De poeta a empresário da noite, amante da cultura brasileira, professor e conhecedor de política. Esse era Jorge Ferreira, que aos 54 anos morreu no Rio de Janeiro em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Embora fosse mineiro de Cruzília (MG), Jorjão tinha alma brasiliense. Na capital, era dono de 12 bares badalados, entre eles o Feitiço Mineiro, Armazém do Ferreira, Bar do Ferreira, Bar Brahma, Bar Brasil e Bar Brasília.
Internado desde o último dia 23, Ferreira havia tido um mal súbito. Desde então, estava em observação. O quadro, entretanto, se agravou no domingo, quando o empresário teve uma isquemia cerebral – diminuição do suprimento sanguíneo para a área do cérebro.
Na tarde de ontem, foi constatada a morte cerebral. Morador do Lago Sul, o sindicalista e sociólogo tinha ido ao Rio de Janeiro passar um fim de semana de descanso.
PERFIL
Jorge Ferreira, o Jorjão Idade: 54 anos – Foi professor universitário de sociologia, diretor do Sindicato dos Professores do Distrito Federal e chegou até a editar uma revista por dois anos. Em 1987, abriu o primeiro estabelecimento, a pizzaria Gordeixo. Dois anos depois inaugurou o Feitiço Mineiro. Em 1998, abriu o Café do Brasil e logo em seguida, o Bar do Brasil, seguido do Armazém do Ferreira. Ele também era dono do Mercado Municipal, do Bar do Mercado, do Bar do Ferreira e do Bar Brahma. Também se arriscou fora de Brasília: em São Paulo, inaugurou o Cerveja Imperial. Ferreira também se arriscou como escritor. O livro “Serra, Mar e Bar – Causos de Minas” é prova viva, que inclusive teve edição esgotada. Ele recebeu o título de cidadão honorário de Brasília pelo trabalho cultural de mais de 10 mil shows no Feitiço Mineiro. Casado com uma socióloga, Jorge Ferreira deixa também três filhos, sendo dois homens e uma mulher.
Dedicação
Jorjão procurava estar permanentemente em todos os seus bares. A dedicação a cada um deles era a mesma. Mas há quem se arrisque a dizer que o Feitiço Mineiro era a menina dos olhos dele. Amante da culinária acompanhada por um chope cremoso, ele conseguiu juntar a boa comida mineira com a Música Popular Brasileira (MPB). Não deu outra. O sucesso veio logo.
Em 28 anos na capital, Ferreira conseguiu misturar Rio de Janeiro, Minas Gerais e DF em um único estilo. O público reúne desde frequentadores de bermuda a engravatados da política. Bem no jeito do ex-professor de sociologia e ex-presidente do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF).
Conterrânea de Ferreira, a cantora Nani Barros, também natural de Cruzília, destaca a simplicidade do empresário. Adorador de festa, dos amigos e da família, o mineiro tinha a solidariedade como característica.
“Ele era uma pessoa que propagava o bem, buscava melhorar a vida de cada um. Jorge marcou a minha vida em 23 de julho de 2011 quando me convidou a cantar nos bares dele depois de me ver apresentando no festival de música de Minas Gerais”, diz.
O atual gestor cultural das casas noturnas de Ferreira, Gustavo Vasconcelos comemorou os 20 anos da banda Oficina Blues onde tudo começou: no Feitiço Mineiro. Na época, o dono do estabelecimento ainda especulava a possibilidade da música ao vivo. Por dois anos, a sexta-feira se tornou point do blues. “Ferreira unia a culinária e a música. Ele decolou com veracidade, com amor ao Brasil, à comida e à cultura popular”, define.
Uma vida repleta de amizades
Um dos funcionários mais antigos de Ferreira era José Braz Ribeiro, vulgo Tampinha. O garçom trabalhou por 15 anos nos bares do empresário. Depois de tanto tempo, tornou-se amigo de Jorge e da família Ferreira. O estilo do ex-funcionário e amigo foi estampado no Armazém do Ferreira. Lá, uma estátua de Tampinha foi afixada a pedido de Ferreira, como homenagem ao amigo. “Estou abalado e ainda não consigo entender a ida de Ferreira. Ele não era mais um patrão, mas sim um irmão. Viajávamos juntos, levava ele ao aeroporto, o buscava em alguns lugares. Ele foi um amigo”, ressalta.
O atual comerciante não esquece do ex-chefe. “Ele era um fenômeno para mim. Um homem inteligente, humilde, solidário. Não tinha diferença como patrão ou amigo. Só desejo que ele tenha paz e sossego na vida. Que descanse bem”, aponta.
Grande companheiro
Ferreira entendia de tudo um pouco. Até de política. Chegou a ser conhecido como anfitrião do PT. Era amigo íntimo de pescaria e de jogo de futebol do ex-presidente da República, Lula. Ferreira também era chegado do deputado federal José Genoino (PT-SP), do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e do deputado federal Geraldo Magela (PT-DF). “Ele foi um grande companheiro, uma pessoa que transmitia felicidade. Conseguiu unir a cultura, gastronomia e o convívio entre todos. Estava sempre pronto para aquilo que fosse do bem”, aponta Magela.
O corpo do empresário será embalsamado hoje no Rio de Janeiro e deve chegar a Brasília até o fim da tarde. O enterro foi programado para amanhã.