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Brasília

Estudantes reivindicam por inclusão e acessibilidade na EMB

Alunos com deficiência visual reclamam de capacitismo e falta de estrutura na Escola de Música de Brasília

Amanda Karolyne

11/06/2024 21h40

Piso tátil só entre os blocos, alunas do EMB mostram como é andar pelos pátios da instituição sem poder enxergar direito. Foto: Amanda Karolyne

Falta de piso tátil nos blocos e estrutura de assistência para os alunos com deficiência visual, além de capacitismo, são algumas das reclamações de pessoas com deficiência física que estudam na Escola de Música de Brasília (EMB). A instituição é uma das maiores referências de escolas de música no país, e segundo o diretor Davson de Souza, a Secretaria de Educação, deu autorização para uma ampla reforma que era muito esperada para reforçar o suporte e acessibilidade de pessoas com deficiência que frequentam as aulas. 

Gabriela Vargas, 21 anos, é estudante da EMB, e afirma querer lutar pelos direitos dela e das outras pessoas com deficiência que estudam na instituição. Gabriela destacou a situação da falta dos pisos táteis nas dependências da escola, que para a facilidade na locomoção independente dos alunos com deficiência visual, deveriam ser dispostos ao longo dos corredores e salas. O que torna ainda pior o deslocamento entre os blocos, que mesmo onde tem piso tátil, é perigoso. A descida entre os primeiros blocos para o teatro maior, como exemplifica Gabriela e outros alunos, é íngreme e não têm onde o PCD se apoiar, com risco de sofrer um acidente.

Gabriela Vargas anda pela escola para mostrar a estrutura atual

Além disso, Gabriela aponta que os banheiros femininos e masculinos estão interditados, e o banheiro para pessoas com deficiência fica trancado 24 horas com a chave na secretaria. A aluna cita ainda, as rampas esburacadas, buracos no chão, instrumentos quebrados, escadas vazadas e obstáculos nos corredores. “Você que se vire para sair andando e procurando seus pontos de referência”.  

Uma das situações vividas por Gabriela, foi ser solicitada a sair de uma das aulas, justamente porque o acesso à sala era através da escada vazada. “Eu que tenho que me mudar da aula e abrir mão do meu conhecimento, por ter uma escada me impedindo de subir”, declarou. A estudante abriu duas ouvidorias depois disso, e em seguida a passaram para outra sala, esta que tinha buraco. “Um professor reclamou. Porque eu sou privilegiada e tenho professor que não é capacitista”, acrescentou. Gabriela afirmou ter escutado relatos de que um professor gritava com dois alunos, um deficiente visual e outro autista, usando palavrões ao se dirigir a eles especificamente. “E tem alunos que já ouviram da boca de funcionários da escola, que não gostam de deficientes e que só nos consideram números”. 

Além do capacitismo relatado por colegas, os alunos com deficiência visual ainda se sentem desamparados com a falta de uma profissional para atendê-los na sala de recursos. Segundo Gabriela, atualmente existe uma profissional generalista, que só atende pessoas no espectro autista e deficientes intelectuais. “Será que ela não tem um tempinho, nem no período de provas para passar isso para a gente?”, questiona. A estudante é cega total, e precisa de um guia, já que não tem mobilidade perfeita. Ela precisa de atendimento em prova e de musicografia, mas frisa que a escola não oferece esse tipo de serviço.  “Cobrei o acolhimento inicial que os pcds não têm, e não fui respondida”.

Aluna com deficiência visual, Gabriela Vargas, mostra escada vazada que a impedia de acessar a sala de aula

Ian Harun, 35 anos, estudante da instituição, tinha dificuldades em algumas aulas, mas como não se sentiu assistido pela instituição, começou a faltar às aulas por desânimo. Ele se questiona porque as pessoas com deficiência precisam colocar na matrícula que têm conhecimento em braille, se na escola não tem material ampliado. “Os professores se esforçam para tentar ajudar da melhor forma, mas eles não têm uma formação básica para lidar com pessoas com deficiência”, frisou. 

Ian Harun, Gabriela Vargas e Patrícia Lima, estudantes da EMB 

Patricia lima, 44 anos, estudante da EMB, se considera uma das representantes dos deficientes visuais da escola, pelo tempo que luta por melhorias. Ela relata que certa vez estava em uma aula à espera do professor explicar toda a matéria para a turma, e ao término da aula, decidiu o abordar para contar a situação dela. “Falei que não enxergo o quadro, e pedi para ele explicar o exemplo que estava desenhado lá. Mas ele me disse que a aula era coletiva e não individual”. 

Tanto Patricia, quanto Ian, precisam de material ampliado para o aprendizado. Os dois já procuraram uma gráfica para imprimir o material, uma apostila de cem páginas. “E fica muito caro, eu acho que a instituição devia entregar isso para a gente”, afirma Patrícia. 

Sensibilidade da instituição à inclusão de todos

A Secretaria de Educação (SEDF) informou ao Jornal de Brasília em nota, que iniciou o Estudo Técnico Preliminar (ETP), um projeto que objetiva iniciar o processo de licitação para a contratação de empresa especializada para a reforma geral das instalações do Centro de Educação Profissional Escola de Música de Brasília (EMB). O diretor da instituição, Davson de Souza, conta que o projeto já existe na Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), e que está em articulação desde o ano passado. Em abril, no marco de 60 anos da escola, foi autorizado o projeto, que de acordo com Davson, no segundo semestre já deve começar. 

Ele afirma que a EMB nunca foi insensível sobre a acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência. Davson destaca que é a primeira vez em 50 anos de funcionamento do prédio, que vai ter uma reforma interventiva de atualização predial com esse foco especial. 

A professora generalista responsável pela sala de recursos, Sara Pereira, considera que a EMB é uma resistência na cultura de ensino de música do país. “Não existe uma escola pública de ensino de música voltada à comunidade, além dessa”. Para ela, intervenções e adaptações humanas fazem parte de um processo de psicoeducação de toda a sociedade, mas de forma nenhuma a educadora pretende diminuir a dor dos alunos que se sentem ou se sentiram prejudicados. 

Sara explica que a sala de recursos trabalha à medida com que as lacunas de aprendizado dos alunos com deficiência vão aparecendo. A função do professor nesse espaço, é ajudar o aluno a superar essas lacunas por meio da aprendizagem eficaz criando literalmente recursos para que o estudante não fique no prejuízo. Mas como ela explica, a pessoa com deficiência passa por uma avaliação se é preciso o atendimento, depois que ela apresenta o diagnóstico de PCD. “Por isso o atendimento do deficiente visual é específico, porque parte do preceito de que é um suporte para a deficiência visual, então a gente fala do braille, das impressões aumentativas, dos recursos auditivos e de outras coisas”. Entretanto, Sara se dispôs a atender os alunos com deficiência. 

Atualmente, 8 alunos com deficiência visual estão matriculados na EMB, nos turnos matutino e vespertino. Para a grade de atendimento completa, devem ser no mínimo 10 alunos. A partir disso, como apontou Davson, surge a necessidade e possibilidade de itinerância especializada para os alunos DV. 

De acordo com o diretor, a escola de música é uma das pontas de todo um sistema educacional. Davson acredita que a SEDF é uma rede e deveria funcionar como tal. “Cada um faz uma parte, a EMB é uma escola profissionalizante, independente de qual seja a condição ou anseio da pessoa”. E pela sistemática da secretaria, para Davson, o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais era o lugar que deveria prestar a assistência de material em braille para os alunos deficientes visuais.

A estrutura da instituição

A SEDF também informou que a EMB possui cinco bebedouros em pleno funcionamento e um em manutenção, além de contar com 25 banheiros que passam por manutenção constante. A pasta reforçou que a EMB dispõe de educador social voluntário para atendimento ao estudante com deficiência. 

O órgão também ressalta que a EMB atende, o determinado por lei, que no edital compete aos 20% para pessoas com deficiência. Então todo candidato à vaga pode concorrer, e ao ser contemplado, será atendido na forma da legislação vigente, independentemente de qual seja o curso ou a sua necessidade de adaptação. Ao final, a pasta reitera seu compromisso com a qualidade do ensino e as condições de infraestrutura necessárias para o desenvolvimento pleno dos estudantes da Escola de Música de Brasília.

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