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Brasília

Erro em pesquisa do Ipea gera indignação

Arquivo Geral

05/04/2014 9h00

Uma pesquisa que indignou boa parte da sociedade brasileira. Provocou uma grande manifestação popular, impulsionada pelas redes sociais. Nove dias depois, a descoberta de um erro. O  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou uma nota que altera de 65,1% para 26% o percentual das pessoas que concordam, total ou parcialmente, com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Outros 70% discordam total ou parcialmente e 3,4% se dizem neutros. O diretor da área social do Ipea, Rafael Guerreiro Osório, pediu a sua exoneração assim que o erro foi detectado. A confusão do Ipea virou piada nas redes sociais.

De acordo com o instituto, os demais resultados da pesquisa se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. 

Revoltadas, mulheres do País inteiro decidiram fazer parte da campanha “Eu não mereço ser estuprada”.   Quem começou o protesto foi uma jornalista de Brasília, Nana Queiroz. Nua, ela tirou uma foto na Esplanada dos Ministérios e divulgou nas redes sociais. 

“Depois disso, homens escreveram ameaçando me estuprar se me encontrassem na rua. Mulheres escreveram desejando que eu fosse estuprada”, desabafou. As ameaças começaram horas depois de Nana chamar a atenção da população para a pesquisa. Até a presidente Dilma citou a organizadora do evento   no Twitter. Ao avaliar os novos dados do Ipea, Nana reforça: “Precisamos lutar para que (o índice) seja zero”. 

A correção da pesquisa não foi capaz de conter a indignação de muitas mulheres.  Hoje, na Esplanada, às 14h,  está prevista uma marcha. Segundo uma das organizadoras , Aysla de Oliveira,   26, o ato  será  contra a violência sexual  não só contra mulheres. “Há casos de homens, mulheres, crianças, transsexuais. Nossa causa é contra qualquer forma de estupro”, afirmou a estudante.

Movimento quebra o silêncio

O processo de sobrevivência a um estupro é algo lento e demorado. O ato foi violento. Até hoje não tolero que alguém segure meus pulsos com força. No primeiro momento o sentimento do horror, do nojo do próprio corpo, do ódio, o enjoo, a sujeira, é muito grande. Fiquei um bom tempo me ocultando com roupas largas e escuras: não queria aparecer ou chamar a atenção novamente”.  As cenas que aprisionavam Daiara Figueiroa desde os 15 anos foram narradas assim, em uma rede social. Hoje com 31 anos, a professora consegue falar do abuso sexual que sofreu ainda menina. Uma violência praticada dentro de casa, por um familiar. 

 Reação

Daiara teve que se reinventar. Devastada, ela sobreviveu às marcas invisíveis do trauma. Por longos anos, ficou em silêncio, tentando juntar os pedaços do que havia sobrado daquela menina. “Passei muito tempo querendo ficar isolada”, lembra a professora. O que a fez querer falar do assunto tanto tempo depois é justamente a    pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Momentos difíceis de esquecer

A pesquisa levantou não só a polêmica, mas a poeira que muitas pessoas  escondiam debaixo do tapete. Vítimas e familiares voltaram a falar no assunto, e muitas mulheres relembraram tristes memórias. Para a servidora pública Luara  (nome fictício), 34 anos, a reação nas mídias sociais a fez desenterrar uma dor antiga de um sequestro que sofreu em agosto de 2000. 

“Não estava seminua, não dei mole para ninguém desconhecido, apesar de possuir a mania de ser sorridente e solícita com todos. E foi esta mania que fez com que eu prestasse atenção em um jovem que me pedia uma informação”, lembra a mulher, que saía da UnB, no horário do almoço, quando foi sequestrada. 

Esquecer nunca foi uma alternativa para ela. As cicatrizes   pelo corpo, fruto da violência de dois jovens – menores de idade -, mais de 140 pontos de marcas da agressão, também não conseguem ser apagados. Mas, com ajuda da família e amigos, Luara, aos poucos, voltou a ser a pessoa otimista e alto astral de antes. Hoje ela pode dizer que seguiu em frente. Mas não consegue aceitar o que foi revelado pela pesquisa: “Isso explicita uma realidade velada e dolorida. Escondida  pelas próprias mulheres, que ao se permitirem viver ao lado de homens que as agridem, também permitem este tipo de pensamento, onde as mulheres devem se sentir culpadas por serem mulheres”.

Enquete

E no Distrito Federal, como pensam as pessoas? O site do JBr. fez uma enquete: “Mulheres com roupas curtas e decotadas merecem ser estupradas?”. A resposta, dessa vez, foi “não”.  Mas os índices de estupros revelados pela Secretaria de Segurança estão na contramão da resposta. Entre janeiro e fevereiro deste ano, 111 ocorrências de violência sexual foram registradas, contra 130 no mesmo período do ano passado. Houve queda de 14%. Ainda assim, os números geram uma média de quase dois estupros por dia. 

Para a secretária da Mulher, Olgamir Amancia, a cultura machista permeia todos os espaços: sejam eles públicos ou privados, de forma que a mulher torna-se vulnerável. “Ano passado, a Secretaria de Segurança Pública  divulgou que mais de 80% dos estupros ocorrem dentro da casa da vítima ou do agressor. Ou seja, o não reconhecimento da mulher como um ser social, histórico, e o destaque à dimensão sexual faz com que ela seja subjugada dentro ou fora de casa”, aponta.

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