Dois mil e dez, ano do cinqüentenário da capital, pareceu pequeno diante da efervescência que tomou conta da Universidade de Brasília. Em doze meses, estudantes, professores e servidores testemunharam a greve mais longa da história do país, protestos contra a corrupção no governo, Copa do Mundo, debates sobre a intolerância nos campus, espera pelas obras inacabadas e os avanços, após dois anos de negociação, na construção coletiva do II Congresso Estatuinte.
Imagens de estudantes e da truculência da Polícia Militar nas manifestações pela saída do ex-governador José Roberto Arruda marcaram o primeiro mês do ano. Em fevereiro, tempo da entrada de dois mil calouros aprovados no primeiro vestibular de 2010, a cidade ficou de luto pela morte do pioneiro Ernesto Silva, que fez seu último pronunciamento público na UnB. Problemas no pagamento da URP aos cerca de três mil servidores da universidade deixaram a ameaça de mais uma greve nos corredores.
O que era incerto concretizou-se em março. No dia 9 daquele mês, os professores paralisaram as atividades contra a redução de 26,05% dos salários. Uma semana depois, no dia 16, os técnicos aderiram ao movimento. A UnB parou e mergulhou na greve mais longa da história brasileira e na luta por mais segurança, intensificada após o estupro de uma aluna em um terreno abandonado, próximo à Avenida L2.
Equipe Foto/UnB Agência
Ainda em março, enquanto especialistas defendiam o sistema de cotas raciais da UnB em audiências públicas no Supremo Tribunal Federal, a universidade formava a sua primeira aluna indígena: a jornalista da UnB Agência Amazonir Fulni-ô. Também em março, os 16 primeiros formandos do campus de Planaltina vestiram a beca para receber o diploma. O terceiro mês do ano ainda contou com a formatura de cerca de 800 professores da primeira turma de educação à distancia da UnB no Acre.
Já o mês de abril foi de celebrações. Além do cinquentenário da capital, a UnB comemorou os 45 anos do curso de Biblioteconomia, os 44 anos da Faculdade de Educação e o quadragésimo aniversário do Instituto de Exatas. Mas a universidade continuava em greve. Em reunião do Consuni, o reitor José Geraldo de Sousa Junior e os três segmentos declararam o apoio à luta dos grevistas.
MAIO – Em uma polêmica assembleia, professores decidem suspender a greve após assegurar a URP para a categoria. As aulas são retomadas em maio, mesmo com a decisão dos técnicos de continuar a paralisação. Na levada da greve, representantes dos terceirizados denunciam a demissão de 26 funcionários lotados na UnB durante os quatro dias de mobilização da classe. No fim do mês, uma manifestação contra a homofobia o “Beijaço” acendeu o debate sobre o respeito às diferenças na universidade.
Junho começa com a mobilização da UnB para acompanhar o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo. Festas no Minhocão e no chamado “Corredor da Morte” levam a Prefeitura e os Centros Acadêmicos a buscarem uma solução para preservar o patrimônio público sem prejudicar as celebrações. As imagens de calouros nos chamados “trotes sujos” também viram alvo de críticas na comunidade naquele mês. No dia 27, vídeos com o flagrante de um homem roubando câmeras e laptops na UnB TV correm o Brasil e retomam as discussões sobre segurança no campus.
O sexto mês de 2010 ainda foi marcado pelas homenagens de professores após a morte do escritor português Jose Saramago, doutor honoris causa pela UnB. Foi também o mês em que Iraê Sassi voltou às salas de aula, por decisão da Câmara de Ensino e Graduação, 40 anos depois de ter o direito de estudar confiscado pelos militares na ditadura.
Em agosto, mês do lançamento da quarta edição da Revista Darcy e da retirada dos copos descartáveis do Restaurante Universitário, o Consuni define uma comissão para começar os preparativos do II Congresso Estatuinte da UnB. No mesmo mês, enquanto o jornal Campus da Faculdade de Comunicação completava 40 anos, estudantes da Faculdade de Saúde protestavam contra o fechamento do Pronto-Socorro do HUB.
O fim da greve de seis meses, após mandado de segurança do STF assegurando o pagamento da URP aos técnicos, marca o mês de setembro na UnB. A divulgação, em meados de setembro, da avaliação trienal da Capes dos programas de pós-graduação brasileiros mostra que 13 cursos da UnB tiveram a nota reduzida em relação aos triênios anteriores. O Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação inaugura uma série de encontros para traçar metas para melhorar o desempenho dos 67 programas da universidade.
OUTUBRO – O recredenciamento da Finatec polemizou reunião do Consuni em outubro. Por outro lado, a comunidade comemorou a primeira reunião do Conselho Comunitário da UnB, dezessete anos depois de sua criação. Também em outubro, a UnB Planaltina inaugura o laboratório de Ciências Naturais e a atriz Clarice Niskier incendeia os estudantes que lotaram o Teatro de Arena na Aula da Inquietação. A queda de um aluno durante um trote da Engenharia de Redes retoma os debates sobre a violência na recepção dos calouros.
A intolerância volta aos corredores da UnB em novembro, com a retirada de cartazes que anunciavam a Semana de Consciência Negra. Nos campi, estudantes de Ceilândia protestam contra o atraso de mais de dois anos nas obras do campus, durante visita do reitor José Geraldo. Nas telonas, alunos da FAC brilham e conquistam prêmios no 43º Festival de Cinema de Brasília. Com cerca de 600 atividades, a Semana Universitária é outro destaque de novembro.
O último mês do ano começa com a inauguração do Memorial Darcy Ribeiro, o Beijódromo, evento que trouxe o presidente Lula e outras autoridades ao campus. Na ocasião a comunidade da UnB também recebeu a quinta edição da Revista Darcy. O protesto do mês ficou por conta de um grupo de estudantes do campus do Gama. Motivo: atraso na entrega das obras. Com tantos fatos em tão pouco tempo, a comunidade teve duas semanas de respiro para começar 2011 a todo vapor após Natal e ano novo de recesso.