Deslumbrante, mas inviável do ponto de vista econômico. Essa é a melhor descrição para a capital federal. De acordo com o estudo Situação Social nos Estados: o caso do Distrito Federal, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a distância entre ricos e pobres está cada vez mais clara.
O documento mostra que Brasília tem a maior desigualdade social entre todas as unidades da Federação. Na escala de 0 a 1 (quanto mais próximo de 1, maior é a concentração de renda), o índice brasiliense, em 2009, era de 61, e a média nacional, de 54.
Os números mostram que o DF segue na contramão do País. Enquanto nas demais unidades da Federação, o índice de desigualdade vem diminuindo, em Brasília a realidade é diferente. Em 2005, o índice era de 60,34. Em 2009, chegou a 61. No período, o índice para o Brasil recuou de 56,75 para 54,01.
Andar para trás
Enquanto o Brasil melhora, Brasília anda para trás. Ex-presidente do Ipea e autor do estudo, Marcio Pochmann, explica: “A desigualdade ocorre em relação aos extremos da distribuição de renda. Com a recuperação dos salários da administração pública federal, todos os salários foram elevados”.
Segundo ele, a realidade da capital decorre de um desvio do projeto original de Juscelino Kubitschek, que era de interiorização do desenvolvimento e atração da indústria para o Centro-Oeste. Com o tempo, o eixo passou a ser só a agricultura. “Para transformar o cenário, depende muito da administração direta. É preciso considerar atividades como o complexo de saúde, tecnológico e setores sustentáveis.”
Situação pode aumentar a criminalidade
De acordo com o sociólogo Marcelo Cavalcanti, a desigualdade social pode desencadear diversos problemas, como o aumento da criminalidade. “A violência na Região Metropolitana do Distrito Federal mostra as consequências dessa desigualdade. Em um país sem guerra, contabilizamos mais mortes do que se estivéssemos em meio a um conflito”, declarou.
A criminalidade é uma condição da desigualdade. É o que declara o sociólogo: “A violência é um fenômeno amplo. Todas essas violências estão ligadas, não se trata apenas de uma pessoa ter um relógio roubado por outra. Vai muito além. As questões material e moral são determinantes para isso”, disse.
Especulação imobiliária
Ele destaca que Brasília passou por um processo intenso de especulação imobiliária e que isso ocasionou um fenômeno. “Com isso, tivemos o fenômeno da expulsão dos trabalhadores de Brasília para a Região Metropolitana. Essa questão da terra é central nesse processo. Quem detém o poder é o capital financeiro”, explicou.
E Brasília só causou frustração
O casal de ambulantes José Jorge Gomes, 43 anos, e Michele Maria, 25, veio para Brasília há dois meses, com o filho Victor, 3, em busca de uma vida melhor. Eles dizem, porém, que se arrependeram e que só pensam em voltar para a terra natal. “Viemos de Recife em busca de melhores condições, mas aqui isso não aconteceu”, conta Jorge.
De acordo com ele, ao chegar na capital não conseguiram emprego e ainda gastaram o que tinham. “Ficamos em albergues e precisávamos comer. Aqui tudo é caro. A gente gastou com a esperança de conseguir um emprego”, lembra.
Agora, na volta para casa levam na bagagem a frustração, no lugar dos sonhos. “Não tivemos chance aqui. Vimos que muita gente é rica, tem carrão, mora em mansão, mas para os pobres nada é oferecido.”
Pouco dinheiro
O aposentado Domingos Gomes Negrão, 56 anos, morador do Varjão, tem hipertensão e problemas cardíacos e lamenta a dificuldade para garantir o sustento da família com um salário mínimo. “Gasto muito com remédios, pois nunca tem no hospital. Tem meses que mal sobra para a alimentação”, ressalta.
“Nós, pobres, não temos acesso à saúde e a trabalho. O dinheiro fica centralizado”, diz. Para ele, a solução seria investir em educação.
O outro lado
Para a empresária Valma Amaral, 66 anos, o estudo traduz a realidade do Distrito Federal. “A desigualdade social está muito presente na região. Poucos cidadãos têm muito e muitos não têm praticamente nada. A solução, acredito, seria investir em educação”, afirma, concordando com Domingos.
Também empresária, Leila Diniz compartilha dessa opinião. “Brasília concentra muito o poder nas mãos de poucos. Além disso, a especulação imobiliária gera essa desigualdade. Comprar um apartamento aqui é mais caro do que em outra cidade”, critica Leila.
Ponto de vista
De acordo com o doutor em Políticas Públicas Jorge Dantas, a questão da desigualdade está diretamente ligada às características do mercado de trabalho da capital. “No Distrito Federal, a renda é concentrada no serviço publico. Com o passar dos anos, existiu uma reformulação nos salários, mas isso não atingiu outros setores”, declarou. Segundo Dantas, a desigualdade também tem relação com o nível de escolaridade da população. “As pessoas com maior poder aquisitivo investem mais na formação escolar e, consequentemente, possuem melhores níveis de escolaridade”, ressaltou.