Roberta Andrade conseguiu fazer da tragédia força para se doar aos outros. Tudo começou após a morte de sua mãe, depois de quatro anos de luta contra um câncer de mama. Desde então, Roberta se dedica a levantar a autoestima de meninas e mulheres em tratamento no Hospital de Base.
Quando a mãe de Roberta perdeu os cabelos devido à quimioterapia, ela, que já trabalhava no ramo de cabeleireiro, gastou R$ 800 em duas perucas. “Quando ela faleceu, fui levar as perucas e alguns lenços para doar no Hospital de Base. Quando cheguei lá, eram oito mulheres suplicando pelas perucas. Nesse momento, decidi que tinha de fazer algo. A gente joga cabelo fora todos os dias no salão”, conta.
Ajuda
Roberta, então, saiu em busca de parceiros para colocar em prática seu projeto e encontrou uma senhora especializada em perucas que aceitou o desafio de confeccioná-las. Seriam necessários 150 gramas de cabelo com, no mínimo, 10 cm de comprimento. “Ela ganha somente R$ 50 com a confecção de cada peruca, e o trabalho é demorado e caro. Mas temos que pagar também pela tela antibactericida, que fica R$ 200. Ainda bem que tenho clientes iluminadas que às vezes ajudam”, valoriza.
A campanha começou com os clientes do salão. Ela fazia promoções para quem cortasse mais de 10 cm do cabelo, postava nas redes sociais pedidos de doação e até vendia produtos por preços mais baixos, tudo para ajudar a bancar a confecção das perucas. “Quando comecei, no ano passado, fiz uma promessa com Deus: se eu conseguisse doar pelo menos 20 perucas, eu iria raspar o meu cabelo e afinar a minha sobrancelha. Superei as minhas expectativas e doei 25 perucas. Surtei quando raspei, em dezembro, mas estou muito feliz. Não quero parar nunca esse projeto”.
O que estimula o trabalho voluntário contínuo de Roberta é o resultado da recuperação da autoestima dessas mulheres. “Tenho um depoimento de um médico que me deu vontade de continuar. Ele falou: ‘Eu estou o ano inteiro falando que o remédio está dando efeito e elas saem de lá abatidas. Em cinco minutos que você coloca a peruca nelas, é possível ver os efeitos desse sorriso nos exames’”.
No mesmo dia em que as perucas são entregues, toda a equipe do salão vai para o hospital participar de um dia de beleza com as mulheres da oncologia. As pacientes ganham sobrancelhas de hena, maquiagem, manicure com esmalte anti alérgico e ainda recebem pintura e corte na peruca.
Perfil
Roberta Andrade
Idade: 34 anos
Profissão: Maquiadora e designer de sobrancelha
Próxima entrega
A entrega das perucas sempre é feita no mês do câncer, em março, e em outubro, dedicado ao combate do câncer de mama. O próximo evento será no dia 21, às 9h. Roberta já tem 26 perucas prontas.
Doação de cabelo
Pra quem tem interesse em doar o cabelo, o salão de Roberta fica na 410 Sul, Bloco B, loja 20. Caso a pessoa tenha costume de cortar o cabelo em outro salão, basta pedir ao cabeleireiro que corte pelo menos 10 cm e guarde. Assim, basta levar o pedaço para doação, no salão de Roberta. A próxima entrega de perucas será feita na Rede Feminina do Hospital de Base, no dia 21 de outubro.
Atenção especial para quem precisa
A empresária Roberta Andrade faz questão de reforçar para os clientes que esse projeto é continuo e que sempre precisam de mais cabelo. “Ano passado ficaram seis mulheres com cara de choro sem receber, foi horrível”, lembra. Inclusive para impedir que isso aconteça, Roberta tem um novo projeto em mente: uma campanha para que as mulheres cortem o cabelo assim que souberem do diagnóstico e assim, façam sua própria peruca. “O cabelo vai cair, não adianta. É melhor aproveitá-lo, então”.
Além das perucas, Roberta está com um projeto de ajudar, também, na reconstrução mamária de mulheres mastectomizadas. “Eu me junto com outras cinco amigas tatuadoras e tatuamos um mamilo para as pacientes enquanto elas esperam o processo de reconstrução, que pode durar anos”, cita.
Preocupação com o outro
Além da paixão que cultivou por pacientes de câncer de mama após a morte da mãe, Roberta sempre se preocupou com pessoas com necessidades especiais e que tenham menos conforto financeiro. “É impressionante, a gente vai achando que vai ajudar o próximo e quem ganha ajuda somos nós. A pessoa que recebe fica em êxtase, mas quem doa, é inexplicável o sentimento”, confessa.
Roberta diz ter orgulho de seu salão ser espaço para atender qualquer pessoa. Antes ela trabalhava em um local de três andares que tinha somente escada. Ela decidiu mudar de local e adaptou tudo: “Compramos lavatório adaptado para cadeiras de roda, temos até um cantinho do salão todo adaptado. Já tive dois funcionários com necessidades especias”.