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Brasília

Brasília, a terra dos lares endividados

Arquivo Geral

10/06/2013 6h59

Você sabe economizar seu dinheiro? Para mais de 640 mil famílias do Distrito Federal (86,5%), a tarefa é quase impossível. Todas possuíam, em maio, alguma dívida entre cheque pré-datado, cartões de crédito, carnês e empréstimos. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Federação de Bens, Serviços e Turismo do DF (Fecomércio).

 

A arte de poupar, porém, é cultivada por algumas pessoas. Preocupadas com o futuro, tentam ter um dinheirinho reserva. Para isso, apostam até nos antigos cofres.  É o caso da cuidadora Fátima Lopes, 47 anos. Na casa dos patrões, ela preserva uma mania há tempos esquecida: um cofre. E não é qualquer moeda, não. Ela só aceita as de R$ 1 e R$ 0,50. “Há dois anos comecei a juntar. No fim do ano passado, somei R$ 870 no cofrinho”, festeja. Com a poupança, viajou para Natal, onde nasceu.

 

Este ano, Fátima tem R$ 400 guardados.  Ela junta para o casamento da filha, em setembro de 2014. “Vai ser uma festa para 200 pessoas e quero ajudá-la”, diz. Para ela, juntar dinheiro na poupança é mais difícil de lembrar, por isso a opção pelo cofrinho.

 

Homens

 

E para quem acredita que os homens poupam mais que as mulheres, Adones da Silva, 24 anos, prova o contrário. O militar confessa que antes de receber o salário já o gastou mentalmente. “Não sei economizar. Gasto muito. Compro tudo o que vejo”, desabafa.

 

Para Adones, outro problema na hora de poupar é o custo de vida da cidade. “Em Brasília tudo é muito caro. Outras cidades são mais baratas”, argumenta. Morador de Santa Maria, o militar gastador estava, enquanto falava com a reportagem, com um telefone celular novo nas mãos, recém-comprado. “Eis a prova de que eu gasto mais do que ganho”, brincou.

 

Segundo o Ibope, apesar de 52% dos brasileiros se considerarem bons administradores de sua própria renda, 36% revelam que não sabem nada sobre investimentos e finanças. Entre a população há 25% de pessoas que afirmam ter uma tendência a gastar dinheiro sem pensar. Enquanto isso o percentual dos que leem as páginas sobre finanças nos jornais é de 19%.

 

 

Controle na ponta do lápis

 

A auxiliar do setor de frios Jocinéia de Gois, 33 anos, mostra que conhece muito sobre finanças e, inclusive, investimento. Ela sustenta a filha e a casa com pouco mais de um salário-mínimo. Mesmo assim, consegue fazer sobrar alguns trocados no final do mês. A receita? “Simples”, afirmou. Ela não gasta com futilidades. “Compro apenas o necessário. Não fujo da lista do supermercado, por exemplo. Assim é mais fácil ter o controle”, indicou.

 

Outra que sabe controlar gastos é a doméstica Conceição Maria dos Santos, 37. Todo mês, ela reserva parte do salário, pouco mais R$ 1 mil para o próximo mês. Com isso, já conseguiu juntar, até agora, quase R$ 600. “Acho fácil. É só ter controle. Para mim não é um mistério, é uma solução que previne problemas”, alertou.

 

Mãe de três filhos, ela sustenta, além da casa, duas delas. “São boas meninas, merecem tudo que invisto nelas. Por isso mesmo é que controlo os gastos, para que não falta nada”, salientou. A doméstica, que trabalha na Asa Sul, recomenda aos gastadores que poupem escolhendo bem o que vão provar. “As marcas fazem toda diferença nos preços”, aconselhou.

 

 

“A culpa é do governo”

 

Para o professor Adolfo Sachsida, especialista em Ciências Econômicas da UCB, uma das dificuldades que o brasiliense encontra na hora de economizar são os altos preços da cidade. “Aqui, pagamos IPVA, seguro obrigatório e uma taxa extra. É absurdo”, salientou. Outro ponto abordado pelo economista são os valores dos aluguéis. “Ninguém aqui em Brasília aluga um apartamento de dois quartos por menos de R$ 2 mil. Isso também não ajuda o consumidor”, afirmou.

 

Todas as taxas, os preços e impostos pagos pelos brasilienses, são, segundo o professor, culpa do GDF. “Por exemplo, além do custo absurdo da obra do Estádio Nacional Mané Garrincha, nós pagamos, em impostos, a taxa de depreciação da obra, que vai ser de, no mínimo, R$ 75 milhões ao ano. Com esse dinheiro, daria para pagar seis mil bolsas de estudo no Sigma. Mas essa não é prioridade do governador.”

 

Poupança

 

Questionado se o brasiliense sabe poupar, ele garantiu: sim. Porém, o que dificulta a tarefa é mesmo o alto custo de vida da cidade. “Impera na cidade o Setor Público. E quem paga o pato é o setor privado, que fica exposto às altas taxas que somente funcionários públicos, com bons salários, podem bancar”, garantiu.

 

Para ele, a dica na hora de economizar é, primeiro, “votar num governo que não roube tanto”. Além disso, tentar ter liberdade financeira, que significa escolher melhor os produtos na hora de comprar, comparar preços. “Quando a gente muda, mudamos a mentalidade dos políticos. O brasiliense precisa se revoltar e ver que não é obrigado a pagar caro por tudo”, disse.

 

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