Com o encerramento do Mês do Meio Ambiente, o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) lançou nesta terça-feira (30) o projeto “Caminhos da Restauração: Valoração de Produtos Florestais Não Madeireiros do Cerrado”, com apoio e financiamento da Secretaria do Meio Ambiente (Sema-DF) e do Fundo Único de Meio Ambiente (Funam).
A pesquisa reúne estudos voltados à valorização da sociobiodiversidade do Cerrado e ao fortalecimento de cadeias produtivas associadas aos produtos florestais não madeireiros. Segundo o material divulgado, a iniciativa busca mostrar como a conservação ambiental pode caminhar junto com a geração de renda, a recuperação de áreas degradadas e o desenvolvimento sustentável.
O levantamento aponta potencial econômico, nutricional e sociocultural de espécies nativas como baru, pequi, buriti, mangaba, jatobá e cagaita. De acordo com o estudo, esses produtos podem contribuir para a diversificação da produção rural, o fortalecimento da agricultura familiar, a valorização de povos e comunidades tradicionais e a ampliação das estratégias de bioeconomia no Distrito Federal e na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride-DF).
Apesar do potencial identificado, a pesquisa lista obstáculos para a consolidação dessas cadeias produtivas, entre eles a sazonalidade da produção, limitações logísticas, dificuldades de armazenamento e beneficiamento, baixa padronização da oferta, dependência de atravessadores e a ausência de informações sistematizadas sobre produção e comercialização.
O estudo também destaca a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da sociobiodiversidade, com mecanismos que favoreçam a inserção dos produtos agroextrativistas em mercados institucionais e ampliem sua competitividade.
Um dos pontos analisados é a restauração produtiva por meio de um sistema agroflorestal composto por baru, banana e café. A simulação considerou uma área de um hectare e um horizonte de avaliação de 30 anos, com uso de indicadores como Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR), Retorno sobre o Investimento (ROI) e relação benefício-custo.
No modelo estudado, o baru foi implantado em espaçamento de 10 metros por 10 metros. A banana ocupa as entrelinhas nos primeiros anos do sistema, enquanto o café passa a integrar o arranjo produtivo a partir do quinto ano, ampliando as possibilidades de renda até que o baru alcance sua plena capacidade produtiva.
Segundo a pesquisa, sistemas agroflorestais podem combinar benefícios ambientais e econômicos, com efeitos sobre a conservação do solo, o aumento da biodiversidade, a recuperação de áreas degradadas e a diversificação da produção.
Outro eixo da publicação trata das compras públicas, especialmente da alimentação escolar. O levantamento indica que iniciativas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) têm potencial para estimular a produção local, fortalecer a agricultura familiar e ampliar a presença dos produtos da sociobiodiversidade nos mercados institucionais.
Ainda assim, persistem desafios relacionados à adequação sanitária, à estruturação das cadeias produtivas e à criação de mecanismos específicos que favoreçam a participação dos produtos do Cerrado em editais e chamadas públicas.
O diretor-presidente do IPEDF, Manoel Barros, afirmou que o Cerrado é “um patrimônio ambiental” e também “um ativo estratégico para o desenvolvimento do Distrito Federal”, destacando a possibilidade de conciliar conservação e desenvolvimento ao valorizar espécies nativas e fortalecer as cadeias da sociobiodiversidade.
Já o secretário do Meio Ambiente, Rafael Santana, avaliou que o projeto reforça a visão de que “o Cerrado em pé vale mais do que o Cerrado desmatado”. Para ele, demonstrar com dados técnicos que produtos como baru e pequi geram renda e conservam o bioma abre caminho para políticas públicas mais efetivas.
O diretor de Estudos e Políticas Ambientais e Territoriais do IPEDF, Werner Bessa, afirmou que os resultados da pesquisa são “um farol para o futuro das políticas públicas” e ressaltou o potencial de inserção dos produtos florestais não madeireiros na alimentação escolar, no desenvolvimento regional e na preservação do Cerrado.
Com informações do IPEDF