Leandro Cipriano
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Apesar de os homens representarem atualmente 2/3 dos casos de alcoolismo no País, as mulheres também têm ocupado seu espaço neste cenário. O crescimento do abuso do álcool pelo público feminino é cada vez mais evidente. No Distrito Federal, a última pesquisa do Ministério da Saúde apontou que 9,8% das mulheres maiores de 18 anos consomem bebidas alcoólicas em excesso, superando o registrado no início da pesquisa, em 2006, quando chegavam a 8,7%.
Os dados foram obtidos pelo levantamento da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). No DF, o levantamento apontou que 21,3% dos homens maiores de 18 anos consumiram álcool em excesso no ano passado. Da população total, 15,2% dos adultos usaram bebidas alcoólicas de forma exagerada. Já no País, o aumento de mulheres consumindo em excesso chegou a picos de 10,6%. Em 2011, registrou 9,1%, enquanto os homens representaram 26,2%.
Mesmo considerada uma doença tipicamente masculina, as mudanças trazidas nos últimos anos pela revolução dos direitos civis garantiu um espaço maior à atuação feminina na sociedade. Segundo o psicólogo Luiz Felipe Castelo Branco da Silva, com as conquistas sociais, foi permitido a elas experimentar oportunidades antes consideradas restritas aos homens, como o consumo excessivo do álcool.
“Tendo acesso a mais recursos, tanto financeiros como simbólicos, até a própria questão do beber e se permitir experimentar funcionaram como uma auto-afirmação. Mas isso também pode resultar em situações desagradáveis, principalmente quando se tem um quadro de dependência química ou abuso”, apontou o psicólogo, que também é gerente do Centro de Atenção Psico-Social em Álcool e outras Drogas (Caps-AD) de Sobradinho II.
Independentemente dos avanços conquistados, o preconceito contra as mulheres alcoólatras continua uma realidade comum. “As pessoas ainda veem o alcoolismo como uma fraqueza moral. Para as mulheres, pesa mais porque isso significa que não conseguem cumprir seus papéis de mãe e esposa, o que dificulta mais a buscar ajuda”, diz Aline (nome fictício), ex-dependente e há 25 anos sem consumir álcool.
A assistente social Larissa Alves da Fonseca, autora da monografia O estigma sobre as mulheres alcoolistas em tratamento, entrevistou várias alcoólatras durante sua pesquisa, e constatou como o preconceito contra as mulheres nesta situação é maior do que nos homens. “Mesmo que o fato que leva ao alcoolismo seja semelhante, com as mulheres há um peso social maior. A alcoolização tem julgamento de valores. A sociedade impõe que a mulher adote papéis bem mais moralistas”, analisa.
Isso se reflete na busca por tratamento. Segundo o psicólogo Luiz Felipe, mesmo com a presença constante de pacientes femininas no Caps, o número não corresponde a quantidade real de mulheres alcoólatras. “Apesar de pesquisas confirmarem o aumento, percebemos que isso não vem se traduzindo na busca por tratamentos. Seja por não conhecerem os locais que o fazem, ou por não aceitarem ainda a bebida como algo a ser tratado”, afirma.