Vinícius Borba
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O desespero levou uma família abalada pelo crack a pedir socorro às autoridades. Um menino de 11 anos foi encontrado mais uma vez em risco de morte, nas portas do Hospital de Base, pelo vício da droga. Ele já passou várias vezes por centros de tratamento e comunidades terapêuticas desde os nove anos, mas a família busca agora um tratamento mais consistente, em clínica terapêutica, serviço não oferecido pelo governo.
“Não tenho medo de morrer. Se acabar, acabou”, afirma o menino, que apesar do aspecto inocente, guarda no olhar uma carga pesada de vivências da rua. Rafael (nome fictício) passou os últimos dois anos envolvido em fugas de casa e internado em comunidades para adolescentes viciados. Escapar dos locais de tratamento, porém, nunca foi difícil para o garoto.
Ontem, ele foi encontrado por uma assistente social, que chamou o Conselho Tutelar para atender a situação. Ele estava passando mal por não comer e se intoxicar. A conselheira Daise Picanço acompanhou o atendimento. “Já conhecemos o caso dele. É dramático. Ele é recorrente do vício de crack e não adianta levar para uma comunidade terapêutica. O médico dele, em outubro do ano passado, afirmou que 30% do cérebro está comprometido com tanto consumo”, revela a conselheira.
No hospital, depois de conversas com os pais, acompanhadas de lágrimas dele e da mãe, Rafael manifestou pela primeira vez o interesse em realmente cumprir o tratamento. Para a mãe, o momento é crucial. “Ele precisa de uma internação mais forte. Essas onde ele consegue fugir não adiantam, pois quando dá a fissura, ele sai. Está sendo um sacrifício para ele não voltar para a Rodoviária do Plano Piloto”, conta a mãe, uma dona de casa de 33 anos.
Segundo a gerente Michele Falcão, do Adolescentro, órgão da Secretaria de Saúde que atende meninos e meninas em situação de vulnerabilidade social, a decisão de que ele precisa ou não de tratamento compulsório depende da avaliação de psiquiatras. “Ele já esteve aqui no Adolescentro, mas não voltou para continuarmos com o tratamento. Apesar disso, o atendimento depende da avaliação do médico”, argumenta.
Para a conselheira tutelar Daise Picanço, o tratamento do Adolescentro é eficaz quando a família está mais estruturada. No caso do menino, para ela isso não tem mais impacto. Daise tentou interná-lo para desintoxicação no Hospital Regional da Asa Sul, mas segundo ela, não houve leito disponível. Apesar disso, a desintoxicação é um processo de apenas três dias, pelo qual o garoto já teria passado outras vezes.
A única possibilidade de internação oferecida pelo GDF é na comunidade terapêutica Transforme Ações Sociais e Humanitárias, que mantém uma chácara com 45 vagas. Rafael já passou por lá pelo menos três vezes, mas não concluiu o tratamento. O local não é uma clínica, mas tem espaço para possibilitar afastamento com atividades lúdicas e educativas para crianças e adolescentes de sete a 18 anos.
Segundo a presidente do Transforme, Claudia Brito, a saída para o caso é uma ação em rede, que consiga reorientar a ação da família e apoiar a reinserção do menino. Mas ela aponta dificuldades. “Ele já esteve conosco. Passava a primeira semana, dava cinco minutos e fugia novamente. Sabemos que há dificuldade de estrutura familiar para seguir com o tratamento. Ou, no caso dele, conseguir ordem judicial pela qual o governo pague de R$ 6 mil a R$ 8 mil por mês numa clínica particular para internação compulsória”, diz.
Segundo a presidente do Transforme, a evasão é um sério problema. “Eles não têm mais noção de autoridade ou sensação de carinho e amparo com as próprias famílias. Até abril deste ano, 367 menores passaram por aqui, 248 ficaram, mas só 12 concluíram o prazo de quatro meses que dura o tratamento por nós proposto. O vício entre crianças só cresce, e a cada dia vejo piorar. No início de 2011, os meninos que vinham tinham de 13 a 14 anos. Agora, variam de nove a 12, e deles, 90% são viciados de crack. Antes, eram 40%”, relata.
Claudia aponta um obstáculo para a continuidade dos tratamentos oferecidos na entidade: o risco de faltar apoio do governo. “Nós conseguimos fechar convênio com a Secretaria de Justiça para obter recursos para dez vagas aqui, que só serão pagas de acordo com a internação. Mas temos outras 35 que estão a perigo de serem fechadas pela não renovação de convênio com a Secretaria de Saúde”, esclarece.
O convênio existe desde 2008 e termina em junho próximo. “Se não renovarem, teremos de fechar as portas, pois aqui não temos vagas particulares que tragam outra renda”, afirmou. A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde explicou que o assunto já está em estudo para a possível renovação, com publicação de termo aditivo em prazo hábil.