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Brasília

Com quase um caso por dia, alta de rachas acende alerta no DF

Dados do Detran apontam aumento de quase 30% nos primeiros meses de 2026 em relação a 2025

Guilherme Abarno

11/06/2026 21h32

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Divulgação / Detran-DF

As vias públicas do Distrito Federal viraram pistas de corridas clandestinas. De janeiro a maio, os flagrantes de rachas na capital saltaram de 114, em 2025, para 147, em 2026. A alta de 28,95% representa uma média de quase uma infração por dia nos primeiros cinco meses do ano, segundo dados do Detran-DF. O cenário acende o alerta para o perigo nas pistas.

Embora o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) não utilize o termo popular “racha”, a conduta é enquadrada nos artigos 173 e 174, que tratam de “disputar corrida” e “promover competição”. Entre janeiro e maio de 2026, as ações conjuntas do Detran, do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF) e da Polícia Militar (PMDF) resultaram na autuação específica de 10 infratores por disputa direta de corrida.

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Reprodução



O que diz a lei

No mesmo período do ano passado, o Detran havia contabilizado oito autuações dessa natureza, de um total de 18 registros ao longo de todo o ano de 2025. Os motoristas flagrados nessa situação (artigo 173) recebem autuação gravíssima. A punição prevê suspensão do direito de dirigir, recolhimento da habilitação, remoção do veículo ao depósito e multa multiplicada por 10, cujo valor dobra em caso de reincidência em 12 meses.

As mesmas penalidades e critérios financeiros aplicam-se a quem promove ou participa de eventos organizados, exibições e manobras perigosas sem autorização (artigo 174), com sanções válidas tanto para os condutores quanto para os organizadores. Ao somar todas as infrações ligadas a corridas clandestinas, o DF registrou 114 autuações entre janeiro e maio de 2025 (com 313 em todo aquele ano), contra as 147 computadas nos cinco primeiros meses de 2026.

Além do processo administrativo, o racha configura crime pelo artigo 308 do CTB, com penas criminais calculadas pelo impacto do ato: detenção de seis meses a três anos para disputas sem feridos; reclusão de três a seis anos em episódios com lesão corporal grave; e detenção de cinco a 10 anos se a conduta culminar em morte.

Sensação de impunidade

Por permitir fiança e resposta em liberdade, a lei atual falha em seu papel pedagógico, avalia Leonardo Sant’Anna, especialista em segurança pública e privada e professor do Instituto Superior de Ciências Policiais (ISCP).

“Quando há a percepção de falta de aplicação da lei pelo Estado, cria-se um reforço ambiental onde o infrator nota que a legislação é fragilizada e que não haverá consequências reais”, explica Sant’Anna. Segundo ele, a impunidade retroalimenta o comportamento do grupo. “Na mente desse agressor social, compensa fazer o racha para mostrar que seu carro é mais potente ou que ele é mais hábil, porque a punição é leve.”

leonardo sant’anna
Arquivo Pessoal



O endurecimento da lei com o envio de motoristas para o regime fechado e o confisco de bens divide os analistas. Para o professor, a discussão sobre o formato da punição ainda é precoce, e o Estado deve focar em penalidades que ataquem diretamente o comportamento do criminoso.

“A definição de prisão em regime fechado ou de qualquer outro mecanismo drástico ainda é precoce. Há a necessidade real de uma reavaliação sobre o tipo de pena ideal. Talvez o regime fechado nem sequer incomode esse perfil de infrator. Por isso, a análise deve incluir aspectos financeiros e processos mais efetivos de reeducação. O estudo por trás da mudança legal precisa identificar o que mais desestabiliza quem hoje acredita que o racha é compensador. A punição mais severa é necessária, mas uma avaliação profunda ditará o melhor formato para cessar o comportamento delitivo”, diz Leonardo Sant’Anna.

Além das brechas legais, o alcance das redes sociais é o maior impulsionador do crime no DF. A exibição no Instagram e no TikTok converteu o racha em espetáculo digital. Para Sant’Anna, as forças de segurança não conseguem resolver o problema sozinhas. O especialista propõe uma atualização na lei para que a conduta de divulgar os vídeos ou aceitar desafios na internet funcione como agravante direto na pena dos motoristas.

O cenário de desrespeito à velocidade não é exclusivo do DF e já mobiliza o Congresso Nacional. Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 7235/25, de autoria do deputado Amom Mandel (Cidadania-AM), que cria o Programa Nacional de Prevenção e Combate às Corridas Ilegais, com o objetivo de reduzir acidentes e mortes provocados por manobras perigosas em todo o país.

Resposta oficial


Em nota, o Detran-DF informou que a Diretoria de Policiamento e Fiscalização de Trânsito (DIRPOL) realiza, de forma rotineira, ações de patrulhamento e fiscalização em todo o Distrito Federal para coibir infrações. Paralelamente, a Diretoria de Educação promove campanhas educativas voltadas à conscientização dos condutores sobre práticas seguras no trânsito, incluindo orientações quanto ao respeito aos limites de velocidade.

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