“Nada é tão ruim que não possa piorar”. A conhecida máxima da Lei de Murphy pode traduzir a realidade da saúde pública no DF. Com o nível dos serviços prestados longe do considerado bom, a tendência é de que o cenário se agrave. Isso porque aproximadamente 800 médicos residentes podem cruzar os braços na próxima segunda-feira. A decisão é fruto da cobrança pelo reajuste de 24,8% da bolsa paga aos profissionais.
Segundo a Associação Brasiliense de Médicos Residentes do DF (Abramer), os residentes são responsáveis por cerca de 70% dos atendimentos nos maiores hospitais do DF. Os brasilienses são os únicos que não tiveram aumento em todo o País, diz a entidade.
A medida, publicada no Diário Oficial da União de 28 de junho de 2013, previa que os 23.134 residentes que atuam em todo o País passariam a receber R$ 2.976, em vez de R$ 2.338, a partir de julho. Mas a decisão comemorada pelos jovens profissionais não valeu para todos. No DF, somente os profissionais que recebem pela União foram beneficiados.
Promessa
Segundo o presidente da Abramer, Rafael Vinhal, o aumento é fruto de uma promessa antiga. “Em 2010, fizemos uma greve, quando foi acordado o aumento. Entretanto, ficou faltando o reajuste de 24,9%, que negociamos em 2012 e que acabou sendo concedido em julho deste ano. Mas para os residentes do DF não chegou nada”, explicou.
Diante do cenário revoltante, os residentes cobraram explicações. Entretanto, as respostas não convenceram a categoria. “Eles alegam que houve problema com relação a funcionário que entrou de férias e que, em função disso, não souberam em tempo hábil. Mas isso não faz sentido porque a portaria foi publicada no Diário Oficial”, declarou.
O próximo passo, segundo Vinhal, foi tentar a reaver o reajuste garantido por lei aos residentes. “Solicitamos a revisão do contracheque e recebemos a resposta de que o retroativo seria pago em uma folha complementar em agosto, mas nada saiu. Depois, prometeram para setembro, e na última quarta-feira saiu o contracheque deste mês, sem nenhum adicional. Já são dois meses retroativos”, diz.
Inconformados, os médicos se reuniram na semana passada. “Fizemos uma assembleia na sexta à noite e fomos informados de que a Secretaria de Saúde vai fazer uma folha complementar. O prometido é que em 6 de setembro receberemos o pagamento já com o reajuste, além dos retroativos”, ressaltou.
De acordo com Vinhal, caso o acordo não seja cumprido, os residentes entrarão em greve por tempo indeterminado. “Se até sexta-feira, à meia-noite, não recebermos o prometido, pararemos por tempo indeterminado”, declarou. Rafael observa que, embora o grupo seja supervisionado pelos médicos, a previsão é de que o impacto de uma paralisação seja grande.
Cenário desanimador
Para a doméstica Maria José Silva, 24 anos, a possibilidade de greve dos residentes é assustadora. “Com 800 médicos a menos, a situação vai ficar ainda mais alarmante. Eu nunca fui bem atendida na rede pública. Por mais que os médicos queiram trabalhar, falta estrutura”, argumenta. Ela completa que o cidadão brasiliense paga muitos impostos e não tem uma contrapartida à altura. “A gente paga para ter as necessidades atendidas, mas não temos nada. Pelo que vejo a tendência é de que tudo piore”, lamenta.
A dona de casa Lúcia Gomes compartilha da mesma opinião. “Se essa greve acontecer, a situação vai ficar pior. Os serviços não são bons. Estava acompanhando meu pai, que tem 75 anos, mas tive que ir em casa tomar banho e avisei aos enfermeiros. Mas ele fugiu com o soro na veia. Fui reclamar no hospital e disseram que a culpa era minha”, conta.
Precariedade
Para a também dona de casa Maria Antônia, 33 anos, os pacientes serão os mais prejudicados. “Com a quantidade de médicos que existe o atendimento é precário, imagina com a greve. O Governo do DF tem que cumprir o que prometeu e pagar esse reajuste”, diz.
Para alguns, salário é injusto
Para formar-se em medicina é necessário disciplina, dedicação e muitos anos de estudo. Após a conclusão da graduação, a remuneração não é compatível com a árdua jornada da graduação. Até mesmo quem não é da área concorda que o salário, muitas vezes, é injusto.
“São tantos anos estudando e os médicos ganham muito menos do que muitas pessoas que ocupam grandes cargos no governo só para nos roubar”, salienta o motorista Hermínio dos Santos Soares, 56 anos. Ele ainda completa que a realidade é injusta. “O médico salva vidas e deveria ser valorizado por isso. Eu apoio a decisão dos médicos em optarem pela greve para garantir seus direitos”, constata.
Para muitos, as condições de trabalho também não são muito favoráveis, desmotivando ainda mais os profissionais.
O reajuste
Segundo a presidente da Comissão Distrital de Residência, Martha Zappalá, o reajuste será pago. “O que ficou acertado é que o reajuste será pago em folha complementar. O que houve foi um erro na folha de pagamento que já foi corrigido. Foi isso que nos passaram”, afirmou.
Para um médico residente que prefere não se identificar por medo de represálias, a falta de organização da Secretaria de Saúde é um entrave. “Falta muita organização. Sempre foi assim. Apesar de isso não justificar, explica muitas coisas. Mas acho que no fim das contas vão pagar”, acredita o médico.
Desgaste
Já uma médica residente que também não quis se identificar teme pelo não pagamento. “Tenho receio de que a história se prolongue e a gente demore ainda mais a receber. Essa situação é muito desgastante e evidencia o desrespeito do governo”, diz.