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Brasília

GDF resgata lei de 1606 para premiar cidadão que denunciar descarte irregular

Projeto pode conceder a denunciante até 20% do valor da multa aplicada para casos de despejo irregular de resíduos sólidos

Suzano Almeida

14/04/2026 18h47

A Loba, Romulo e Remo Palácio do Buriti

A Loba, Romulo e Remo Palácio do Buriti

O Governo do Distrito Federal (GDF) enviou à Câmara Legislativa, em regime de urgência, um Projeto de Lei que modernizar a fiscalização urbana utilizando uma estratégia inspirada no Direito Colonial. O chamado Sistema Fiscaliza Cidadão, que funcionará dentro do aplicativo e-GDF, permitirá que moradores denunciem atos lesivos à limpeza pública e recebam uma recompensa financeira por isso.

O que chama a atenção na proposta é o seu embasamento histórico. Conforme detalhado nos documentos que acompanham o projeto, a inspiração para a “denúncia premiada” remonta ao século XVII.

Ordenações de 1606

A exposição de motivos do projeto faz uma citação direta às Ordenações Filipinas de 1606, que regiam o Brasil durante o período colonial. Naquela época, a Coroa Portuguesa já utilizava a participação popular para fiscalizar o cumprimento das leis, oferecendo ao denunciante uma parte do valor das multas ou bens confiscados.

Segundo o texto apresentado pelo SLU e pelo Gabinete da Governadora, essa prática histórica de recompensar o cidadão pela cooperação com o Estado visava suprir a dificuldade de manter fiscais em todos os pontos do território. O documento argumenta que, passados quatro séculos, o desafio logístico de impedir o descarte irregular de entulho e lixo em todo o DF exige o mesmo tipo de “olhar onipresente” da população.

Recompensa

De acordo com o Projeto de Lei (PL 2.221/2026), o cidadão que utilizar o aplicativo e-GDF para enviar fotos ou vídeos que comprovem o descarte irregular e identifiquem o infrator poderá ser recompensado com um percentual de até 20% do valor da multa efetivamente arrecadada.

A denúncia poderá ser feita sob sigilo, mas o pagamento depende da confirmação da infração e do pagamento da multa pelo autuado.

Os recursos restantes das multas serão direcionados para campanhas de educação ambiental e programas de limpeza urbana.

Cuidados Jurídicos

Apesar do entusiasmo com a medida, documentos técnicos anexados ao processo — como o parecer da Coordenação de Resíduos Sólidos da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA) — alertam que a implementação exige cautela.

Os técnicos ressaltam que o sistema precisará de uma estrutura robusta para evitar denúncias falsas ou obtidas por meios ilícitos, garantindo que as provas enviadas via celular tenham validade jurídica. Além disso, destacam que a “capacidade institucional” deve ser reforçada para que o volume de denúncias não sobrecarregue os órgãos de fiscalização, como a Secretaria de Proteção da Ordem Urbanística (DF Legal).

O projeto agora aguarda o parecer das comissões da Câmara Legislativa para seguir para votação em plenário. Se aprovado, o Distrito Federal será pioneiro em adaptar uma lógica de governança de 1606 à era dos aplicativos móveis.

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