A criação de centros de atendimento e reabilitação de usuários de crack e outras drogas psicotrópicas é o ponto principal na luta contra as drogas no Distrito Federal. Essa é a opinião da especialista Heloísa Maira Viana de Carvalho que vê na ausência desses locais um dos motivos pelo qual o jovem não consegue sair das ruas. Ela trabalha há 28 anos com adolescentes e crianças marginalizadas no Distrito Federal. Foram dez anos no desenvolvimento de trabalhos assistenciais no Centro de Atendimento Juvenil Especializado do Distrito Federal (CAJE) e cinco anos frente a direção do local. É formada em Letras, mas especializou-se em serviço social.
Este mês voltou de uma viagem a Israel onde pode observar a aplicação de medidas eficazes no combate ao uso de drogas na cidade de Dimona. A oportunidade surgiu após participar de uma seleção do Instituto Machave e a Organização dos Estados Americanos (OEA), Hoje a especialista dá continuidade ao seu trabalho com jovens no Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago) onde pretende aplicar algumas das novas estratégias aprendidas.
Qual é a relação entre o jovem infrator e o uso de drogas?
Pelo menos 90% dos jovens internados no Caje, hoje, estão envolvidos com drogas. Quando o adolescente se envolve com a marginalidade um dos principais fatores é a droga. Não podemos dizer que é o único, mas uma das portas abertas é a droga. Temos uma epidemia em Brasília e no Brasil. O crack está assolando a sociedade. As autoridades, os profissionais se sentem impotentes porque precisam de uma retaguarda que não existe. As crianças que fumam crack o dia inteiro nas ruas precisam ser retiradas dali, mas levados para onde? Não adianta a polícia ou o conselho tutelar tentar retirar aquele jovem dali, se não sabe onde levá-lo.
Seria uma falta de centros de tratamento para reabilitação de usuários em Brasília?
A falta de local é com certeza um dos fatores que produz uma barreira muito grande. O usuário precisa de um espaço para a desintoxicação. Onde isso pode ser feito? Na rodoviária? Na rua? Nos becos? Precisamos de um local adequado. É essencial a criação de uma rede de apoio entre as entidades civis que já atuam e o poder público, para que esse atendimento seja direcionado e realizado de forma conjunta. O governo não consegue atender todos. Ele precisa da sociedade organizada. O que aconteceu no Complexo do Alemão? Uma situação que veio se arrastando há muito tempo e, com o envolvimento de toda a comunidade, conseguiu ser modificada. É a mesma coisa. A cidade precisa ser revisitada em todas as suas instituições. A saúde de Brasília está debilitada e a droga está cada dia mais forte.
Como você vê os projetos que buscam a formação de novos profissionais para o tratamento de usuários de drogas?
Acredito que a capacitação precisa ser constante. Brasília sempre ofereceu cursos rápidos para envolver os profissionais, mas ainda são propostas acanhadas, devia ser uma abrangência maior. É preciso estimular não só o voluntário que quer ajudar, mas um voluntário mais especializado. Em outubro, dei uma palestra para alunos universitários da área de saúde. O que me chamou muita atenção foi a baixa participação dos alunos de medicina que deveria ser um curso mais envolvido. Eles vão tratar da miséria em todos os sentidos e, ainda assim, tem pouco interesse em conhecer. Não sei o que será que passa na cabeça desses nossos estudantes. Será que pensam que só vão lidar com a elite, com pessoas que podem pagar uma consulta? Eles estarão nos hospitais, nas clínicas.
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