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Brasília

Consulta com um dentista? Só em 2017

Arquivo Geral

06/09/2013 9h00

Imagine esperar quatro anos para um atendimento odontológico na rede pública. A demora pode causar prejuízos irreparáveis aos pacientes,  que muitas vezes necessitam, inicialmente, de um procedimento aparentemente simples, como uma obturação.  Especialistas alertam: a demora no atendimento pode resultar na perda do dente comprometido, entre outras complicações.

 

O cenário faz parte da condição da rede, em especial na região de Ceilândia.  No Centro de Saúde 11, do Setor O, dentistas ainda fazem atendimento de pacientes que agendaram consulta em 2009. E quem procura o serviço atualmente só deverá ser atendido em 2017. 

 

A situação mostra que o caos nas unidades hospitalares   não se restringe às   especialidades médicas. O serviço de odontologia também fica comprometido e quem precisa de atendimento não vê saída para o problema. Como alternativa, há pacientes que precisam optar por uma clínica particular. Quem não tem condição  espera a consulta receoso de ser surpreendido por  sérias complicações bucais. 

 

O Jornal de Brasília foi até o Centro de Saúde 11 do Setor O   e constatou a situação. Sem saber que estava falando com a reportagem, uma dentista da unidade afirmou que o atendimento atual ainda se destina à lista de pacientes de 2009. A servidora explicou:  para   marcar   consulta, é necessário preencher o formulário e aguardar retorno da equipe, que pode demorar anos. Ela ressaltou que há prioridades de pacientes, como   pessoas idosas e com quadros clínicos mais graves.

 

HRC

 

Quem não faz parte dos dois perfis está sujeito a uma longa espera. Situação semelhante acontece no próprio Hospital Regional de Ceilândia (HRC). Também sem saber que falava com a reportagem, a atendente do HRC explicou que a equipe de dentistas atende a lista repassada pelos centros de  saúde. Segundo ela, há pacientes na fila há dois anos. 

 

As consultas no HRC estavam sendo feitas por meio de mutirão. Depois disso, os atendimentos   ficariam apenas nos postos de saúde.

 

Já no Hospital Regional de Sobradinho, a demora é um pouco menor, mas mesmo assim pacientes precisam aguardar pelo menos seis meses. Por lá, a equipe   tenta atender a lista de fevereiro, para procedimentos de canal e limpeza. Isso porque, segundo a funcionária, há apenas um dentista de cada especialidade. A retirada de sisos – dentes  terceiros molares –, pelo menos, pode ser mais rápida, já que há quatro especialistas na área.

 
Ponto de Vista

 
Para o professor de administração pública da  Universidade de Brasília (UnB) José Matias-Pereira,   o que se observa no governo de Agnelo Queiroz é uma gestão preocupante, pois o chefe de Estado se propôs, durante sua campanha eleitoral, a ocupar  o cargo de secretário de Saúde. “Agnelo disse que viria para mudar a realidade da saúde pública, que já era desfavorável de maneira geral. Hoje, por motivos de gestão e compressões de políticas públicas, o governo ficou comprometido em diversas áreas, e onde se observa uma deficiência maior é na saúde”, aponta Matias-Pereira.
 
 
 Ele é, também, especialista em finanças públicas e argumenta que o governador criou expectativas de que a área de saúde mudaria para melhor. Segundo Matias-Pereira, os fatos atuais constatam que a área   continuou em plano secundário, como em gestões passadas. “A atual gestão adotou um modelo ultrapassado, onde as indicações para cargos de serviço público são por critérios políticos  e não por competência. Além disso, há constantes rodízios  de cargos. O problema não é a falta de recurso, mas a falha de coordenação e uma má gestão”, dispara.
 
 
Técnicos 
 
 
Nesta semana, o governo anunciou que os 144 técnicos de enfermagem, que atualmente trabalham nos serviços de odontologia da rede pública de saúde, serão realocados e substituídos por técnicos de saúde bucal até 2017.
 
 
Desde 1981, quando a Secretaria de Saúde passou a oferecer serviços de odontologia, os cirurgiões-dentistas eram auxiliados por profissionais da enfermagem que fizeram cursos de capacitação, mesmo com a regulamentação da profissão de técnico em higiene dental, em 2008.
 
 
Para regularizar essa situação, a secretaria se comprometeu a convocar os 89 técnicos de saúde bucal aprovados no concurso de 2011 que ainda não foram nomeados, e a promover uma nova seleção para o cargo.
 
 
 
Imediato, só se for emergência


O morador de Ceilândia, Daniel Alves, 36 anos, foi ao Centro de Saúde 11 do Setor O para agendar uma consulta odontológica para procedimento de obturação e canal, mas foi informado que ainda estão atendendo pacientes de 2009. “Vim depois de ligar para o 160, onde me informaram sobre o atendimento odontológico”, conta. E lamenta: “O atual governo é uma verdadeira propaganda enganosa.”
 
 
Com a previsão de atendimento tão longa, Daniel Alves decidiu não esperar mais. Fez orçamento em uma clínica particular e vai desembolsar quase R$ 1,5 mil pelo atendimento. “Não quero ficar na fila para ser atendido daqui a quatro anos.  Nesse tempo, a situação vai se agravar tanto que ao invés do tratamento vou ter que comprar uma dentadura. A sorte é que, por enquanto, tenho condições de pagar. E quem não tem? Arrisca perder o dente?”, questiona.
 
 
Segundo o GDF, em matéria publicada na agência de notícias do governo, quem precisa de atendimento odontológico de emergência tem “assistência imediata em cinco hospitais e nas quatro UPAs”. 
 
 
Atendimento
 
 
Segundo o GDF, os locais de atendimento são o pronto socorro do Hospital de Base, especializado na atenção ao trauma bucomaxilofacial, e os hospitais regionais da Asa Norte, Taguatinga, Ceilândia e Gama.
 
 
 
Rapidez é determinante


O presidente do Conselho Regional de Odontologia (CRO), Samir Najjar, explica que uma restauração de cárie que depende de quatro anos para solução resulta na necessidade de tratamento de canal, ou até na perda do dente. “Tudo gera uma gravidade da situação. A cárie é uma doença que vai evoluindo para destruição da coroa, do dente, vira canal e o paciente pode perder o dente”, alerta.
 
 
Segundo o especialista, nos casos em que a situação já se configura em canal dentário, as chances são de 90% de o paciente perder o dente logo em sequência, caso não haja atendimento. “A evolução da doença só aumenta. Uma cárie primária pode aguardar um período, desde que se faça um pré-curativo para durar até o período do procedimento. Já o canal precisa ser tratado de imediato, pois as consequências são muito graves”, afirma.
 
 
Najjar aponta que a situação na rede pública poderia ser melhor caso fossem feitas mais contratações de dentistas. “Com mais especialistas, se aumentaria a rede de atendimento e o problema de longa demora poderia ser solucionado”, acredita.
 
 
“Não procede”
 
 
Embora uma dentista do próprio Centro de Saúde 11 de Ceilândia tenha dito ao Jornal de Brasília – sem saber que estava falando com a reportagem –  que no local a equipe ainda atendia a lista de consultas marcadas em 2009, a Secretaria de Comunicação do GDF informa que o prazo de espera não procede. De acordo com a pasta, o local disponibiliza vagas de agenda aberta para pronto atendimento nos períodos da manhã e tarde. O período de espera, segundo o órgão, é de 15 dias.
 
 
A reportagem enviou à   Secretaria de Comunicação cinco questionamentos em relação à matéria, mas quase todas as perguntas não foram respondidas.

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