Neste mês, um dos adolescentes do Caje – V.R., de 17 anos, vai ser apresentado aos juniores do Gama, um dos oito times juvenis brasileiros selecionados para disputar a Copa Internacional Santiago de Futebol Júnior. Participam também do campeonato representantes da Argentina, do Uruguai e do Chile, entre outros. O melhor, é que no Caje, ele não é o único talento. Só este ano, três rapazes e uma moça foram revelação no futebol e podem ser indicados para os clubes.
O descobridor desses talentos é Delton Pereira, que trabalha no Caje há 18 anos. A experiência dele no futebol vem de longe, foi jogador profissional até 1985, nos times do Guará, de Brasília, da Desportiva Bandeirante e, em outros estados, no Uberaba e no Corinthians de Presidente Prudente. Hoje, Delton é chefe do setor de esporte, responsável por uma escolinha de futebol
e futebol society no Caje, onde tem revelado verdadeiras pérolas para o futebol.
O adolescente V.R. está no Caje há 1 ano e 9 meses, e lá seu interesse fluiu para o futebol. Após disputar o campeonato juvenil de Brasília, no segundo semestre de 2009, pela Associação Atlética Esportiva e Recreativa dos Cooperados e Funcionários das Cooperativas do DF-ASCOOP, V.R. foi notado pela habilidade e condicionamento físico. “O esporte o ajudou a trocar a
rebeldia nas atividades seculares pela disciplina”, afirma o professor Delton. O adolescente também tem consciência desse desafio. “Essa é uma oportunidade para ajudar a minha família a ter uma condição de vida melhor e eu sair do crime. Sonho um dia brilhar no futebol”, vislumbra, V.R.
No campeonato do Caje, realizado em julho de 2009, os adolescentes T.F. e B.S., ambos de 18 anos, também foram destaques. Para o jovem T.F. o futebol representa um projeto de vida. “Ele pode mudar a minha vida porque é o que eu gosto de fazer. Se Deus abençoar, eu queria estar num time profissional grande”, sonha T.F. Para B.S., artilheiro do campeonato, essa oportunidade é imperdível, “Ser apresentado para um time é uma oportunidade única que o
Caje me dá e tenho que abraçar com as duas mãos”, reconhece, B.S.
Para quem ainda pensa que futebol só é coisa de menino, engana-se. S.L., 16 anos, é uma moça que também tem habilidade e boa desenvoltura para o esporte. Ela também sonha jogar futebol profissionalmente e o fato de estar sendo observada é uma oportunidade que não tinha na rua.
Esse êxito dos adolescentes no sistema socioeducativo deve-se a interação e a motivação encontrada no esporte. A primeira escolinha de futebol do Caje foi criada em 1997, com apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que fornecia bolas, chuteiras e uniformes. Hoje, a escolinha existe como recreação. Mesmo sendo um trabalho informal, o professor Delton busca
parceria com clubes e associações profissionais para que os internos do Caje tenham uma melhor promoção no esporte. “Os meninos que têm um bom relacionamento com futebol, a gente faz uma série de avaliação: técnica, período de internação, acompanhamento psicológico e de assistência social e, conforme o caso, eu procuro parceria com os clubes para treiná-los.” disse Delton.
O empenho do professor Delton se justifica, uma vez que o futebol mudou a história de muitos dos jovens que passaram pelo Caje. Os jovens R.S. e I.B. são exemplos disso. Ex-internos, que superaram a vida regressa por meio do futebol e deixaram o Caje em 2003. Rômulo concluiu o 2ª grau no Caje, formou-se em História e especializou-se em arbitragem. Igor foi para
Portugal jogar no Juniores do Porto.
Para a vice-diretora do Caje, Sandra Pimpão, o esporte é uma forma dos internos se conhecerem, acreditarem em si mesmo, resgatararem sua auto-estima, transformarem a realidade, fazerem escolhas saudáveis e se sentirem incluídos socialmente. Além disso, ela acredita que a interação entre professores, monitores, psicólogos, assistente social e a direção é de suma importância para o desempenho dos internos. “Esse é o caminho para
trabalhar valores e relacionamentos”, afirma.