Os casos de Aids vêm avançando no Distrito Federal. No primeiro semestre deste ano, foram notificados 232 portadores da doença. São mais de 400 novas confirmações do vírus HIV anualmente, principalmente entre a população em condição de vulnerabilidade social. Os números são da Secretaria de Saúde, divulgados no Boletim Epidemiológico de 2012, ano no qual foram identificadas 79 mortes em decorrência do retrovírus – uma média de seis por mês.
Enquanto isso, na contramão dos avanços nos tratamentos da epidemia, as ações e os programas voltados a usuários de drogas e pessoas de baixa renda, maioria entre os soropositivos, ainda são poucos. Além disso, os efeitos adversos da terapia antirretroviral também são uma das principais causas dos óbitos, uma vez que muitos medicamentos não são distribuídos gratuitamente.
Ao todo, hoje o DF tem 4,6 mil casos de portadores do vírus registrados no SUS. Para ONGs, porém, o número pode ser multiplicado por nove. O que resulta em mais de 40 mil pessoas infectadas. “Existe uma diferença para o SUS entre doentes de HIV e portadores. O que é errado, claro”, avalia o presidente da ONG Amigos da Vida, Christiano Ramos. Soropositivo, ele denuncia que a capital, considerada um dia referência no tratamento ao retrovírus, hoje deixa a desejar. “De uns anos para cá, a saúde pública do DF tem sido dilapidada, completamente dilacerada”, destaca.
Localizada na 508 Sul, a Unidade Mista, hospital onde a ONG Amigos da Vida nasceu, hoje está sucateada, garante Christiano. “É lá que essas pessoas buscam o coquetel para tratamento, lá também ficam internados quando precisam. Mas a atual situação do lugar está impedindo que o trabalho seja feito como um dia foi. Uma vergonha”, lamenta.
Outro problema para o acompanhamento dos soropositivos é o deficit de infectologistas. Ao todo, são mil médicos especializados. Porém, a demanda é maior a cada dia, o que impede o diagnóstico rápido. “E tempo, no caso da Aids, é determinante”, ressalta o presidente da organização.
Infectados
Além disso, há outras constatações preocupantes. Segundo Christiano, nos últimos dez anos a infecção teria voltado a crescer entre jovens homossexuais, adolescentes mulheres na faixa dos 17 aos 19 anos e em usuários de drogas injetáveis. “O DF vive uma situação caótica. A epidemia está caminhando, gradativamente, para uma pandemia”, constata.
Há ainda outro dado alarmante: os crescentes casos em que o homem casado leva o vírus para dentro de casa, passando a doença para suas mulheres. No ano passado, foram registrados 133 casos da doença em heterossexuais.
“O que ocorre é que esses homens, por medo da reação da mulher, preferem expor a saúde das mulheres a usar preservativo. Na ONG, 60%, dos mais de dois mil assistidos, são casais heterossexuais que passaram por isso. Normalmente, têm casamentos de mais de 20 anos e o homem trai a esposa. São pessoas entre 45 e 50 anos”, explica Christiano. “A mulher confia e o homem tem outras. Assim acontece a transmissão”, completa o representante da ONG.
Versão Oficial
De acordo com a Secretaria de Saúde, apesar de estar abaixo do mesmo período de 2012, o número de infectados pode ser maior, já que a pasta ainda recebe informações de casos.
Atualmente, cerca de 6,7 mil pessoas recebem medicamentos para tratamento de Aids no DF. Estas pessoas (além dos portadores de HIV tratados que não estão utilizando medicamentos) são atendidas nos nove serviços de referência, localizados em diversas regionais de saúde do DF. A secretaria diz que vem ampliando a contratação de novos profissionais e tem buscado manter as gestões para que o tratamento das pessoas com HIV/Aids continuem a ter o atendimento que sempre tiveram nos serviços públicos do DF.
Complicações decorrentes do vírus
A lista extensa de doenças provocadas pela Aids inclui a tuberculose, a Hepatite C, câncer e a histoplasmose disseminada, cuja ampola para tratamento chega a custar quase R$ 1,6 mil, de acordo com o presidente da ONG Amigos da Vida. “Agora, me diz, uma pessoa pobre tem condições de pagar isso? Não. O resultado, claro, é a morte”, denuncia Christiano Ramos.
A histoplasmose, uma das primeiras manifestações do HIV, é uma a infecção primária e independente de qual seja a sintomatologia, pode se disseminar por todo o organismo, em especial, para órgãos ricos em macrófagos, que são células de grandes dimensões do tecido conjuntivo.
Na Fale, existem pacientes que tiveram doenças decorrentes da epidemia. Um deles é Wilson Roberto Rodrigues, de 48 anos. Há dez anos ele descobriu ser soropositivo, toma o coquetel todos os dias. “Peguei uma pneumonia, que virou tuberculosa e eles não conseguiam tratar. Foi aí que a gente descobriu”, conta, visivelmente abalado. Há um ano, ele foi diagnosticado com câncer, um linfoma no rim direito, em estado avançado. “Sinto dores absurdas por todo o corpo. Aí, tenho que tomar morfina”, relata.
Sem emprego, sua única expectativa para o futuro é de se curar e conseguir algum trabalho. “Aqui, ganhamos moradia, alimentação. O governo não dá nada”, frisa.
O preconceito de todos os dias
As dez primeiras localidades do DF em incidência de Aids, de 2007 a 2011, foram Estrutural, Taguatinga, Cruzeiro, Lago Sul, São Sebastião, Paranoá, Asa Norte, Núcleo Bandeirante, Asa Sul e Sudoeste/Octogonal. Porém, o controle ainda é pouco. Segundo acolhidos da Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale), do Recanto das Emas, poucas são as vezes em que representantes do GDF vão até o local.
“A última vez faz mais de um ano. Eles vêm aqui, fazem um questionário e nunca mais. Não temos apoio nenhum. Vivemos da ajuda de voluntários”, atesta Carlos Augusto Medeiros, 60 anos.
Ali, as pessoas vivem excluídas. Inclusive do convívio dos moradores do Recanto. “Eles não vêm aqui e a gente não vai lá. É assim que funciona. Para eles, somos ‘viadinhos’, drogados, perdidos que não merecem ter uma vida normal”, relata, com tristeza, Carlos. Carioca, ele veio à capital sem grandes objetivos. Morou na Rodoviária do Plano Piloto, onde usou todo tipo de droga, até que resolveu procurar ajuda. “Já faz 15 anos que estou aqui. E sou feliz, né? A gente se ajuda, tenta viver bem”.
Mais perto da solução?
O ex-aluno de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) Edecio Cunha Neto lidera a equipe de pesquisadores que desenvolvem a vacina HIVBr18, que pode impedir a transmissão do vírus HIV. A novidade desperta expectativas para a cura da doença que, até 2012, registrou mais de 656 mil casos somente no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde.
A vacina começará a ser testada em macacos em outubro deste ano. Os experimentos serão feitos com diferentes combinações de fragmentos do HIV inseridos no material genético de vírus que causam doenças uma única vez no ser humano.
Sem apoio
Assim como ele, outros internos – são mais de 150 em 39 casas – garantem que falta apoio do governo. “Falta amor nos profissionais da saúde. A gente vê isso, passa por isso. Aí, você para e pensa que aceita viver do jeito que vive, mas no fundo não aceita. Somos cheios de limitações, psicológicas, físicas e morais”, lamenta o gaúcho Ricardo Areze, 46 anos, que também chegou ao local sem saber o que ia esperar. Porém, hoje casado, considera-se uma pessoa feliz. “Vivemos em Águas Lindas, eu e ela, que também é soropositivo”.
Sobre as perspectivas de vida, porém, ele relata que está cada dia mais difícil conseguir emprego. “Se você diz que tem Aids, os caras já te olham diferente. Por isso, não saio por aí dando atestado para ninguém, sabe? Se me perguntarem, tudo bem. A única coisa da qual não abro mão, entre o pouco que a gente tem, é do passe-livre, para ir ao hospital e tomar meus remédios”, salienta. Sobre o tratamento, ele destaca a dificuldade de conseguir internação. “Se você não tiver uma ‘peixada’, fica meses na fila. E a Aids tem como consequência enfermidades que levam a gente a ficar internado”, diz.
Pense Nisso
Nenhum dos entrevistados durante a reportagem conta com o apoio de suas famílias. O motivo? Preconceito. Apesar de antiga, a doença ainda não foi aceita pela sociedade. É o que dizem os infectados. É nas instituições que os recebem que eles encontram apoio, fazem amizades e até constroem um lar. “O preconceito existe sim. Na verdade, esse é o principal entrave ao enfrentamento da doença”, diz um soropositivo, que faz a deixa para uma a reflexão.