
Apesar de todo o trabalho do governo em criar shoppings populares, o comércio irregular retornou às ruas do Distrito Federal com toda a força. Voltou a ser comum ver pequenas feiras formadas por ambulantes, principalmente nas áreas centrais do Plano Piloto, Guará, Taguatinga, Ceilândia e Gama.
Nesses lugares, a fiscalização parece ter afrouxado suas ações. A movimentação dos fiscais já é velha conhecida dos camelôs que, atentos à hora, recolhem as mercadorias antes que os agentes da Agefis cheguem ao local.
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Para donos de comércio próximos aos camelôs, a fiscalização não tem mais cumprido seu papel. “Eles chegam aqui, mandam o povo sair e pronto. Nada acontece. Amanhã, as mesmas figuras vão estar espalhadas na calçada”, contou Francisco de Assis, 62, proprietário de uma banca na Rodoviária do Plano Piloto. Há 42 anos no ramo do comércio, ele disse ainda que “de uns anos para cá, aumentou a ineficiência para combater os ambulantes”.

Francisco reclamou ainda da concorrência desleal, já que os camelôs vendem os mesmos produtos que ele, porém mais baratos. “Pago aqui quase R$ 800 de taxas, mas tem dias que não vendo nada”, ressaltou. O comerciante afirmou, no entanto, que entende a situação dos ambulantes e torce para que o governo dê uma solução efetiva para o problema. “Construíram aquele Shopping Popular onde não passa ninguém, sem clientes. O que adianta?”, questionou.
Para o presidente da Associação Comercial do DF (ACDF), Cleber Pires, falta incentivo do governo para que os ambulantes regularizem sua situação. “Precisamos de uma política pública para tirar essas pessoas da irregularidade. Não acredito em solução a curto prazo, mas se não houver reforma tributária e mudança nas alíquotas, nada vai acontecer”, disse.
Gato e rato
Sobre a ação da fiscalização para coibir os ambulantes, o presidente Cleber Pires taxou de “convívio entre gato e rato”. De ambos os lados, apontou, todos se acostumaram com a situação de ir e vir. “Uma movimentação que não rende resultados concretos”, avaliou. Atualmente, o DF tem mais de 100 mil comerciantes irregulares.

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Para o especialista em Administração Pública da UnB José Matias-Pereira, as tentativas do governo de solucionar o problema dos ambulantes são um fracasso. “Nosso exemplo maior é o Shopping Popular. Um local afastado, sem clientes e que gerou uma insatisfação”, avaliou. O docente apontou ainda que faltam políticas de qualificação e inserção no mercado de trabalho para pessoas de baixa renda, o que gera aumento no número de vendedores irregulares nas ruas.
O professor destacou ainda as medidas paliativas, que fingem tentar solucionar o problema, como é o caso da fiscalização. “É uma encenação para mostrar aos comerciantes regularizados que algo está sendo feito. Contudo, toda essa situação acaba se tornando uma violência, porque o cidadão, o cliente, entende que o ambulante é um pai de família e precisa daquilo”.
Ainda de acordo com Matias-Pereira, é preciso que o governo crie oportunidades para os ambulantes, buscando soluções concretas, em espaços frequentados e não afastados dos clientes. “Levar esses comerciantes para um shopping popular sem circulação é o mesmo que dizer ‘olha, você não vai mais ter a mesma renda, se vira’”, analisou.
Onde está a fiscalização?

No centro de Ceilândia, os ambulantes se instalaram no centro comercial da cidade, próximos às lojas de eletrodomésticos e roupas. A reportagem do JBr foi até o local, mas não conseguiu conversar com os camelôs – que, agressivos, ameaçaram a equipe. Porém, segundo funcionários das lojas locais, a ação dos vendedores informais é diária, começando logo pela manhã.
“Eles só vão embora no fim da tarde. A fiscalização vem e vai embora por volta das 14h. Logo depois, eles voltam, na maior cara de pau”, contou L.F., 30 anos, gerente de uma loja de eletrônicos.
Ivanildo, 37, gerente de uma loja popular de roupas, revelou que compreende a situação dos camelôs. O problema, apontou, é realmente a brutal diferença dos preços, que acaba tirando a clientela dos comércios regulares. “Ninguém vai expulsá-los dali. O governo tinha que agir”, disse.
Feira dos Goianos
Em Taguatinga, a área de atuação dos ambulantes é próxima à Feira dos Goianos. Um dos ambulantes, J.G., 21, disse à reportagem que há tempos a fiscalização não recolhe os produtos e que, por isso, o local acabou virando referência para o comércio ilegal. “Aqui, somos unidos, nos protegemos. Quando o ‘rapa’ chega, a gente logo grita. Eles não fazem nada, só pedem para nos retirarmos”, completou.
Toque de recolher com hora marcada

No Setor Comercial Sul, área central de Brasília, os ambulantes tomam conta do espaço em frente ao Shopping Pátio Brasil, e se estendem ao longo da descida até o Setor de Autarquias. Entre os produtos, perfumes, joias, celulares, relógios, roupas íntimas e marmitas.
“Os fiscais quase nunca pegam pesado. Como sabemos o horário deles, recolhemos a mercadoria antes de eles chegarem”, revelou W.Y., 32 anos. Ele contou ainda que não fica sempre no mesmo local. Procura mudar, de semana em semana, os locais de venda, para burlar a fiscalização.
Pai de família
Na Rodoviária, em uma ação de fiscalização, um dos ambulantes retirados do local gritou para a reportagem: “Sou pai de família. Não estou irregular porque quero. O governo não faz nada por nós”.
Questionado sobre a fraca atuação da fiscalização, o GDF apenas respondeu que “as ações de combate ao comércio irregular ocorrem em conjunto entre a Seops, a Agefis e a Polícia Militar, numa média de quatro dias por semana em todo o DF”.
Ainda sobre os detalhes dessa atuação, como horários fixos e a ausência de medidos mais rigorosas, como recolher os produtos, o GDF não se pronunciou até o fechamento desta edição.
