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Brasília

Cobrador mantém pequenas bibliotecas, e busca apoio para expandir projeto

Arquivo Geral

27/07/2012 7h03

Vinicius Borba
vinicius.borba@jornaldebrasilia.com.br

No vaivém dos ônibus no terminal da Asa Norte, mais uma viagem da linha 156.1 sai em direção ao Guará. No percurso, lotado de trabalhadores e estudantes que voltam de seus compromissos ao fim de mais um dia, uma prateleira instalada logo abaixo de um  televisor chama atenção pelos livros expostos. É o projeto Cultura no Ônibus, idealizado e mantido pelo cobrador Antônio da Conceição Ferreira, mais conhecido como Antônio do Livro. Há cerca de cinco anos levando livros de graça, para deleite dos usuários do transporte público nas linhas que trabalha, Antônio busca novos parceiros das empresas de ônibus para tentar expandir o projeto de incentivo à leitura.

 

 

Desde a partida, pessoas passam curiosas pela prateleira bem articulada, feita de materiais recicláveis. Para a doméstica Nilza Caldeira, de 49 anos, a presença dos livros à disposição é muito importante para a educação dos mais novos. “A mim, faltou demais estas oportunidades.  Eu não ia ter tempo de buscar biblioteca, nem sei onde tem perto de casa”, explicou.

 

 

E foi pensando no filho que Antônio decidiu criar alguma oportunidade para  que as crianças  pudessem ter este exemplo. “Foi quando li Capitães de Areia, do Jorge Amado. Senti uma dor enorme por aqueles meninos tão sofridos que não tiveram acesso a nada. Percebi que precisava dar uma outra chance a meu filho, e foi o que fiz. Comecei a captar doações de livros e foi no ônibus mesmo que criei a primeira biblioteca”, lembra da atitude que tomou em 2007. Ele chegou a cogitar ter um espaço próprio para os meninos e meninas lerem, mas pela falta de recursos concretizou o plano no ônibus mesmo, e deu certo.

 

INCENTIVO

 

Para o estudante Rodrigo Cavalcanti, de 17 anos, o Cultura no Ônibus foi uma surpresa. “É um enorme incentivo à leitura. Eu mesmo não leio habitualmente, e tenho dificuldade de ir a bibliotecas para pesquisar”, disse.

 

 

Hoje, o pai do projeto comemora os avanços. Ele iniciou o processo com prateleiras móveis feitas de plástico e fita adesiva. “Só que o material não resistiu muito tempo. Tive de ficar remendando, pois há passageiros que rasgam e mesmo pelo uso o suporte acabava estragando. Agora estamos fazendo este novo projeto, mais forte”, destaca. Trata-se de prateleiras feitas   com peças de plástico flexível, como restos de tanquinho de lavar roupas e outras que resistem e podem ser presas por rebites. Ele mesmo produz e  faz os reparos.

 

 São apenas dois ônibus que contam com a proposta, o da linha 156.1, Asa Norte/ Guará, e o ônibus 82, Núcleo Bandeirante/ SAAN. Antônio já tentou expandir  a proposta, mas não teve apoio. “Cheguei a pedir ao dono da empresa  para que me ajudasse a colocar em outros ônibus. Pedi pelo menos cinco, mas ele permitiu apenas dois. Não tem problema, fazemos no que dá. Mas o sonho podia ir além, né?!”.

 

Apesar das dificuldades, hoje o projeto conta com uma sede em Sobradinho II, perto da casa de Antônio, sustentada em parte pela ajuda de custo de alguns voluntários, e outra pelo próprio cobrador.

 

 

O cobrador tenta financiamento para a ação se multiplicar. Está inscrito e em fase de análise pelo Ministério da Cultura pela Lei Rouanet, que garante incentivo fiscal a empresas que financiem o projeto. Enquanto isso, o cobrador, sem segundo grau completo, de pais analfabetos, segue comemorando os bons resultados do filho na escola.

 

 

 

Neste mês, o projeto Parada Cultural, promovido pelo Açougue T-Bone, completa cinco anos. Por meio da ação, os usuários dos ônibus podem pegar livros emprestados nas paradas. Hoje, já são 36 pontos e cerca de mil exemplares  são emprestados diariamente.

 

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