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Brasília

Estudante leva sete pontos no queixo após trote violento

Arquivo Geral

20/10/2010 21h20

O calouro de Engenharia de Redes Carlos Eduardo Leal foi vítima de trote violento na manhã desta quarta-feira, 20 de outubro. Veteranos do 2° semestre fizeram os calouros correrem pelo ICC sul na posição de “elefantinho”, agachados com as mãos por baixo das pernas em fila indiana. Carlos Eduardo caiu e bateu com o queixo no chão. Sangrando, foi levado de ambulância para o hospital. O estudante recebeu sete pontos.

Lucas Brito, do 5° semestre de Ciências Sociais, presenciou o acidente. “Quando os veteranos mandaram os calouros correrem uma aluna gritou, caiu e riram dela”, conta. Depois foi a vez de Carlos Eduardo. “Ele estava no meio da fila quando caiu e chegou a ser pisoteado”, afirma Lucas. Ele comenta que o calouro deixou uma poça de sangue no chão e os veteranos jogaram tinta para encobrir. Após o ocorrido o trote seguiu normalmente.

 

 

Carlos Eduardo lembra apenas que caiu e foi carregado pelos colegas. “Minha vista escureceu. Meus olhos estavam abertos mais não conseguia ver nada”. O estudante foi levado para o Serviço de Atendimento Médico (SAM/DAC) da própria UnB onde foi atendido pela enfermeira Ana Kátia Braga. “Ele apagou e quando chegou tinha acabado de recobrar a consciência. Estava com olhar petrificado”, afirma a enfermeira.

O trote sujo da Engenharia de Redes ocorreu cinco dias depois da realização do trote solidário, que reuniu mais de 150 alunos nas atividades de integração que aconteceram em uma escola pública da Estrutural (leia aqui).

APURAÇÃO – A decana de Assuntos Comunitários, Rachel Nunes, vai pedir a apuração do caso. “Temos um estudante ferido e vamos tomar todas as providências necessárias para responsabilizar os culpados”. Ela ressalta que o mais grave foi a banalização do acidente. “Os veteranos seguiram com o trote. Não se importaram com o estado de saúde do estudante”.

Rachel lembra que o trote está fundamentado na violência e não pode ser permitido em uma instituição responsável por formar cidadãos. “Há dois anos realizamos um trabalho de conscientização dos estudantes. Os casos de trote diminuíram, mas, infelizmente, ainda existem”, lamenta.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) apoia a tomada de sanções contra os responsáveis. “Passou do limite da brincadeira”, diz Vitor Guimarães, coordenador-geral do DCE. “É o que a gente vem denunciando há muito tempo, o que aconteceu foi uma consequência da selvageria que é o trote”, afirma.


CASTIGO
– Para José Carlos Leal, pai do calouro e servidor da Universidade de Brasília, o episódio foi lastimável. “O que deveria ser um prêmio por ter passado no vestibular virou um castigo”. Ele espera que o acidente não desestimule o filho e pretende conversar com a decana de Assuntos Comunitários, Rachel Nunes, sobre o ocorrido. “Se calouros que passaram por isso resolverem reproduzir a violência o trote ‘sujo’ não acabará nunca”, alerta.

Maria Eleusa Leal, mãe do jovem, estava preocupada com o trote desde o primeiro dia de aula. “Não sabia o que podia acontecer. Os estudantes precisam aprender que o trote não precisa ser violento”, aponta. Para ela, a situação é ainda mais preocupante quando envolve o consumo de álcool. “Muitos alunos não são acostumados a beber e podem acontecer acidentes graves”, completa.

Para Lucila Souto Mayor, da Diretoria de Esporte, Arte e Cultura (DEA) é preocupante ver que estudantes do 2° semestre já reproduzem a prática do trote ‘sujo’. “Sempre nessas situações o calouro acha que ele é o culpado, mas há uma violência nessa posição, é humilhante”, comenta Lucila.

VETERANOS – Paulo Baltoré, presidente do CA de Redes, afirma que tentou persuadir os alunos do 2° semestre a mudarem a prática. “Falamos para participarem do trote solidário em vez de fazer o ‘elefantinho’. Mas a escolha é deles, nós não temos controle”. Para ele, os veteranos foram negligentes, mas o ocorrido foi um acidente que poderia ter acontecido em outras situações.  

“Ninguém é obrigado a participar. Mesmo quem decidisse sair no meio da brincadeira podia sair”, comenta Vanessa Lucena, veterana que participou do trote. Segundo ela, a prática é realizada todos os semestres e essa foi a primeira vez que um calouro se feriu. “É tudo uma brincadeira. A gente se diverte e tira foto depois”, completa a estudante.

Devido ao acidente, Carlos Eduardo ficará ausente das aulas de hoje e perderá a revisão para a prova de Introdução à Álgebra Linear. Ele pretende conversar com os veteranos sobre a prática. “Sujar os calouros e obrigar a andar o campus todo eu até aceito. Mas fazer o ‘elefantinho’ é desnecessário”, afirma.

O reitor José Geraldo de Sousa Junior reafirmou a posição institucional de rejeição ao trote humilhante. “Essa prática é rejeitada até pelos estudantes, haja vista a intensa participação no trote solidário”. Ele defendeu a apuração das responsabilidades no caso e lembrou que a universidade prepara uma norma sobre a convivência universitária. “Nós continuamos com o nosso esforço educador. Estamos colocando em audiência pública o projeto de normas de vivência na UnB, com valores de solidariedade e de respeito”.

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