Francisco Dutra
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O vazio da geladeira ficou para trás. Pelo menos por algum tempo, alimentos estarão facilmente à disposição da família da auxiliar de serviços Karla Maria Pereira França Cardozo, 35 anos. No último domingo, o Jornal de Brasília mostrou o drama da família de Ceilândia. Mãe solteira e com um baixo salário, ela precisa garantir o sustento de cinco filhos e uma neta. Ao final de cada mês, a trabalhadora não tem condições de manter a dispensa cheia para as refeições. Mas após ler a reportagem, um leitor decidiu ajudar a família.
O homem ligou para a redação pedindo o contato da família. Nas primeiras conversas por telefone, ele pediu sigilo, mas deixou a reportagem acompanhar a entrega de duas cestas básicas de alimentos. “Isso aqui é particular. Não é institucional. É do coração”, explicou. Ao receber os alimentos, Karla não economizou em sorrisos. A dona de casa havia preparado a última mistura de arroz com feijão para a família e começava a viver o drama da falta de comida na mesa. Logo depois de entregar os alimentos, o leitor comentou que pretende ajudar um pouco mais a família.
Karla se surpreendeu diante da solidariedade. “Eu não esperava. No começo, para mim, era apenas uma reportagem para mostrar a nossa dificuldade, de quem vive com baixa renda”, contou, enquanto o filho caçula, Davi Cardozo, 3 anos, comia um alimento das cestas básicas. A mãe solteira agradeceu o apoio sem ressalvas. “(Quem pratica a solidariedade) São pessoas que têm Deus no coração, na vida. Não olham só para si. Olham para os outros”, afirmou.
Para a auxiliar de serviços gerais, contar com feijão e arroz é fundamental na criação dos filhos. Segundo Karla, carne e frango podem não estar presentes todos os dias, mas o prato de arroz com feijão tem que ser diário. Para ela, a mistura é rica em nutrientes e garante energia para o dia de estudos dos pequenos. Na primeira passada de olhos sobre os alimentos, a dona de casa calcula que eles serão suficientes para um mês de refeições.
O apoio solidário não foi a única boa notícia na família de Karla. A filha mais velha, de 15 anos, teve uma filha. A gravidez levou a menina a interromper os estudos. “Nessa semana, consegui matriculá-la em uma escola noturna. Agora, ela volta a estudar”, sorriu a dona de casa. Mesmo vivendo as dificuldades da baixa renda todos os dias, Karla Maria defende a ideia de que estudo, trabalho e fé podem levar a um caminho melhor. E ela contou com uma mão solidária para superar os desafios.
O DF apresenta atualmente 72 pontos de vulnerabilidade social. O estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta não apenas os locais de maior pobreza, mas os pontos onde a vida da população é mais sofrida, em função de problemas sociais, familiares ou individuais. Por exemplo, uma família pode ter uma boa renda, mas convive com falta de saneamento e segurança, a exemplo de Vicente Pires. Moradora de Ceilândia, Karla sobrevive em uma destas regiões, assim como milhares de outros cidadãos/contribuintes/eleitores.