o assunto estão sendo debatidos pelas secretarias de Governo (Segov) e de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab).
O que diz a lei
O Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997) dispõe, entre outros temas, sobre regras e penalidades envolvendo ciclistas e condutores de automóveis. O artigo 29, parágrafo XII, inciso 2º, estabelece que “os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”. Significa dizer que as bicicletas têm prioridade, por exemplo, numa manobra de mudança de direção. O artigo 58 estabelece ainda que “nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nas bordas da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores”.