Enquanto pacientes enfrentam dificuldades nos hospitais públicos do DF, sobraram recursos do orçamento previsto para a Saúde em 2012. É o que aponta o relatório de atividades da Secretaria de Saúde, divulgado no site da Secretaria de Planejamento (www.seplan.df.gov.br).
Dos mais de R$ 3 bilhões reservados à área, restaram nada menos que R$ 355 milhões. Investimentos como a ampliação de unidades, construção das bases do Samu e gestão e manutenção de unidades de Pronto Atendimento (UPAs) não saíram do papel, apesar de autorizados. Esse e outros resultados do relatório têm sido mostrados nessa semana pelo Jornal de Brasília.
Estão listados no relatório os valores previstos, autorizados, empenhados e liquidados. Ou seja, respectivamente, aquilo que se planeja gastar, dentro do orçamento; o que teve sinal verde para investimento; o que já foi comprometido para a previsão do ano seguinte; e a quantia que já foi, de fato, paga.
Upas
Em alguns casos, só foi gasta a metade do valor previsto. A ação descrita como Desenvolvimento das Ações de Atenção Primária, estimada em R$ 63.283.343, teve um total de R$ 31.677.471 utilizados. Nos gastos de construção e reforma de Unidades Básicas de Saúde e UPAs, o total de recursos empenhados chega a R$ 15 milhões, enquanto o valor autorizado foi de pelo menos R$ 80 milhões.
A Saúde argumenta que essas obras não foram adiante por conta da intervenção do Ministério Público e do Tribunal de Contas, que investigam o contrato com a metalúrgica responsável pelos projetos. As obras foram retomadas neste mês, assegura a pasta.
Enquanto isso, nos hospitais…
Quem vai aos hospitais públicos não consegue compreender como os recursos podem não ter sido empregados para a melhoria no atendimento. No Hospital Regional de Ceilândia (HRC), a reportagem ouviu relatos de demora de mais de um dia para tratamento de pacientes com sintomas simples.
Com febre, dores no corpo e vomitando, a cuidadora de idosos Maria Santana afirma que teve que passar a noite no hospital. A chegada na unidade foi às 11h de terça-feira e ontem, às 12h, ainda não tinha conseguido atendimento. “Há três dias eu tento me consultar, mas não consigo. Dessa vez decidi dormir aqui para ficar na fila, mas não adiantou muita coisa”, desabafou.
Havia oito horas que a auxiliar de serviços gerais Lúcia Rejane dos Santos esperava atendimento na ortopedia, por conta de um problema de coluna. A triagem aconteceu rapidamente, mas para conseguir tratamento a espera parecia interminável. “Na triagem me disseram que a minha classificação era verde, e quem foi classificado assim não está sendo chamado”, reclamou.
Idosos
A espera de mais de quatro horas na cadeira de rodas deixou a aposentada Petrina Maria da Conceição impaciente. Mesmo tendo 72 anos, o atendimento da idosa não foi considerado prioritário. “Por enquanto só passei pela triagem. Estou com muita dor nos ossos e tenho osteoporose. É sempre assim, aqui. Nunca melhora. É o jeito esperar, porque não tenho como ir para outro lugar”, lamentou.
Após receber alta de uma internação, a doméstica Maria Luiza dos Santos precisou voltar ao hospital para investigar os sintomas da dengue, que se agravaram. “Só fiz os exames e não sou chamada nunca. Da outra vez que vim aqui, cheguei de manhã, mas demorou muito e eu acabei indo para Samambaia, mas não fui atendida lá. Quando voltei à noite para Ceilândia fui atendida. Um dia todo de espera”, disse, indignada.
Região Metropolitana
Também com suspeita de dengue, o pintor Genézio Fialho saiu de Águas Lindas (GO) para tentar tratamento. Entretanto, se passaram mais de seis horas de espera e ele não havia sido chamado. “Tiveram que me colocar no carro, porque eu nem tinha forças para fazer isso sozinho. Estou ardendo de febre, sem fome, com dor no corpo e nos olhos. Aqui, se a pessoa tiver que morrer, vai morrer mesmo”, afirmou.
Aos 88 anos, o aposentado Anacleto Abel sofria com anemia e problemas causados pela diabetes. A filha, Maria de Jesus Abel, desistiu de esperar e o levou para casa. “Agora deu o horário de almoço dos médicos e só Deus sabe quando eles vão voltar. Não adianta ficar aqui”, disse. O aposentado resumiu a indignação em uma frase: “Essa saúde do DF não vale nada”.
Justificativas da secretaria
A Secretaria de Saúde considera que os valores que restaram não são simplesmente sobras. O diretor executivo do Fundo de Saúde do DF, José Menezes Neto, afirma que nos relatórios consta apenas uma previsão orçamentária, e que houve uma baixa, de R$ 105 milhões, em relação ao que se esperava receber do Governo Federal. A diminuição se deu por conta de uma diferença entre o que a esfera federal esperava arrecadar e o que de fato foi coletado. Com isso, o valor total autorizado chega a aproximadamente R$ 2,919 bilhões. O total aplicado ficou em R$ 2,669 bilhões, uma “sobra” de R$ 250 milhões. O valor está dentro do esperado pela secretaria.
“Se você comparar R$ 3 bilhões com R$ 250 milhões, isso representa menos de 10% do total previsto. Isso significa cerca de 93% do orçamento executado. É uma excelente execução. Não sou eu que estou dizendo que é bom, mas, sim, os teóricos da área”, argumentou.
Esses R$ 250 milhões, de acordo com Menezes, ficam disponíveis no ano seguinte e também podem ser utilizados em casos de emergência, como o hospital de campanha montado em Brazlândia para o combate à dengue, por exemplo – em parceria com Governo Federal.
INDIGNAÇÃO
Enquanto isso, no Hospital Regional do Guará, muita indignação: “Me sinto abandonada com essa saúde. Estou aqui há seis horas e só tirei raios X. Me mandaram esperar, mas não chamam”, reclamou a doméstica Marlene Dias.