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Brasília

Beleza desperdiçada

Arquivo Geral

01/10/2013 7h00

Um filme antigo, que não cansa de se repetir nas estranhas negociações da Terracap. Relatório enviado ao Ministério Público do DF (MPDFT) pelo distrital Chico Leite (PT) revela que após 17 anos de vigência, o contrato firmado entre a estatal e a Empresa Sul Americana de Montagens S/A (Emsa) para exploração dos lotes do Pontão do Lago Sul não está sendo cumprido. De acordo com o documento, caso todo o potencial construtivo da área fosse aproveitado, algo em torno de 4,7  mil m2, o valor arrecadado poderia ser quatro vezes maior do que hoje, passando de R$ 42 mil mensais para R$ 160 mil. O que resultaria, em todos esses anos, um total de nada menos do que R$ 32,6 milhões.

 

De 30 unidades, a concessionária ocupou apenas quatro efetivamente, além de não ter implementado o projeto paisagístico. O resultado  disso é o péssimo retorno financeiro para o órgão, que já sofre, segundo seu próprio Conselho Fiscal, com a redução de 80% das disponibilidades financeiras desde a construção do Estádio Nacional. 

O contrato previa até a construção de museu, coretos, anfiteatros, trapiches, pedalinhos e quadras poliesportivas. Portanto, sugere o relatório, a Terracap estaria se omitindo ou sendo condescendente ao fiscalizar a fiel execução do planejamento. 

 

Além disso,  a companhia teria deixado de cobrar a ocupação dos outros 26 lotes restantes. Por isso, “não pode alegar, nesta altura dos acontecimentos, qualquer desconhecimento da forma como a área estava sendo ocupada”, informa o documento. 

 

“Contratos que envolvem entes públicos incluem, sim, a fiscalização do que está sendo feito. Portanto, a situação é ilícita e o poder público deve apurar o que está acontecendo. Os responsáveis por essa inexecução devem ser punidos. Principalmente porque pode ser considerado um ato de improbidade administrativa, além de poder ser uma ação intencional, com o objetivo de beneficiar alguém”, avalia o especialista em administração pública Aldemário Araújo, da Universidade Católica.

 

 O caso já foi analisado  pelo Ministério Público do DF. Agora, o órgão aguarda manifestação da Terracap. Porém, o promotor  Roberto Carlos Silva  classificou a denúncia como “grave”. “Precisamos ouvir o que a Companhia tem a dizer. A acusação é grave, por isso seria precipitado emitir juízo de valor agora”, acrescenta. 

 
Versão Oficial 

 
A Terracap não se posicionou sobre as acusações. Porém, a administradora do Pontão, Emsa,  declarou  que em relação às indagações formuladas, esclarece vir cumprindo de forma tempestiva e integral para com todas a suas obrigações. “Portanto,   a Emsa já executou a urbanização completa da referida área, incluindo seu projeto paisagístico. A Emsa acredita, veementemente, que Brasília, por meio do Pontão implantado, desenvolvido e mantido pela mesma, conta com uma das melhores áreas do País para o lazer, esporte, turismo entretenimento e gastronomia, com enormes ganhos de qualidade”.
 
 
Servidores sugeriram soluções

 
O contrato previa rescisão no  caso da inexecução total ou parcial do projeto.  O tempo de vigência da concessão foi estipulado em 30 anos.  O relatório dos servidores da Terracap aponta   possíveis soluções para o problema: “sentar à mesa de negociações e promover medidas compensatórias”, e  “fazer um   levantamento de toda a situação,   para aperfeiçoar os mecanismos de gestão e contratos futuros”.
 
 A última sugestão, que expõe a fragilidade do  órgão ao gerir os imóveis, vai ao encontro das  denúncias de gastos excessivos aliados às dívidas da companhia, que chegam a quase R$ 930 milhões.
 
 
O rápido enfraquecimento no caixa da estatal chegou a tal ponto que o Conselho Fiscal determinou, na época, que se evitasse assumir novos gastos. Porém, como contrapartida, a resposta foi aumento nos gastos em mais de 1.100%. Em razão da falta de recursos, um empréstimo de R$ 50 milhões foi cedido pelo Banco do Brasil. Porém, não foi de graça: a garantia eram seis lotes no Noroeste, no valor total de R$ 20 milhões. “É uma atitude condenável”, resume  o especialista em gestão pública José Matias-Pereira.

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