Cristina Sena
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O crack existe desde os anos 80, mas tem se espalhado cada vez mais rápido em todo o País. As campanhas governamentais de combate à droga que dá prazer na mesma rapidez em que vicia, no entanto, estão equivocadas. Essa é a opinião da psicóloga, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Josenir Alves Oliveira. Há 25 anos ela atende pessoas com dependência química no Distrito Federal, atuando no Serviço de Estudos e Atenção de Usuários de Álcool e outras Drogas do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Como pesquisadora, ela pertence ao Programa de Estudos e Atenção às Dependências Químicas (Prodequi), da UnB.
Para ela, campanhas educativas, com o objetivo de explicar os efeitos e consequências da droga deveriam ser o foco governamental, em vez de amedrontar usuários e sociedade. É possível, de acordo com a experiência dos pacientes, se livrar do vício, desde que haja força de vontade, empenho e diagnóstico do vazio, do sentido existencial. Investir também em prevenção nas áreas de Saúde e Educação, com ações em Programas de Saúde da Família ou aulas de filosofia que ajudem a lidar com a sociedade moderna também contribuem.
São 25 anos atuando diretamente com dependentes químicos. Há alguma mudança no perfil do dependente nesse período?
Em 1986 nós fizemos uma pesquisa aqui em Brasília com os meninos da Rodoviária. O grande mal, o que assustava as pessoas, era o usuário de cola, de loló. Esse pessoal que usava cola hoje está usando crack. Os meninos que estão mais na rua, mais expostos à vulnerabilidade. A idade do uso é cada vez mais precoce. As drogas iniciais são o álcool e o cigarro. Cada vez mais crianças e mais jovens, mais cedo, estão usando cigarro e álcool.
Com quantos anos?
Antigamente eram 14 anos, hoje são 12, mas já tivemos casos de até dez anos. O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas faz pesquisas de quatro em quatro anos e a cada pesquisa diminui um pouco mais essa idade inicial. O álcool é uma epidemia, mas há uma banalização. Estamos demonizando uma droga ou a tornando uma espécie de bode expiatório. Coloca-se assim: o problema é o crack. Não é o crack, o problema é a relação que a pessoa estabelece com a droga, qualquer que seja ela, e nessa relação, a circunstância também, os fatores de proteção e de risco a que essa pessoa está exposta. Como trabalho com toxicômanos, tenho muito medo da questão da exclusão. Esses viciados em cola estavam excluídos do serviço de Saúde, nunca chegavam. Na verdade deveriam juntar várias secretarias para trabalhar a questão. A droga não é só uma questão de segurança. Quanto mais se proíbe, pior fica.
Há quem use por ser proibido?
O discurso do amedrontamento está equivocado. O que se ouve é ‘crack mata, crack mata’. Todas as drogas matam, qualquer droga mata desde que você a use de uma forma abusiva, inclusive as legalizadas. A degradação do sujeito em relação ao crack e a dependência são maiores.
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