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Durante a pandemia, número de adolescentes e jovens com transtornos mentais cresce no Distrito Federal

Houve um alto crescimento do número de jovens que procuram atendimento especializado e medicações para o tratamento das doenças

Amanda Karolyne e Gabriel de Sousa
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Desde o início da pandemia de covid-19 no Distrito Federal, que recentemente completou 600 dias de duração, onde infecções, óbitos, máscaras, lockdowns e isolamento social se tornaram parte do cotidiano do brasiliense, uma grande preocupação para os profissionais da saúde, quando não se trata da doença viral que assola o sistema respiratório, é o da saúde mental da sua população, que durante mais de um ano e meio, teve que se acostumar em uma situação atípica. Os jovens e adolescentes, sociáveis por natureza, foram os que mais sofreram, de acordo com os psicólogos e psiquiatras, e por isso, começaram a procurar cada vez mais atendimentos especializados nas clínicas do Distrito Federal.

De acordo com o psicólogo Felipe Andrade, o número de pacientes jovens e adolescentes cresceu cerca de 30% desde o início da pandemia de covid-19. O profissional, que atua na Clínica Cepagia, localizada na Asa Norte, afirma que com o surgimento da doença e o consequente isolamento social, a demanda de pacientes com queixas sobre dificuldade de interações sociais e da perda do vínculo com escola e amigos, aumentou gradativamente conforme iam prosseguindo as medidas de isolamento.

Segundo Felipe, um dos principais fatores que motivaram tal crescimento foi a questão familiar, cuja proximidade ocasionada pelo isolamento social, foi relatada como problemática pelos jovens pacientes. “É normal do adolescente sentir isso, é uma fase muito intensa, e quando você está mais exposto a essa convivência, você acaba sentindo muito mesmo”, afirma. O psicólogo lembra que em 2019, ano anterior ao início da pandemia, a queixa principal dos jovens que procuravam atendimento não tinham relação com os efeitos da falta de convívio social. “Eram mais causas familiares, como a separação dos pais, a perda de um ente querido, questões de bullying na escola. Já em 2021, se tornaram questões mais relacionadas ao isolamento”, observa o especialista.

Tirar os jovens da sua rotina foi um dos principais influenciadores do aumento dos casos de transtornos mentais entre jovens e adolescentes no Distrito Federal. É o que afirma a psicóloga Keila Cardoso, que em 2019 atendia dois pacientes com sintomas depressivos e quatro quatro pacientes ansiosos. Neste ano, após mais de 600 dias de isolamento social, Keila atende quatro pessoas com depressão e seis com ansiedade. Destes dez, três possuem os dois sintomas. Algo que não era comum antes do início da pandemia, conforme a especialista.

Durante o período de atendimento deste público, a psicóloga analisou que a maioria dos casos mostrava para ela uma grande contradição: os jovens queixavam-se sobre uma solidão, mesmo estando sempre juntos dos seus familiares. “A maioria dos casos depressivos são de jovens que tiveram que entrar em contato com os jovens de alguma forma e nesse convívio familiar. Muitos se sentiam sozinhos mesmo estando com os próprios pais, isso é muito contraditório”, relata a especialista.

O psicólogo Felipe Andrade orienta os familiares dos jovens que a boa convivência deve ser uma forma de amenizar os efeitos causados pela falta de interação social. “O acolhimento é a palavra-chave, sendo deixando ele falar, deixando ele fluir. O psicólogo não pode receitar nenhum remédio, então o nosso remédio é a fala. Conversar e acolher os adolescentes é o primeiro passo”, afirma.

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Psiquiatras alertam para os cuidados com a saúde mental após o fim da pandemia

Para os que podem receitar remédios, no caso dos psiquiatras, estes afirmam que o número de jovens e adolescentes que começaram a fazer tratamento com medicações para transtornos mentais aumentou durante a pandemia de covid-19. É o que afirma o especialista em psiquiatria em pesquisa clínica, Anibal Okamoto, do Instituto Meraki, localizado na Asa Sul. De acordo com ele, em 2019, 1 em cada 6 crianças e adolescentes precisavam de uma medicação para o cuidado de transtornos psicológicos. Já em 2021, 1 em cada 4 jovens já estão realizando essa forma de tratamento.

O psiquiatra explica que os níveis de ansiedade e de depressão sofridos por esse público correspondem ao tamanho do isolamento social em que se submeteram. Anibal observa que os mais de 600 dias de medidas restritivas, podem ter efeitos diretos na vida dos jovens,  “A pandemia pode ser encarada como um trauma, fazendo com que eles comecem a tomar decisões arriscadas em suas vidas. Pode-se aumentar o uso de álcool e drogas entre esses adolescentes, tanto depois como durante a pandemia”.

Okamoto afirma que as consequências posteriores ao fim da pandemia de covid-19, e o retorno do “antigo normal” da vida dos jovens e adolescentes, é algo que preocupa os especialistas, já que a situação em que o público foi submetido, pode ficar marcado por um longo período de tempo, configurando uma situação pós-traumática. “Mesmo com a volta do cotidiano, a gente já vem se preocupando com as futuras sequelas que o fim da pandemia pode deixar. A ansiedade e a depressão podem se tornar duradouras. Talvez, o número de jovens com esses sintomas não volte ao normal com o fim das medidas de restrição, e sim, que venha a aumentar.”

Pandemia criou um alerta sobre os diagnósticos tardios de transtornos mentais

A pandemia trouxe algumas coisas à tona com a nova rotina criada durante a quarentena e o isolamento social. Muitas pessoas passaram a procurar a terapia em razão disso. O que acarretou na descoberta de diagnósticos tardios de transtornos como autismo. Betânia Sabino, 27, graduada em educação física, é um exemplo de quem sentiu a necessidade de recorrer a terapia quando o período pandêmico começou, e acabou por descobrir que faz parte do espectro autista. Ela mora com os pais e duas irmãs, e a família estava seguindo os protocolos à risca, mas a rotina e a convivência durante esse tempo a fez procurar atendimento psicológico de uma vez por todas.  

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Betânia decidiu procurar a terapia porque estava com crises de ansiedade em consequência do isolamento. Mas ela conta que desconfiava que podia ter o transtorno de autismo e que sempre sentiu que precisava de terapia, mas não conseguia demonstrar isso e não ia atrás. “Iniciar alguma coisa é muito complicado para mim, porque pode gerar imprevistos e também frustrações”, comenta. Para ela, o começo da jornada terapêutica foi um pouco estranho, mas depois passou a apreciar mais o processo. “Agora sei que me ajuda a entender muita coisa que eu não percebi ou simplesmente deixava passar despercebido. Como meu jeito de interagir com as pessoas, e o fato de ficar muito esgotada depois de passar muito tempo conversando com alguém”, cita. 

Ela conta que foi conhecer mais sobre o autismo porque estava trabalhando na faculdade em um projeto com crianças neurotípicas, e ao ler os artigos, percebeu que muita coisa se encaixava com o que ela vivenciava. “Aí acabei pesquisando cada vez mais até encontrar pessoas que foram diagnosticadas tardiamente e lendo os relatos delas me identifiquei e comecei a fazer uma lista das características que eu tinha semelhante”, acrescenta. Em meio a tudo isso, ela estava à procura de uma psicóloga especialista em autismo e começou o processo de investigação do diagnóstico. E depois de diagnosticada, ela conta que a vida dela mudou muito, pois passou a lidar melhor com certas coisas e a reconhecer seus limites. “Agora sei que se ultrapassar, a conta chega”, afirma. 

Desde então ela se consultou com psiquiatra e neurologista para confirmar o diagnóstico, e assim poder informar a família. “Depois de confirmado, me sentei com minha família e contei para eles tudo que estava no meu laudo de 12 páginas”, destaca. Ela explica que a aceitação dos parentes está acontecendo de maneira gradual. Eles não falam tanto sobre o assunto ainda, mas ela cita que esses dias sua mãe a procurou para dizer que conheceu um menino que também estava no espectro autista. A mãe às vezes se culpa por não ter a encaminhado para especialistas quando era criança. 

A psicóloga Andressa Cristinne Santos dos Merces, especialista em autismo e habilidades sociais, comenta que no começo da pandemia, abriu seu atendimento para jovens e adultos, e viu que o diagnóstico tardio é muito comum, está se tornando um fenômeno atualmente. O transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por desenvolvimento atípico, manifestações comportamentais, dificuldade ao se comunicar e interagir socialmente, dificuldade de manter relacionamentos, e padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados. 

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Embora, de acordo com Andressa, esses comportamentos também sejam vistos em quem não tem o transtorno. “Por exemplo, agora enquanto eu falo, também estou mexendo repetitivamente na minha aliança, mas ninguém vai reparar ou estranhar esse comportamento. Quem tem esse distúrbio pode ter o sintoma de hiperfoco, em que apresenta um repertório restrito de interesses e atividades, e também não reage bem a mudanças na rotina. Hoje em dia, a ciência reconhece o transtorno como transtorno do espectro de autismo. Ela diz que alguns sintomas são muito sutis ou mascarados, o que acarreta no surgimento do diagnóstico tardio. 

Ela aponta que existe outro fator que acarreta para que os diagnósticos tardios aconteçam, que é o diagnóstico errado. A pessoa é diagnosticada com ansiedade, depressão, bipolaridade e outras coisas, quando ela na verdade tem autismo. “Em geral, não se aprende quase nada sobre o autismo na faculdade. E os profissionais carregam muitos preconceitos com eles”, frisa. Para ela, a procura por um especialista no assunto é essencial. 

“E a divulgação e consciência sobre o diagnóstico é muito atual”, complementa. Segundo ela, as redes sociais e as mídias ajudaram muito a trazer informação para as pessoas, e ainda no agrupamento da comunidade do espectro autista. “Porque até então, os protagonistas quando esse era o assunto, eram os pais de quem tinha o transtorno, ou os profissionais”, explica. Com as redes, o empoderamento de quem convive com esse transtorno, transformou muitos deles em influencers, produzindo conteúdos sobre o autismo. “Hoje há a desconfiança através do que as pessoas procuram sobre o assunto, e vão buscar as respostas e a confirmação do diagnóstico com um profissional”, afirma. Para ela, também é algo que veio com a pandemia, em que as pessoas começaram a falar mais sobre saúde mental e autocuidado. 

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Para ela, o diagnóstico tardio da a oportunidade para essas pessoas se auto descobrirem. Além disso, ela lembra que essas pessoas têm direitos na escola e no trabalho, como a carga horária reduzida e podem se aposentar mais cedo. No mais, ela destaca a possibilidade de buscar um tratamento para lidar com o transtorno e os sintomas. “O diagnóstico nunca vai ser um problema, este sempre foi a sociedade que coloca estigmas e atrapalha o desenvolvimento de quem tem o autismo”, ressalta. Para ela, as pessoas têm que começar a entender que quem tem o transtorno do espectro do autismo, é capaz de fazer tudo. “São tantos preconceitos, e partem dos profissionais e passam pela família”, enfatiza. Ela conta que uma vez comentou sobre casamento com um paciente, e os pais do mesmo ficaram com raiva dela. 

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