Por Daniel Xavier
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O Eixão do Lazer, no coração de Brasília, voltou a pulsar com mais intensidade. Aos domingos e feriados, a via que corta as asas do Plano Piloto se transforma em um grande espaço de convivência e cultura, frequentado por famílias, ciclistas, corredores e artistas. Mas, além da cena vibrante, uma nova dinâmica tem chamado atenção de quem vive do comércio no local: o crescimento no número de visitantes, impulsionado pela gratuidade do transporte público, trouxe novas oportunidades — e também novos desafios.
Desde março de 2025, com o lançamento do programa Vai de Graça, do Governo do Distrito Federal (GDF), moradores do DF podem se deslocar gratuitamente por ônibus, metrô, BRT e os tradicionais micro-ônibus “Zebrinhas”. A proposta busca incentivar o uso do transporte coletivo, ampliar o acesso ao lazer e fomentar a economia local. Apenas no Carnaval deste ano, mais de 2,5 milhões de acessos foram registrados nas linhas de transporte, segundo dados do GDF.
No Eixão Norte, Marcos Nogueira, de 49 anos, sente os efeitos da mudança. Ele comanda a barraca “Coco do Marcão” há três anos e relata um crescimento perceptível no fluxo de pessoas. “A movimentação aumentou, principalmente de famílias e gente passeando. Mas muita gente ainda não sabe que o transporte está liberado aos domingos. Se essa informação chegar forte nas periferias, aí sim vai lotar”, acredita.

Foto: Daniel Xavier/ Jornal de Brasília
Apesar do maior número de visitantes, Marcos ainda não viu o impacto direto nas vendas. “Tem mais gente, sim. Mas a conversão em vendas ainda é baixa. A maioria só passeia, tira foto, escuta música e segue. O que falta é incentivo ao consumo e infraestrutura que estimule o público a permanecer mais tempo aqui”, avalia.
Já Fernando Ferreira, de 36 anos, tem uma visão mais otimista. Dono da recém-instalada banca “Paraíso Tropical”, onde vende coco e açaí, ele comemora a chance de empreender. “Estou aqui há só dois finais de semana, mas já vi que é uma vitrine boa. O movimento me surpreendeu. Quando soube da liberação do transporte e do espaço fechado para carros, vi uma chance de investir”, conta.
O olhar dos antigos
O aumento de circulação no Eixão é visível, mas antigos trabalhadores do local observam que o movimento ainda está longe de atingir o auge que já teve. Lemuel Santana dos Santos, 56, trabalha há 30 anos vendendo alimentos na via. Ele recorda os tempos da Micarecandanga, que transformava o Eixão em um carnaval fora de época, com trios elétricos e multidões. “Era o auge. Tinha Banda Eva, Chiclete com Banana, Olodum… Depois tudo foi pra Torre e aqui esfriou. Agora está voltando, mas aos poucos. Ainda não é como era”, afirma.
Santana acredita que o Vai de Graça tem potencial para democratizar o acesso ao Eixão, mas ainda precisa ser melhor comunicado à população. “O povo da Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas… essa galera ainda não está vindo. Quando souberem de verdade, vai encher. O Eixão é um cartão-postal, um ponto de encontro para famílias e cultura popular. Mas falta estrutura”, comenta.
A falta de banheiros públicos, por exemplo, é uma reclamação recorrente entre os feirantes. “Aqui é um ambiente familiar. Tem comida, tem bebida, tem roda de samba. Mas não tem banheiro. As pessoas acabam usando as passagens subterrâneas, o que é um absurdo. A gente precisa de respeito com quem trabalha e com quem vem curtir”, desabafa Lemuel.
O artesão Arnou Silva do Nascimento, de 31 anos, também percebeu mudanças significativas com o transporte gratuito. Há cinco anos vendendo bonsais com estilo de ipês — uma homenagem ao Cerrado —, ele destaca o aumento de turistas e visitantes. “Muita gente que não tinha como vir agora consegue. Antes, eu atendia umas cinco ou seis pessoas por hora. Hoje, chegam a ser de dez a quinze. Isso fez muita diferença.” Para Arnou, o programa abriu uma nova fase para a arte e o artesanato no Eixão. “Tem mais gente circulando, mais curiosidade, mais contato com a cultura local. Isso incentiva a arte e a economia criativa também. Mas, de novo, precisamos de apoio público. Divulgação, estrutura, segurança. O transporte é só o começo”, aponta.
Com o aumento de frequentadores no Eixão do Lazer, problemas antes pontuais se agravaram: falta de banheiros, ausência de pontos de apoio e pouca divulgação das ações do governo são queixas recorrentes. O Jornal de Brasília procurou a Secretaria de Transporte e Mobilidade do DF (Semob-DF) para obter dados sobre o uso do transporte público nos últimos feriados e possíveis medidas para sanar as demandas apontadas por comerciantes, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.