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Brasília

Insegurança alimentar grave persiste no DF, aponta levantamento

Desigualdade é um dos principais obstáculos para garantir a alimentação adequada à população da capital

Vítor Ventura

17/06/2026 19h16

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População do DF tem melhorias na alimentação, porém insegurança alimentar grave ainda é um problema. Foto: Andre Borges/Agência Brasília

Comparativamente, o Distrito Federal, apesar de ter um dos PIBs per capita mais altos do país, apresenta indicadores de segurança alimentar inferiores aos de estados com PIB per capita significativamente menor. É o que indica o levantamento do ObservaDF, um projeto de pesquisa da Universidade de Brasília, sobre a insegurança alimentar na capital entre 2021 e 2026. Segundo a pesquisa, o DF tem muito mais pessoas em situação de insegurança alimentar do que deveria ter.

O levantamento divulgado em junho aponta que a segurança alimentar teve um aumento no período analisado, passando de 50,1% em 2021 para 61,5% em 2026. Entretanto, a insegurança alimentar grave não apresentou variação estatisticamente significativa. Isso significa que essa situação permanece inalterada no DF. “A situação mais grave em 2026, adultos que sentiram fome e não comeram (9,7%) e crianças nessa mesma condição (6,3%) não apresentou diferença estatisticamente significativas em relação a 2021”, aponta o estudo.

Neste ano, 38,5% dos entrevistados informaram que alguém de seus domicílios vivenciou algum grau de insegurança alimentar. Embora a maioria tenha acesso regular e adequado à alimentação, mais de um terço da população ainda enfrenta alguma forma de restrição alimentar. No estudo, foi aplicada a Escala Brasileira de Medida Domiciliar de Insegurança Alimentar (Ebia) como medida direta da percepção da insegurança alimentar em nível domiciliar. A Ebia classifica os domicílios em quatro categorias: Segurança Alimentar, Insegurança Alimentar Leve, Insegurança Alimentar Moderada ou Insegurança Alimentar Grave.

A insegurança alimentar leve é quando existe preocupação ou incerteza quanto ao acesso a alimentos e redução da qualidade para não afetar a quantidade. A moderada é quando existe falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos entre adultos. A grave é a falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos também entre menores de 18 anos. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no domicílio.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2024, o Distrito Federal apresenta uma proporção de domicílios em segurança alimentar (73,0%) inferior à média nacional (75,8%). No ranking das 27 unidades federativas, o DF ocupa o décimo terceiro lugar, abaixo de estados como Santa Catarina (90,6%), Espírito Santo (86,5%), Rio Grande do Sul (85,2%), Paraná (84,7%) e Goiás (82,1%), e próximo à média da região Centro-Oeste (79,5%). Em termos de insegurança alimentar grave, a forma mais severa, o DF registra 4,2%, acima da média nacional (3,2%) e da média do Centro-Oeste (2,8%), aproximando-se do Nordeste (4,8%).

Desigualdade é determinante

De acordo com o estudo, a insegurança alimentar foi substancialmente mais frequente entre entrevistados com renda per capita familiar de até um salário mínimo e meio (52,7%) do que entre aqueles com renda per capita familiar acima de um salário mínimo (33,1%), diferença de 19,6 pontos percentuais. Esse cenário socioeconômico já havia sido observado em 2021.

Com R$ 129.790, o DF possui o maior PIB per capita do país, mais de 2,4 vezes a média nacional (R$ 53.887) e 67% acima do segundo colocado, São Paulo (R$ 77.566). Apesar dessa vantagem econômica expressiva, o DF apresenta indicadores de segurança alimentar inferiores aos de estados com PIB per capita significativamente menores, como Santa Catarina (R$ 67.460, com 90,6% em segurança alimentar), Espírito Santo (R$ 54.733, com 86,5%) e Paraná (R$ 58.624, com 84,7%). Segundo o estudo, esse descolamento entre riqueza agregada e acesso à alimentação adequada pode refletir a elevada desigualdade interna do DF.

Ao Jornal de Brasília, a nutricionista Albaneide Peixinho, presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do DF (Consea-DF), destacou que a elevada desigualdade de renda entre as Regiões e Administrativas e a dificuldade em alcançar as pessoas em maior vulnerabilidade são alguns dos desafios enfrentados na garantia da segurança alimentar no DF. “A superação da insegurança alimentar grave depende de ações estruturais que reduzam a pobreza, ampliem o acesso à renda e fortaleçam o Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional de forma articulada e permanente”, comentou a especialista.

O estudo do ObservaDF também destaca que a insegurança alimentar foi mais frequente entre entrevistados que residem em domicílios chefiados por mulheres (46,7%) do que entre aqueles por homens (34,9%), padrão que já se verificava em 2021. A insegurança alimentar também foi maior entre entrevistados que residem em domicílios cujos responsáveis são pessoas autodeclaradas negras (43,3%) do que entre aqueles cujos responsáveis são pessoas brancas (29,0%).

Para Albaneide, o fortalecimento das políticas públicas é essencial para transformar esse cenário no DF, sobretudo quando conseguem combinar proteção social imediata com medidas estruturantes de inclusão econômica e promoção da autonomia das famílias. “Mais do que criar novas políticas, é necessário aumentar a efetividade das políticas existentes. Assim, além de ampliar investimentos quando necessário, é essencial aperfeiçoar a gestão, a articulação entre os órgãos públicos e os mecanismos de identificação e atendimento das famílias mais vulneráveis”, disse.

O que diz a Sedes

Em nota ao JBr, a Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes) informou que tem intensificado ações voltadas ao enfrentamento da fome no DF. Entre elas, destaca-se a ampliação da rede de Restaurantes Comunitários, que atualmente conta com 18 unidades, sendo 17 com oferta de três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) e funcionamento ampliado. Segundo a pasta, desde 2023 foram inauguradas quatro novas unidades, e o número de refeições servidas apresentou crescimento expressivo, passando de 7,78 milhões em 2021 para 16,9 milhões em 2025.

A secretaria pontuou que o Programa Cartão Prato Cheio também foi ampliado ao longo dos anos. Criado em 2020 para atender cerca de 30 mil famílias com três parcelas, o programa passou por sucessivas ampliações, alcançando 40 mil famílias com seis parcelas em 2022, atendendo hoje 100 mil famílias com 18 parcelas.

De acordo com a Sedes, o DF também tem obtido reconhecimento nacional pelos avanços nessa área, tendo recebido o Selo Betinho de combate à fome por dois anos consecutivos, premiação concedida pela organização Ação da Cidadania a governos que se destacam na implementação de políticas públicas voltadas à garantia da segurança alimentar.Comparativamente, o Distrito Federal, apesar de ter um dos PIBs per capita mais altos do país, apresenta indicadores de segurança alimentar inferiores aos de estados com PIB per capita significativamente menor. É o que indica o levantamento do ObservaDF, um projeto de pesquisa da Universidade de Brasília, sobre a insegurança alimentar na capital entre 2021 e 2026. Segundo a pesquisa, o DF tem muito mais pessoas em situação de insegurança alimentar do que deveria ter.

O levantamento divulgado em junho aponta que a segurança alimentar teve um aumento no período analisado, passando de 50,1% em 2021 para 61,5% em 2026. Entretanto, a insegurança alimentar grave não apresentou variação estatisticamente significativa. Isso significa que essa situação permanece inalterada no DF. “A situação mais grave em 2026, adultos que sentiram fome e não comeram (9,7%) e crianças nessa mesma condição (6,3%) não apresentou diferença estatisticamente significativas em relação a 2021”, aponta o estudo.

Neste ano, 38,5% dos entrevistados informaram que alguém de seus domicílios vivenciou algum grau de insegurança alimentar. Embora a maioria tenha acesso regular e adequado à alimentação, mais de um terço da população ainda enfrenta alguma forma de restrição alimentar. No estudo, foi aplicada a Escala Brasileira de Medida Domiciliar de Insegurança Alimentar (Ebia) como medida direta da percepção da insegurança alimentar em nível domiciliar. A Ebia classifica os domicílios em quatro categorias: Segurança Alimentar, Insegurança Alimentar Leve, Insegurança Alimentar Moderada ou Insegurança Alimentar Grave.

A insegurança alimentar leve é quando existe preocupação ou incerteza quanto ao acesso a alimentos e redução da qualidade para não afetar a quantidade. A moderada é quando existe falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos entre adultos. A grave é a falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos também entre menores de 18 anos. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no domicílio.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2024, o Distrito Federal apresenta uma proporção de domicílios em segurança alimentar (73,0%) inferior à média nacional (75,8%). No ranking das 27 unidades federativas, o DF ocupa o décimo terceiro lugar, abaixo de estados como Santa Catarina (90,6%), Espírito Santo (86,5%), Rio Grande do Sul (85,2%), Paraná (84,7%) e Goiás (82,1%), e próximo à média da região Centro-Oeste (79,5%). Em termos de insegurança alimentar grave, a forma mais severa, o DF registra 4,2%, acima da média nacional (3,2%) e da média do Centro-Oeste (2,8%), aproximando-se do Nordeste (4,8%).

Desigualdade é determinante

De acordo com o estudo, a insegurança alimentar foi substancialmente mais frequente entre entrevistados com renda per capita familiar de até um salário mínimo e meio (52,7%) do que entre aqueles com renda per capita familiar acima de um salário mínimo (33,1%), diferença de 19,6 pontos percentuais. Esse cenário socioeconômico já havia sido observado em 2021.

Com R$ 129.790, o DF possui o maior PIB per capita do país, mais de 2,4 vezes a média nacional (R$ 53.887) e 67% acima do segundo colocado, São Paulo (R$ 77.566). Apesar dessa vantagem econômica expressiva, o DF apresenta indicadores de segurança alimentar inferiores aos de estados com PIB per capita significativamente menores, como Santa Catarina (R$ 67.460, com 90,6% em segurança alimentar), Espírito Santo (R$ 54.733, com 86,5%) e Paraná (R$ 58.624, com 84,7%). Segundo o estudo, esse descolamento entre riqueza agregada e acesso à alimentação adequada pode refletir a elevada desigualdade interna do DF.

Ao Jornal de Brasília, a nutricionista Albaneide Peixinho, presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do DF (Consea-DF), destacou que a elevada desigualdade de renda entre as Regiões e Administrativas e a dificuldade em alcançar as pessoas em maior vulnerabilidade são alguns dos desafios enfrentados na garantia da segurança alimentar no DF. “A superação da insegurança alimentar grave depende de ações estruturais que reduzam a pobreza, ampliem o acesso à renda e fortaleçam o Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional de forma articulada e permanente”, comentou a especialista.

O estudo do ObservaDF também destaca que a insegurança alimentar foi mais frequente entre entrevistados que residem em domicílios chefiados por mulheres (46,7%) do que entre aqueles por homens (34,9%), padrão que já se verificava em 2021. A insegurança alimentar também foi maior entre entrevistados que residem em domicílios cujos responsáveis são pessoas autodeclaradas negras (43,3%) do que entre aqueles cujos responsáveis são pessoas brancas (29,0%).

Para Albaneide, o fortalecimento das políticas públicas é essencial para transformar esse cenário no DF, sobretudo quando conseguem combinar proteção social imediata com medidas estruturantes de inclusão econômica e promoção da autonomia das famílias. “Mais do que criar novas políticas, é necessário aumentar a efetividade das políticas existentes. Assim, além de ampliar investimentos quando necessário, é essencial aperfeiçoar a gestão, a articulação entre os órgãos públicos e os mecanismos de identificação e atendimento das famílias mais vulneráveis”, disse.

O que diz a Sedes

Em nota ao JBr, a Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes) informou que tem intensificado ações voltadas ao enfrentamento da fome no DF. Entre elas, destaca-se a ampliação da rede de Restaurantes Comunitários, que atualmente conta com 18 unidades, sendo 17 com oferta de três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) e funcionamento ampliado. Segundo a pasta, desde 2023 foram inauguradas quatro novas unidades, e o número de refeições servidas apresentou crescimento expressivo, passando de 7,78 milhões em 2021 para 16,9 milhões em 2025.

A secretaria pontuou que o Programa Cartão Prato Cheio também foi ampliado ao longo dos anos. Criado em 2020 para atender cerca de 30 mil famílias com três parcelas, o programa passou por sucessivas ampliações, alcançando 40 mil famílias com seis parcelas em 2022, atendendo hoje 100 mil famílias com 18 parcelas.

De acordo com a Sedes, o DF também tem obtido reconhecimento nacional pelos avanços nessa área, tendo recebido o Selo Betinho de combate à fome por dois anos consecutivos, premiação concedida pela organização Ação da Cidadania a governos que se destacam na implementação de políticas públicas voltadas à garantia da segurança alimentar.

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