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Brasília

Dependência de álcool: o mal mais recorrente

Arquivo Geral

30/09/2013 7h00

“Beber é algo natural. Até cultural na sociedade brasileira. Mas, no meu caso, nunca mais vou poder fazer isso se quiser viver. E estou fazendo minha escola”. O desabafo é de C.E.S., 56 anos, hoje paciente em uma clínica de reabilitação no Paranoá. Assim como ele, a maioria dos internos no local são alcoolistas. Pessoas que buscaram ajuda para tentar se recuperar de um vício cada vez mais crescente no Brasil. 

 

Nos centros de tratamento oferecidos pelo governo, de acordo com o gerente do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III de Samambaia, Ademário Britto, 51% dos doentes tratam a dependência em álcool. E segundo o Ministério da Saúde, entre 10% e 13% da população do País –   22 milhões de habitantes – sofrem de alcoolismo. O problema, alertam especialistas, é que as políticas públicas   estão voltadas apenas para o combate ao crack.

 

“A busca por ajuda acontece muito mais devido ao uso de álcool do que crack. Esse é, hoje, com certeza, o maior problema que temos”, alerta Ademário. O gerente revela   que 85% dos alcoolistas são homens, sendo que 66% deles têm entre 30 e 50 anos. 

 

“Comecei aos 17. E, hoje, aos 48, percebo que perdi tudo por causa da bebida: família, filhos, bens materiais”, conta R.L.S., também internado em uma clínica de reabilitação. Há 13 dias no local, ele diz que pretende ficar apenas um mês,  para “colocar as ideias no lugar”. 

 

Mais de um vício


O uso de múltiplas drogas, que, explica Ademário, é quando o indivíduo é dependente de mais de um entorpecente, fica em segundo lugar o ranking. Já o crack, em terceiro.  “A realidade do País vem mudando muito nos últimos anos, no que diz respeito à saúde mental. Por isso, de fato, a busca por uma solução ainda está sendo construída. Neste contexto, acredito que o álcool é, sim, a principal questão de saúde”, observa.

 

Ele alerta  para outro dado alarmante: o consumo de bebidas alcoólicas mata tanto quanto o crack.  Ontem, reportagem do JBr mostrou que a Justiça local determinou ao GDF a construção de 25 residências terapêuticas e 19 Caps, para a atender a demanda, que só cresce.

 

Crise após experiências ruins


Como a doença é progressiva, é difícil dizer quando a diversão começa a se tornar um vício. Porém, existem fatores que favorecem o alcoolismo, como o ambiente familiar, a rotina exaustiva de trabalho, depressão e baixa autoestima. “Na verdade, o último fator é, quase sempre, o maior motivador do consumo de álcool. Por isso, a maioria das pessoas que buscam ajuda nos Caps, por exemplo, tiveram experiências mal-sucedidas no trabalho, na família e viram na bebida uma saída para o que chamam de ‘fracasso’”, alerta a doutora em Política Social Lúcia Lopes.

 

Independente dos motivos, entretanto, é importante que os alcoolistas tenham, principalmente, o apoio da família. “Vim pra cá por conta própria, mas tenho minha esposa ao meu lado. Ela me ajuda, torce por mim. E eu quase a perdi por isso”, conta C.E.S., que entre as razões de ter se tornado um dependente do álcool, cita, inclusive, a rotina de trabalho, aliada à cultura familiar. “Sou de origem alemã.  Desde muito pequeno bebo vinho e cerveja”. 

 

Ele está há 30 dias e saiu apenas uma vez durante o período. “Aí, fui ao supermercado e vi aquelas cervejas suadas. É difícil controlar. É um esforço tremendo, mas tenho que fazer”, ressalta. 

 

Um colega de clínica   fala sobre a expectativa de se recuperar: “Há 13 anos, desde que me separei, venho bebendo mais. E as recaídas são cada vez mais fortes. Por isso, eu vou parar. Eu tenho uma casa linda, e ela está toda suja. Perdi minha carteira de habilitação, me aposentaram compulsoriamente.  O álcool tirou tudo de mim. Dessa vez eu paro”, desabafa.

 

Serviço:


O grupo Alcoólicos Anônimos (AA) oferece tratamento gratuito para quem quer largar o álcool. Por meio de reunião e dos chamados “12 passos”, é possível que a doença seja controlada.

 

Os telefones do AA no DF são: 3226-0091, da unidade do Plano Piloto, e 3351-9644, de Taguatinga.

 

Dentre as causas de mortalidade associadas à exposição ao álcool destacam-se os acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, quedas e afogamentos, informa o Ministério da Saúde. O DF é a unidade da Federação com o maior percentual de vítimas de agressão relacionadas ao vício. Enquanto a média nacional é de 49%, na capital, 58% dos casos de violência atendidos nos hospitais de Base e de Ceilândia estavam relacionados ao álcool, em 2011.

 

 “Você começa bebendo socialmente, com classe, e quando vê, perdeu toda essa classe”, conta um dos integrantes do Alcoólicos Anônimos (AA) do DF, José, 69 anos. São   três mil pessoas no grupo.

 

 O tratamento é diário e precisa de acompanhamento. “O nosso método consiste em reuniões com 12 passos a serem seguidos. Para nós, não existe caso perdido”, assegura.

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