Menu
Brasília

Crack, problema que vai além da segurança

Arquivo Geral

22/09/2013 9h40

Um problema de saúde pública que afeta o bem-estar da população. Pelo menos quatro quadras de Ceilândia são pontos de uso de crack. Nelas, homens, mulheres e crianças fumam a pedra sem constrangimento a qualquer hora do dia.  A maioria dos usuários é morador de rua. Muitos, inclusive, vivem nesses locais, escondidos em barracos de papelão. O consumo chegou a tal ponto que a própria polícia comunitária da 15ª DP reconhece: o desafio de acabar com as cracolândias da cidade mais populosa do Distrito Federal transcende a ação dos órgãos de segurança.

 

Um levantamento feito pela equipe de segurança comunitária da unidade concluiu que o maior problema no enfrentamento ao crack em Ceilândia é a falta de ação dos serviços sociais, de acolhimento, e de saúde, para tratamento dos dependentes, coordenados pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest).

 

“Eles (usuários) não têm estrutura para sair das ruas porque são doentes, estão viciados. Isso é uma questão que está muito além do nosso alcance”, explica o chefe da seção de polícia comunitária da 15ª DP, Wagner Ayala Macedo.

 

Negligência

 

Ao todo, foram abordados 56 moradores de rua das chamadas “cracolândias” de Ceilândia. Ao serem questionados, ressalta Ayala, “todos disseram que não foram, nos últimos dois anos, abordados por nenhum serviço de saúde ou assistência social”. A conclusão da equipe, aponta, “é de que os órgãos responsáveis por essas ações estão sendo negligentes com essas pessoas. Inclusive a administração local, que permite a construção de barracos nessas áreas”.

 

Os entrevistados têm entre 18 e 29 anos. Entre eles, a polícia prendeu cinco pessoas procuradas pela Justiça. Durante a operação, 100% dos abordados declararam ser dependentes. Eles gastam, em média, R$ 60 e R$ 100 por dia em crack. Onde conseguem o dinheiro, contudo, não foi respondido com precisão por nenhum dos usuários. “Muitos dizem que vigiam carros, mas, sabemos que devido ao vício eles cometem roubos e assaltos na região”, alerta Ayala. 

 

Moradores

 

Os usuários de crack geram problemas para a comunidade. “As pessoas acabam se sentindo intimidadas com as atitudes deles”, conta o chefe da seção. 

 

Usuário diz que Cras não tem estrutura

 

Nos locais indicados no mapeamento da 15ª, a reportagem do Jornal de Brasília flagrou dependentes fumando a droga em todos os cantos. A maioria deles consome em grupo, mas um estava sozinho: um homem de 36 anos, que confirma a triste e preocupante realidade dos usuários de crack da região.  Ele estava na QNM 12, entre restos de roupas, lixo, fezes e duas almofadas. Nelas, ele se sentou para consumir as duas pedras que havia comprado. Tranquilo, conversou com a equipe e revelou: “Sou viciado. Se eu ganhar R$ 20 no dia, acabou. Paro de fazer tudo e fico só por conta da pedra”.

 

O homem é pai de dois filhos, de seis e oito anos, e contou que é casado. O sustento da família vem do lixo que cata e revende, “quando sobra da pedra”, salientou. A mulher, que é alcoólatra, tenta recuperar o marido. “Ela me enche o saco, briga, mas não adianta. Não consigo sair disso”, disse. O catador afirmou ainda que buscou ajuda no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) da região. Contudo, não teve sucesso, porque, segundo ele, “falta estrutura para lidar com o vício em crack. Eles não estão preparados pra isso lá”, observa.

 

Fuma há quatro anos

 

Calmo, mesmo depois de fumar a pedra, o catador continua: “Fumo há quatro anos. Conheci por meio de amigos meus. Eles fumavam e me apresentaram. Eu gostei. Fumo todo dia, umas cinco, seis vezes. A sensação é a mesma de fumar cigarro. Eu fico bem. Me sinto bem na hora”. Com um carrinho de supermercado cheio de coisas usadas, ele disse ainda que a família mora perto da boca fumo, próximo ao Corpo de Bombeiros, em uma área de barracos. “Não fumo perto dos meus filhos. Eles não sabem. Só a mulher que sabe”, salientou.

 

Sem constrangimento, o homem mostrou a quantidade de crack que havia comprado. Uma pequena pedra cristalizada. “Cada uma custa R$ 10”, afirmou.

 

Moradores lamentam situação

 

A presença dos usuários de crack incomoda moradores, principalmente, das quadras mais próximas das chamadas cracolândias. Eles imploram ao governo: “Façam alguma coisa”. Uma moradora, que prefere não relevar seu nome com medo de represália, critica: “A polícia até vem aqui. Joga spray de pimenta para tirá-los, mas nada dá jeito. Tenho três netos que assistem, diariamente, o povo se drogando, tendo relação sexual no meio da rua, andando nu. É difícil viver assim, com essa insegurança, essa falta de sossego”, relata. A dona de casa, de 57 anos, mora na QNN 05, ao lado da 3, onde se concentra a maioria dos viciados e traficantes, próximo ao Metrô. 

 

Perto do metrô

 

“Antes do metrô passar aqui não tinha isso. Não entendo por que isso aconteceu. Eles vivem como bichos mesmo. Se escondem até nas bocas de lobo. De vez em quando, a gente vê uns três, quatro saindo de lá de dentro”, conta a senhora, que mora desde os anos 70 no local. “Nem dá para vender a casa, né? Ninguém quer morar aqui”, afirma. 

 

Piorou

 

Um pouco mais acima da casa da senhora, próximo à Igreja Ebenezer, a dona de um comércio reclama: “A coisa está feia por aqui, cada vez pior. O movimento caiu e muito nos últimos tempos”, conta, fazendo referência aos últimos três anos. “Não era tanto assim. Mas tem até ponto de venda aqui do lado”, acrescenta, olhando desconfiada para os usuários através da janela do comércio. 

 

Mapa da cracolândia

 

O tráfico acontece livremente nas QNN 01, 03, 04 e CNN 01 de Ceilândia.

 

No ano passado, moradores da região tiveram a conquista de conseguir que um prédio abandonado, intitulado Castelo de Grayskull, fosse derrubado. O local era considerado a maior cracolândia do Distrito Federal.

 

 

A reportagem completa está disponível na edição digital. Acesse www.jornaldebrasilia.com.br/edicaodigital

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado