MATEUS VARGAS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O Ministério da Saúde, além de estados e municípios, avalia formas de expandir o uso de canetas emagrecedoras no SUS (Sistema Único de Saúde).
Uma das frentes envolve nova análise da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) sobre pedido da farmacêutica Novo Nordisk para levar para a rede pública o Wegovy, medicamento contendo semaglutida.
A proposta da farmacêutica é atender pacientes com obesidade que já sofreram infarto. Na análise anterior feita em 2025, destinada a público mais amplo, a comissão negou o pedido ao apontar impacto de até R$ 8 bilhões aos cofres públicos.
A Novo Nordisk promete ampliar o desconto sobre o produto, que era de 30% sobre o preço de tabela na primeira proposta, para 59% na nova tentativa de incorporar o Wegovy ao SUS. A empresa estima ainda que 38.598 pacientes poderão receber o tratamento, ao custo de R$ 500 milhões a R$ 650 milhões por ano.
A Conitec tem prazo de 180 dias, prorrogáveis por mais 90 dias, para avaliar o pedido, feito no começo de maio. O processo ainda deve passar por consulta pública, e a comissão pode sugerir recortes menores do público apto a receber o medicamento, além de apresentar cálculos próprios sobre o impacto financeiro.
No fim do processo, caberá ao Ministério da Saúde avaliar o parecer da Conitec sobre a incorporação ou não do medicamento.
O vice-presidente de Assuntos Corporativos da Novo Nordisk, Leonardo Bia, afirma que a nova proposta mira um grupo de pacientes de “altíssimo risco”, que precisa de tratamento urgente, e traz um dos “menores preços do mundo” para o produto. A empresa sugere que as doses sejam vendidas por valores entre R$ 396,88 e R$ 764,64, variando conforme a apresentação do produto.
Em paralelo à análise para a entrega nacional do medicamento, governos locais adotam as canetas emagrecedoras em programas voltados a grupos mais restritos.
A gestão municipal do Rio de Janeiro planeja, até agora, as maiores compras públicas de canetas emagrecedoras, para atender 3.000 pacientes por ano. Nas últimas semanas, a secretaria local de saúde assinou ata de registro de preço com a Novo Nordisk para adquirir até R$ 16 milhões em Wegovy nos próximos 12 meses.
A introdução do medicamento na rede pública foi uma promessa de campanha de Eduardo Paes (PSD) na disputa pela reeleição, em 2024. Em março, pouco antes de deixar a prefeitura para concorrer ao governo estadual, ele aplicou a primeira dose do medicamento em paciente selecionado para o programa municipal.
Cerca de 50 pacientes recebem o medicamento há três meses, dentro de um protocolo de estudo no Rio, sendo que mais de 90% deles têm diabetes. O subsecretário de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde do município, Renato Cony, afirma que cerca de um terço teve perda de peso superior a 5%.
“Estamos muito esperançosos, sobretudo no controle do diabetes. Temos dados preliminares de pessoas que saem da hemoglobina glicada de altíssimo risco para um nível normal”, afirma Cony.
Ele diz que a medicação tem “baixa eficácia” se for usada “isoladamente”. “Ela ganha potência quando é acompanhada de mudança de estilo de vida, com introdução de atividade física, acompanhamento psicológico e nutricional.”
“A pergunta que está na mesa é qual o paciente que mais se beneficia deste tratamento. Qual é o impacto na qualidade de vida do indivíduo e nos indicadores de saúde pública e de economia do município”, acrescenta Cony.
Além do programa do Rio, ao menos desde 2023 alguns estados adotam as canetas emagrecedoras de geração anterior, à base de liraglutida. As gestões estaduais do Rio e Goiás, além do Distrito Federal, decidiram neste ano atualizar protocolos e passar a utilizar a semaglutida.
No caso de Goiás, a secretaria aprovou o novo protocolo em março, voltado ao público de 12 a 21 anos com diagnóstico de obesidade. O texto prevê que o paciente deve ser acompanhado por equipe multiprofissional, além de realizar atividades físicas e seguir hábitos saudáveis.
O protocolo estadual ainda determina interrupção do tratamento se o paciente não bater metas de redução de peso. Segundo o governo de Goiás, 702 pacientes já foram atendidos com a liraglutida, enquanto a compra do medicamento mais potente está em andamento.
O governo do DF prepara a compra de cerca de 1.800 canetas por R$ 1,3 milhão. “No entanto, o protocolo clínico que definirá os critérios de acesso e utilização do medicamento ainda está em fase de elaboração e análise técnica”, diz a gestão local.
A gestão estadual do Rio afirma que cerca de 200 pacientes com obesidade extrema usam a liraglutida no IEDE (Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione). “Eles foram regularmente atendidos e apresentaram resultados expressivos, tanto na perda de peso quanto no controle glicêmico”, diz a secretaria de saúde, que afirma estar em processo de compra da semaglutida.
O Ministério da Saúde também irá acompanhar um estudo que envolve o uso da semaglutida em unidade do GHC (Grupo Hospitalar Conceição), em Porto Alegre. Serão atendidos cerca de 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças e com indicação para cirurgia bariátrica.
“O objetivo é entender como o tratamento pode se adaptar à realidade do SUS”, diz a pasta.
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. As principais marcas no mercado são compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk) e tirzepatida (Mounjaro, da Eli Lilly), que também atua no receptor do hormônio GIP.
Em maio, a Anvisa aprovou o primeiro análogo de GLP-1 de uma farmacêutica nacional, o Ozivy, da EMS, que usa versão sintética da semaglutida e tem registro apenas para o tratamento do diabetes.
Existe forte pressão de consumidores, de parte da indústria e do mundo político para ampliar a oferta e baixar custos dos emagrecedores. O aumento do consumo para fins estéticos ou fora da bula, além da popularização de versões manipuladas e de medicamentos trazidos do Paraguai, porém, são pontos que preocupam associações e sociedades médicas.
No ano passado, a disputa pelo mercado dos emagrecedores ganhou novo rumo com atuação direta do governo Lula (PT). A Anvisa atendeu a um pedido do Ministério da Saúde e passou na frente da sua fila de análise 20 pedidos de emagrecedores contendo liraglutida ou semaglutida.
O governo também avalia formas de produção das canetas em laboratórios públicos. A EMS e a Fiocruz já assinaram parceria para transferir à fundação a tecnologia dos medicamentos.