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Brasília

Frio e seca aumentam incidência de doenças respiratórias no DF

Baixa vacinação e circulação de influenza, covid-19 e vírus sincicial respiratório mantêm especialistas em alerta durante o inverno

Isabele Mendes

25/06/2026 7h04

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As manhãs frias e o ar cada vez mais seco característicos do inverno brasiliense já começam a impactar a saúde da população. Embora o Distrito Federal tenha registrado redução nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em comparação ao ano passado, especialistas alertam que a combinação entre temperaturas mais baixas, circulação de vírus respiratórios e baixa cobertura vacinal continua favorecendo o aumento de infecções e internações.

Dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) mostram que, até a Semana Epidemiológica 23 deste ano – 07 a 13 de junho -, foram notificados 3.460 casos de SRAG entre residentes do DF. No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 4.771 casos.

A síndrome engloba diversos quadros respiratórios graves e é caracterizada pelo agravamento de síndromes gripais, com sintomas como dificuldade para respirar, respiração acelerada e baixa saturação de oxigênio, muitas vezes exigindo hospitalização.

Apesar da redução dos registros, o cenário ainda preocupa médicos e autoridades sanitárias. Segundo o médico Fabrício da Silva, da Amplexus, os principais vírus em circulação neste inverno são o vírus sincicial respiratório (VSR), a influenza A e B e a covid-19.

“O período frio favorece a transmissão porque as pessoas permanecem mais tempo em ambientes fechados e com pouca circulação de ar. Além disso, o sistema imunológico e as próprias vias respiratórias sofrem alterações durante as baixas temperaturas, tornando o organismo mais suscetível às infecções”, explica.

Vacinação abaixo da meta

Enquanto os vírus circulam com intensidade, a cobertura vacinal segue distante do ideal. Até maio, foram aplicadas 460.847 doses da vacina contra a influenza no Distrito Federal. Entre crianças, gestantes e idosos, considerados grupos prioritários, a cobertura alcançou apenas 40,21%. O índice está longe da meta de 90% estipulada pelo Ministério da Saúde.

As crianças apresentam a menor adesão, com apenas 30,93% de cobertura vacinal. Entre os idosos, o percentual chegou a 44%, enquanto as gestantes alcançaram 48,27%.

Para Fabrício, a vacinação continua sendo a principal ferramenta para evitar complicações. “As vacinas têm potencial para reduzir tanto a infecção quanto as formas graves da doença. Elas treinam o sistema imunológico para responder de forma mais rápida quando ocorre o contato com o vírus”, destaca.

A assistente administrativa Luiza Marques do Vale, de 24 anos, está entre aqueles que ainda não se imunizaram. Ela enfrentou recentemente um quadro gripal que começou com dor de garganta e evoluiu para congestão nasal e mal-estar. “Acordei com dor de garganta e depois comecei a sentir o corpo ruim e o nariz congestionado. Fiquei assim por uns três dias”, conta.

Sem procurar atendimento médico, ela optou por se medicar em casa e se recuperou após cerca de quatro dias. Depois da experiência, afirma que passou a ter mais cuidados. “Tenho tentado sair mais agasalhada e me proteger melhor do frio.”

Clima favorece agravamento dos quadros

Além da circulação dos vírus, o clima típico do Distrito Federal nesta época do ano contribui para o aumento das doenças respiratórias.

O meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explica que a umidade do ar tem se mantido acima do que normalmente é registrado para o período, graças à presença de sistemas que ainda provocam chuvas isoladas. “A umidade tem permanecido acima dos 30% nas horas mais quentes do dia, o que é relativamente bom para Brasília nesta época. Em anos mais críticos, ela pode cair para níveis entre 15% e 25%”, afirma.

Mesmo assim, ele alerta que o período mais severo da estiagem ainda deve ocorrer nos próximos meses. “Quando a umidade chega perto de 15%, há maior concentração de poluentes na atmosfera, o que favorece o agravamento das doenças respiratórias. O frio e a seca prejudicam especialmente quem já possui problemas respiratórios.”

A previsão para os próximos dias indica temperaturas variando entre 12°C e 24°C, com possibilidade de chuvas isoladas antes do fim do mês.

Crianças exigem atenção redobrada

Os impactos do inverno são sentidos principalmente pelos grupos considerados mais vulneráveis. A enfermeira Cíntia Rodrigues, de 36 anos, acompanha de perto essa realidade.

Mãe de uma criança com pré-asma, ela relata que o filho costuma apresentar piora dos sintomas sempre que chegam o frio e a seca. “Ele fica mais suscetível a gripes e resfriados e também apresenta mais crises respiratórias”, afirma.

Em algumas ocasiões, a situação exigiu atendimento hospitalar. “Por causa da falta de ar, ele precisou fazer inalação com salbutamol e permanecer em observação até melhorar.”

Mesmo vacinado contra a gripe, o menino continua sendo monitorado pela família durante esta época do ano. “A minha maior preocupação é que ele tenha uma crise mais grave e precise novamente de atendimento hospitalar”, relata.

Gripe ou resfriado?

Em meio ao aumento da circulação dos vírus respiratórios, muitos pacientes ainda têm dúvidas sobre a diferença entre gripe e resfriado.

Segundo o otorrinolaringologista Gustavo Lara, da Academia Brasileira de Rinologia (ABR), a gripe, geralmente causada pelo vírus influenza, costuma provocar sintomas mais intensos, como febre alta, dores no corpo, fadiga e mal-estar significativo. Já o resfriado tende a evoluir de forma mais branda, apresentando principalmente coriza, congestão nasal e espirros.

O especialista alerta ainda para sinais que exigem avaliação médica, como falta de ar, febre persistente, sonolência excessiva, desidratação e agravamento do quadro em crianças, idosos ou pessoas com doenças crônicas.

Campanha leva orientações à população

Em meio ao período de maior circulação dos vírus respiratórios, Brasília receberá no próximo dia 28 a etapa local da campanha nacional “Respirar é Viver: um Futuro mais Verde”, promovida pela Academia Brasileira de Rinologia (ABR) e pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF).

A ação será realizada na Praça do Buriti e terá como foco a conscientização sobre prevenção de doenças respiratórias, qualidade do ar e hábitos que ajudam a fortalecer a saúde durante o inverno. “Entender a diferença entre gripe e resfriado, reconhecer sinais de alerta e adotar hábitos saudáveis são medidas importantes para evitar complicações”, destaca Gustavo Lara.

Com a estiagem avançando e a circulação dos vírus respiratórios mantendo-se elevada, especialistas reforçam que vacinação, hidratação, ambientes ventilados e atenção aos primeiros sintomas continuam sendo as principais estratégias para atravessar o inverno com mais segurança.

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