Não convenceu. As mais de quatro horas de audiência pública na Câmara Legislativa não foram suficientes para que o diretor do DFTrans, Marco Antônio Campanella, esclarecesse as denúncias de irregularidades no órgão. Convocado pela Comissão de Fiscalização da Câmara Legislativa, ele não conseguiu explicar pontualmente as acusações, que vão desde influência política excessiva dentro da autarquia até fraudes no sistema de bilhetagem eletrônica.
Em determinado momento, inclusive, uma de suas respostas revoltou os servidores, que levantaram cartazes dizendo: “Mentira”.
Como o Jornal de Brasíliamostrou com exclusividade nos últimos meses, Campanella é suspeito de apoiar militância político-partidária por parte de servidores do DFTrans dentro da sede. Atual presidente local do PPL, ele teria feito do órgão seu escritório político. De acordo com o funcionário Dehordam Nascimento Alves, que fazia parte da equipe institucional do órgão, o espaço estaria sendo usado para filiar interessados em ingressar na sigla.
Sua leitura
Sobre o assunto, antes mesmo de ser questionado, o diretor do DFTrans leu o esclarecimento, chamando de “participação modesta” a ocupação do seu partido no quadro de servidores. “Temos no órgão 88 cargos comissionados, apenas 13 de filiados do PPL. Mais 48 sem vínculo, 30 ocupados por servidores de carreira e, entre os cinco diretores, apenas dois são do PPL”, argumentou. Campanella iniciou a audiência ainda tentando ilustrar a situação caótica da autarquia quando assumiu à frente dela. “Houve um verdadeiro sucateamento deliberado do órgão”, ressaltou.
Após o pronunciamento inicial, o presidente da Comissão, Joe Valle (PDT) passou a palavra à relatora, deputada Eliana Pedrosa (PPS), que tentou esclarecer, entre outras questões, o por que de o DFTrans não ter prestado diversas informações à Secretaria de Estado de Transparência e Controle, responsável por inspecionar e acompanhar as ações e atos do dos órgãos do Poder Executivo. “Na parte conclusiva dos trabalhos são apontadas como não atendidas as solicitações de auditoria nº 02, 03, 05, 09, 10, 11, 13 e 18, todas de 2011, recomendando a instauração de Processo de Sindicância para apurar responsabilidades. Essa sindicância foi instalada pelo senhor?”, questionou a parlamentar. A resposta foi “sim”.
Funcionários contestam
Em meio a vaias e uma sessão lotada, com mais de 200 pessoas presentes, Campanella respondeu a mais de 40 perguntas de Eliana Pedrosa, entre elas também a suspeita de fraude na utilização do vale transporte eletrônico. Para o diretor, se houve, de fato, irregularidades no sistema de bilhetagem, os responsáveis são os auditores fiscais, que teriam falhado em seus trabalhos. Neste momento, os cartazes com a palavra “mentira” tomaram conta da sala das Comissões.
Muitos questionamentos se repetiram entre os deputados, incluindo Wellington Luiz (PMDB), Arlete Sampaio (PT) e Celina Leão (PDT). Mesmo assim, não se esclareceu, por exemplo, a denúncia de que o órgão, com aval de Campanella, cobrava de empresas concessionárias passagens de ônibus e bilhetes aéreos em nome de pessoas ligadas ao PPL.
Ameaça de processo
O filho de Dalmo Amaral, o ex-senador Valmir Amaral (PP), que administra as empresas do grupo, reafirmou que o pai pagava passagens a pedido de Campanella. A informação foi respondida com irritação por Campanella.“Valmir Amaral é um mentiroso, vamos processá-lo na Justiça”.
“Vamos investigar a acusação. A chefia de gabinete sempre centralizou os pedidos que vêm de sindicatos, igrejas e entidades. Faz isso e envia para as empresas, mas nunca para as concessionárias”, sustentou o diretor do DFTrans, resposta que ele deu também quando o tema das passagens era colocado em pauta.