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Brasília

Cenário preocupante que choca pacientes

Arquivo Geral

04/07/2013 10h00

Uma das maiores cidades do DF, Taguatinga absorve a demanda por serviços públicos de outras regiões da capital, ainda mais carentes. No caso da saúde não é diferente. Mas quem procurar o Hospital Regional de Taguatinga (HRT) pode se impressionar com o que encontrar pela frente: a superlotação, consequência do deficit de médicos.  Mais de um ano após essa e outras constatações feitas por entidades  como o Ministério Público e o Conselho Regional de Medicina, o quadro é semelhante. A reportagem de hoje  faz parte de uma série do Jornal de Brasília sobre os maiores hospitais do DF e o atendimento oferecido.

 

Autoridades visitaram o HRT em 26 de abril de 2012, quando havia 111 pacientes internados no pronto-socorro, enquanto a capacidade é de 57. A inspeção encontrou pessoas recebendo tratamento em cadeiras, macas do Samu e do Corpo de Bombeiros, à espera de camas. Os leitos pediátricos foram diminuídos de 12 para apenas três, por conta da grande demanda de pacientes adultos. 

 

O deficit de médicos era de 2.432 horas mensais de expediente, ou seja, 29 médicos com carga horária de 20 horas semanais. Clínica médica e cardiologia eram as especialidades com maior falta de profissionais. Aparelhos como monitores multiparâmetros, ventiladores mecânicos e oxímetros estavam em quantidade inferior à necessária.

 

A visita foi feita ainda por integrantes dos  conselhos de Odontologia (CRO-DF),  de Farmácia (CRF-DF),   de Enfermagem (Coren-DF),  e de Engenharia e Arquitetura (Crea-DF), Sindicato dos Médicos   (Sindimédico) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF).

 

A ambulante Janete Pereira Pinto, 76 anos, está acompanhando a neta Rosilane, que sofreu um derrame, no HRT. Segundo ela, há muitos pacientes no pronto-socorro e foi necessário um “show”, como ela mesma disse, para que Rosilane fosse  tratada melhor. “Ela está aqui há quatro dias e só recebeu alguns comprimidos de AAS. Agora que eu falei um monte eles a colocaram   em uma cama, fizeram u raio X e tiraram sangue”, contou. 

 

As experiências enfrentadas por outras pessoas também chocaram Janete. “Um senhor de 93 anos   passou a noite toda em uma cadeira de rodas lá no pronto-socorro. Está cheio de gente dormindo no chão”,   indigna-se.

 

Rapidez só em casos gravíssimos

 

Na avaliação dos pacientes, só quem chega em situação gravíssima é atendido com rapidez, como em casos de acidentes.  O estado emergencial do carpinteiro Antônio Marcos de Jesus, 42 anos, fez com que o atendimento fosse rápido, segundo ele. Após a queda de moto. ele  quebrou os braços. Antônio  ficou cerca de duas horas no hospital. “Tinha bastante gente”, disse.

 

A diarista Maria Aparecida Araújo precisou procurar o HRT porque o posto de saúde fechou mais cedo, na semana passada, por conta do jogo da Seleção Brasileira.  “Fui lá às 11h30 e me disseram que não tinha mais como entrar. Vou ter que gastar R$ 90 com esses remédios”, disse. Os medicamentos são para o filho, de três anos, que está há três meses com a garganta inflamada. Com a presença da reportagem no local, o remédio foi providenciado.

 

Após duas horas de espera, a diarista Paula Ferreira da Silva ainda precisava que   17 pessoas fossem atendidas para chegar a sua vez. Ela aguardava do lado de fora do hospital em um cadeira de rodas, já que o pé foi torcido e estava inchado. 
 
 
“Eles não são doidos de virar para mim e dizer que não vai ter atendimento. Daqui a umas duas horas vou lá pra reclamar.  Já estive aqui outras vezes e fiquei das 18h até as 4h para ser atendida”, contou. “Eu raramente venho, porque sei que vai demorar, mas principalmente, porque não gosto de hospital, mesmo”, afirmou.
 
 
Lotado

 
Há 17 dias, a mãe de Donizete Mota está internada no Hospital Regional de Taguatinga e, de acordo com ele, o pronto-socorro está lotado. “A impressão que dá é que tem 300 pessoas lá dentro”, relatou. A boa vontade dos profissionais ficou clara, mas eles ficam impotentes diante da falta de material e estrutura para trabalhar. “Cadeiras que eram para ser de acompanhante viram cadeira para pacientes. Muita gente nos corredores. Está tudo muito difícil”, disse.
 
 
Como resolver o problema 
 
O promotor de Justiça Jairo Bisol, da Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (Prosus) do Ministério Público, condena a implementação de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) como tentativa de desafogar as emergências. A medida é apontada pelo governo como a solução para o problema.  
 
 
“Vão tirar médicos de outras unidades para colocar lá. Se estruturassem o sistema e implementassem uma melhor cobertura no programa Saúde da Família, não seria necessário construir mais UPAs”, disparou Jairo Bisol, destacando que o investimento na atenção primária à saúde é fundamental.
 
 
“O quadro está pela metade. Com esse ritmo de contratações, o governo não consegue repor mais do que aposentadorias e pedidos de demissão”, completou.
 
 
Para o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-DF), Iran Cardoso, a principal causa dos hospitais lotados, a exemplo do Hospital Regional de Taguatinga, é a carência de melhor administração e de profissionais. 
“Eu classifico como falta de gestão. Se tivesse gestão, teríamos resolvido o problema. Fizemos a vistoria um ano atrás e o governo não deu resposta. A solução para desafogar os pronto socorros lotados é contratar profissional, porque existe um deficit de 50% e enquanto não for sanado, isso vai acontecer”.
 
 
 

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