“Somos pessoas humildes. Faremos tudo que é possível fazer, mas, agora, só um milagre de Deus para nos ajudar”. O desabafo é da dona de casa Sandra Gonçalves, 45 anos. Moradora de Samambaia, ela teme pelo futuro dos vizinhos que vivem há mais de 20 anos no local destinado ao novo aterro sanitário do DF. Esta semana, eles foram notificados pela Agência de Fiscalização (Agefis) de que têm dez dias para deixar a área. A triste notícia repercutiu na cidade, cuja população já sofre com o descaso do governo pela falta de investimentos.

Os moradores da área são, em sua maioria, chacareiros, que sustentam suas famílias com o dinheiro da venda de frutas e legumes, plantados por eles mesmos. “Nasci e me criei aqui. Não tenho para onde ir e sei que não vão nos dar um lugar digno para viver”, diz a dona de casa Maria de Fátima Soares, 24 anos. Ela, o marido e filha, de apenas dois anos, receberam o aviso para deixar a casa em, no máximo, 10 dias.
Famílias
Em outra chácara, há três famílias. São três gerações morando lado a lado, há mais de 30 anos: mãe, filhos e netos. Quem cuida das terras é Vicente Soares Marinho, 59 anos. No espaço, ele plantou bananeiras, cajuzeiros, maracujás e pés de manga. Certo de que o contrato de concessão de uso de terras, firmado em 2002 com a Terracap, nunca perderia a validade, ele afirmou que não sabe fazer outra coisa, “a não ser plantar e cuidar das terras”.
De acordo com o chacareiro, o GDF ofereceu R$ 60 mil pelo terreno. Contudo, um engenheiro avaliou as terras em mais de R$ 850 mil. “Eles falam que vão nos levar para a cidade, mas o que tem lá para ‘nós’?”, questiona o pai de família.
A filha do chacareiro Vicente, Viviane, e a mulher dele, Maria, contaram que os métodos utilizados pelos agentes de fiscalização para “entrar em acordo” com os moradores não são claros. “Eles dizem coisas que a gente não entende. Chegam aqui como quem não quer nada, sem serem claros”, apontam. Na última vez, disseram, servidores da Codhab que foram ao local.

No início de junho, a equipe do JBr esteve em Samambaia, conversou com moradores, e outros que haviam recebido a notificação disseram que o local prometido para moradia seria um albergue. Além disso, a Escola Classe Guariroba, que fica na região, também deve ser demolida. Porém, havia a promessa de que os alunos fossem transferidos para outra, ainda não construída.
Incertezas
Delcio Pereira, líder comunitário das quadras 1000, diz que “o governo não cumpriu nada do que prometeu no local”. Por isso, o descrédito dos moradores em acreditarem que o aterro será realmente “debaixo da terra”. “Nosso medo é acabe virando um lixão, como é na Estrutural. A gente já vive com o cheiro da área de tratamento de água da Caesb, insuportável”.
Além disso, continua, “os moradores sofrem até hoje com epidemias de dengue e hepatite. Não temos um hospital digno. O asfalto já está rachando, as bocas de lobo nunca foram fechadas”, dispara.
Até o fechamento desta edição, o GDF não havia se pronunciado.
ENTENDA O CASO
– Publicado neste ano, o edital que definiu os critérios de construção do aterro sanitário causou rebuliço entre os moradores de Samambaia e, também, catadores da Estrutural. O local foi escolhido há 10 anos e a intenção é desativar o atual Lixão.
– Contudo, tanto a população de Samambaia, que hoje ultrapassa 40 mil habitantes, quanto os catadores do antigo Lixão contestam o compromisso do GDF com eles. Eles reclamam, principalmente, da proximidade da área de despejo de lixo com a cidade.
– Além disso, as cooperativas dizem que milhares de pessoas ficarão desempregadas. Quando a obra estiver pronta, e a promessa é de que isso aconteça ainda este ano, mais de 30 milhões de toneladas de lixo serão depositados no local todos os dias.