A falta de infraestrutura e de segurança nos Setores Hoteleiros Sul e Norte podem manchar a imagem de Brasília durante a Copa do Mundo. O local, que espera pelo menos 40 mil turistas durante os jogos mundiais, passa, hoje, por algumas reformas, mas sem contar com investimentos do setor público.
Do lado de dentro, os hotéis são luxuosos e aconchegantes. Fora deles, prevalecem a sujeira, o caos no trânsito e as recorrentes cenas de violência. “O que é de responsabilidade do governo não é feito. Nosso medo é que a Copa seja um verdadeiro tiro no pé no que diz respeito à impressão dos turistas sobre a capital”, alerta o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (Sindhobar), Clayton Machado.
Problema se arrasta
Para ele, o governo está perdendo a oportunidade de oferecer uma estrutura “decente” para recepção dos hóspedes durante a competição de 2014. “Nós podemos fazer a nossa parte, reformar quartos, salas, hotéis, mas não podemos fazer calçadas, colocar mais postes na rua. Isso é de responsabilidade dos governantes. E o problema se arrasta há anos. A Secretaria de Turismo, por outro lado, sempre diz que vai fazer obras para melhorar a área, mas nunca saem do papel”, critica Clayton Machado.
Para mostrar o atual cenário dos setores hoteleiros, o presidente do Sindhobar lista os principais problemas da região: falta de segurança, limpeza, ordenamento de trânsito e iluminação precária. “Tudo que é relativo ao turismo de Brasília está jogado. Simplesmente não temos apoio”, alega Machado, que diz “vivenciar diariamente” a ausência de políticas públicas no local. “Nem ponto de ônibus eles conseguem arrumar”, aponta, confessando o medo de que as obras saiam “de última hora, sem prazo de duração após terminarem os jogos”.
Quem trabalha no local admite que, de fato, há muito a ser feito nas áreas. “A desorganização aqui é vista a olho nu. Faltam estacionamento, segurança e até limpeza. Como muitos hotéis estão passando por reformas, é entulho para todo o lado e ninguém faz nada”, afirma o taxista Manoel Martins, 45 anos. Para ele, à noite é pior ainda. “Tem muito usuário de crack que fica rondando a área, pronto para assaltar alguém, arrombar carros. O policiamento é fraco. Até tem, mas só depois que acontece alguma coisa. Em seguida, eles somem de novo”, ressalta.
Solução parece distante
Especialista em segurança pública, a docente da Universidade Católica de Brasília Marcelle Figueira diz que existe uma série de elementos para prevenção de delitos. “Entre eles a parceria entre trabalhadores da região e da PM para identificar pessoas com condutas suspeitas antes de acontecer algo”, explica. Além disso, a professora aponta que faltam iluminação apropriada e vigilância.
Quanto aos investimentos na área, que deveriam ser feitos antes da Copa, ela diz: “É difícil falar em solução para uma área que há tantos anos está abandonada.”
“Aqui já foi mais organizado”
Há 12 anos trabalhando na área central de Brasília, o taxista Manoel Martins, 45 anos, diz que nunca viu o setor hoteleiro tão abandonado como agora. “Já foi melhor aqui, mais organizado”, observa.
O taxista frisa que, pelo menos no quesito trânsito, havia mais fiscalização. “Aí os infratores ficavam tímidos. Agora não, a bagunça é generalizada. Você não sabe a mão das vias, o asfalto está esburacado e essas rampas para deficientes estão sempre ocupadas por carros. Um desrespeito total”, conta Manoel Martins.
Ausência
Por dia, circulam na área mais de 50 mil pessoas, entre hóspedes, moradores e trabalhadores.
Procurado pela reportagem, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran) não se posicionou quanto às denúncias de ausência de fiscais e agentes de trânsito na área.
Saiba Mais
A violência chegou a tal ponto na capital federal que abriu espaço para que Brasília se tornasse destaque no quesito insegurança para o Departamento de Estado Norte-Americano.
De acordo com o órgão, em relatório divulgado no ano passado, a cidade não é um local tão seguro como se imaginava, nem para moradores, muito menos para turistas.
“Outrora livre dos índices de criminalidade registrados em outras cidades brasileiras, agora tem significativos problemas de crime, em especial no Setor Hoteleiro e nas áreas turísticas”, alerta o informe.
Tráfico e roubo são constantes no local
Hoje, 222 hotéis compõem os setores hoteleiros Norte e Sul, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os empreendimentos ficam próximos à Rodoviária do Plano Piloto e dos setores comerciais Sul e Norte, pontos conhecidos pelo tráfico de drogas e o alto consumo de crack, além de serem pontos de prostituição. “Os hóspedes se assustam com a presença dessas pessoas. Muitos pedem dinheiro na porta do hotel, abordando as pessoas de uma forma até agressiva”, destaca Francisco Almeida, 47 anos, mensageiro de um hotel da asa sul.
Morador de Cidade Ocidental (GO), ele volta para casa todos os dias de ônibus depois das 23h e reclama: “Falta policiamento ostensivo”. Para o mensageiro, o ideal seria que os transportes circulassem também dentro do setor, oferecendo mais segurança aos trabalhadores. “Se não tivesse tanto morador de rua e bandido aqui à noite, seria tranquilo. Mas tem muito mau elemento por aqui, aí a gente fica com medo de andar. Tenho pelo menos três colegas que foram assaltados nessa região”, conta.
Imagem manchada
No Setor Hoteleiro Norte, muitas pessoas se arriscam a sair à noite. “Tem muito usuário de droga. Eles dormem entre os hotéis, nos estacionamentos. O que é um grande problema, porque muitos deles arrombam os carros dos clientes”, afirma o mensageiro José Alves, 46 anos. Durante o tempo em que a reportagem do Jornal de Brasília esteve no local, cerca de duas horas, nenhuma viatura da polícia foi vista. “Eles (a PM) são devagar demais”, reclama o funcionário de um dos hotéis da área.
Há 15 anos trabalhando na região, o mensageiro aponta que “quase semanalmente, um carro é arrombado” no setor. “Semana passada roubaram o veículo de um cliente”, diz, apontando para os cacos de vidro espalhados no chão. “Isso mancha a imagem da gente, mas não dá para evitar sozinho que isso aconteça”, explica. Para ele, o governo precisa dar mais atenção ao turismo de Brasília. “Como vai ser na Copa?”, questiona.
Falta de iluminação
A falta de iluminação na área, aponta o gerente Divino Oliveira, 46 anos, é o maior inimigo da segurança nos setores hoteleiros. “São muitos espaços escuros e vazios. Isso dá brecha para que roubos e assaltos aconteçam a toda hora”, aponta. “O negócio chegou num nível aqui em que os moradores de rua estavam ameaçando nossos funcionários”, conta.
O gerente chamou a Polícia Militar para conversar no mesmo dia em que a reportagem do JBr. esteve no local. Mesmo após a reunião, a expectativa não é das mais positivas. “Eles vêm quando são chamados, em casos de roubo, assaltos. Mas, depois volta tudo como era, a mesma violência”, critica. O gerente conta que em apenas uma semana três hotéis foram furtados no Setor Hoteleiro Sul. “É essa a cidade que quer receber os turistas da Copa”, ataca.
Turistas percebem
Quem vem de fora percebe o que acontece na região. “É tranquilo se hospedar aqui. Mas, aqui dentro. Os próprios funcionários nos avisaram sobre os perigos de andar no local à noite”, diz João da Costa, 57 anos. Ele, a mulher e as três filhas são da Paraíba e estão na cidade para comemorar o casamento de um primo. “Para evitar qualquer problema, vamos só à festa mesmo. De dia a gente conhece a cidade”, completa o administrador de empresa.
Para os servidores públicos Sílvio Sarmento, 48 anos, e Miguel Barros, 41, contudo, andar pelo local de noite pode ser agradável. “Por enquanto está sendo tranquilo”, brincam. A única reclamação que fazem é relacionada à pouca iluminação do setor. “Podiam colocar mais postes aqui”, apontam.
Até o fechamento desta edição, a Secretaria de Turismo não respondeu à reportagem quanto ao pedido da população de mais atenção e investimentos no Setor Hoteleiro. Além disso, a reportagem tentou contato com delegados da 5ª DP, que registra as ocorrências do local, porém, não foi atendida.
Pense nisso
Nem só de estádios bonitos se faz uma Copa do Mundo. É preciso mais do que isso para que os torcedores que se deslocam para uma cidade-sede sintam-se à vontade para acompanhar os jogos de futebol. Agradar, principalmente, turistas, exige investimentos em serviços como transporte, saúde e hospedagem. Faltando menos de um ano para Brasília receber o evento, pouco foi feito nessas áreas e o medo do brasiliense é de que a capital do País passe vergonha diante das pessoas que virão de outros estados e países. A decadência dos setores hoteleiros é apenas mais uma bola fora nesse sentido.