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Brasília

Falta de manutenção impede atendimentos e expõe fragilidade da Saúde do DF

Arquivo Geral

01/10/2015 6h10

Eric Zambon

eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

A falta de tomógrafo, no Hospital de Base, para um bebê de nove meses vítima de acidente de carro não foi um caso isolado. Segundo o Sindicatos dos Médicos (Sindmédico-DF), existe pelo menos mais um aparelho desse tipo sem condições de uso na unidade. A Secretaria de Saúde não soube afirmar quantos estão fora de uso, mas, dos 13 disponíveis no DF, apenas um está dentro do prazo de garantia do fabricante – os outros   estão com   contratos de manutenção vencidos.

Na noite da última terça-feira, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) precisou levar a criança ao hospital para um exame na   cabeça. Havia suspeita de traumatismo craniano, não confirmada após avaliação, mas o único tomógrafo estava quebrado há mais de duas semanas, conforme o gerente responsável do HBDF, Fernando Lemes, disse à TV Globo. A criança fez o exame no Hran.

O problema se estende a vários   equipamentos, de acordo com os sindicatos do setor. A presidente do SindSaúde, Marli Rodrigues, acredita em falta de conhecimento da situação por parte da secretaria e critica a existência de “milhares de aparelhos quebrados”. “Eles foram estragando e, em vez de consertarem, compraram novos”, denuncia. O JBr. recebeu imagens do Hospital de Santa Maria, onde   macas, incubadoras e outros objetos estão empilhados, assinalados com cartazes de “com defeito”.

Segundo o presidente do Sindmédico, Gutemberg Fialho,  a má gestão de recursos ocasiona as longas filas. “A falta de manutenção é questão de renovar contratos. Por que não são renovados? Todo mês a gente acompanha, mas não existe melhora. O cenário é o mesmo de um ano atrás”, indigna-se.

O mecânico Juarez José Torres,   36 anos, não aguentou esperar. Ele sofreu um acidente de bicicleta no mês passado, a caminho do trabalho, e bateu a cabeça tão forte que ficou temporariamente sem visão. “Não me desesperei porque o importante é a vida. Fui a um oftalmologista e ele pediu três exames. Marquei todos, mas estou há quase um mês no aguardo”, revelou.

Ele preferiu pagar os exames pela rede particular para agilizar a volta ao médico. Segundo o mecânico, existe risco de não voltar a enxergar totalmente com o olho esquerdo.

Enquanto isso, filas só crescem

De acordo com a Secretaria de Saúde, a fila  relativa apenas aos exames de tomografia e mamografia é de 14,5 mil pessoas no total. Dentre os aparelhos cuja situação dos contratos de manutenção a secretaria conseguiu apurar até o fechamento desta edição, apenas os raios-X estariam todos cobertos. Existem 101 disponíveis na rede pública, entre fixos e móveis, e todos estariam funcionando. 

Segundo o presidente do Sindmédico, Gutemberg Fialho, porém, o mesmo não pode ser dito sobre a maioria dos outros equipamentos. “São 20 máquinas de hemodiálise no Hospital de Sobradinho, mas somente 11 funcionam. Nove ainda estão em manutenção”, exemplifica. Ele admite não saber quantificar o problema na capital, mas afirma que existe uma “situação grave constatada diariamente”.

Distância

Mãe recente, a empregada doméstica Zeni Soares da Costa,   38 anos, teve de se deslocar, ainda grávida, de Planaltina ao Paranoá para   uma ecografia. “Foi muito difícil. Não consegui ônibus, porque era à noite – o único horário que me atenderam – e não tinha muito transporte”, relembra. Segundo ela, o hospital da cidade ficou sem o equipamento durante uma boa parte de sua gestação.

O inconveniente, segundo ela, se estendeu à marcação de consultas e exames de rotina. De acordo com ela, os próprios médicos e enfermeiros relatam falta de profissionais para operar equipamentos simples. “Eu me sinto muito desrespeitada por tudo isso”, reclama.

A dona de casa Anselma Batista de Sousa,  50 anos, também relata transtornos. No caso dela,  frequentadora do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), o problema foi a falta de reagente para  exames de sangue: “Se dão dez testes para fazer, pode saber que pelo menos sete você vai ter que fazer por fora”.

A dona de casa, porém, conta já ter precisado ir a Planaltina (GO)  para fazer um exame que demorou   a ser liberado no Hran por, segundo ela, falta de equipamentos. “Cada governo quer fazer uma coisa diferente e acaba que ninguém faz nada de novo”, conclui.

Saiba mais

Em agosto, a Secretaria de Saúde divulgou que existem 57,5 mil equipamentos, de todas as funções, na rede pública. Destes, menos de um quarto teriam recebido a manutenção devida nos últimos tempos. O valor dos contratos para os reparos superaria R$ 8 milhões.

Ainda de acordo com a pasta, os contratos de manutenção relativos à gestão anterior estão com pagamento em dia. Os mamógrafos têm contrato vigente de manutenção anual no valor de R$ 1,05 milhão. Os aparelhos de raios-X têm contrato anual de R$ 1,4 milhão.

Motorista embriagado e sem carteira

O acidente que deixou o bebê ferido teria sido provocado por um motorista embriagado, segundo a Polícia Militar. De acordo com as investigações, o suspeito conduzia um VW Spacefox preto e colidiu com um Fiat Palio vermelho, que capotou. No carro atingido, havia cinco ocupantes, entre eles a criança, de nove meses de idade, que foi levada para o hospital com suspeitas de traumatismo crânio encefálico. 

Um rapaz de 16 anos ficou preso às ferragens e gravemente ferido. A PM não soube informar  sobre a situação dos demais ocupantes. 

Segundo a Polícia Militar, o motorista fugiu sem prestar atendimento às vítimas. No entanto, deixou para trás um pedaço do parachoque do carro, com a placa. Dessa forma, os policiais conseguiram localizá-lo. Ele estava em São Sebastião, ainda com sintomas de embriaguez, ileso e sem   Carteira Nacional de Habilitação (CNH). 

Ainda de acordo com a Polícia Militar, o suspeito possui passagens por ameaça e atentado violento ao pudor. Ele foi encaminhado para a 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul).

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